JORGE ROBERTO E O PASTOR

Era o primeiro ano de trabalho do pastor Alejandro Bullón, o inicio do seu ministério, que é o termo usado no mundo evangélico. Um pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Que desde então é visto como um dos maiores pastores evangélicos desta Igreja. Ele trabalhava numa favela perigosa de Lima, no Peru. Ele havia sido enviado para lá devido à sua capacidade e talento para pregar a Palavra de Deus, de uma forma envolvente, hábil, profundo conhecedor da Bíblia e consagrado a Cristo. Era uma favela com muitos marginais e delinquentes que não tinham nada a perder... Vidas vazias frutos de famílias desestruturadas.

Uma noite enquanto ele descia dessa favela, dois rapazes o encurralaram num caminho estreito e escuro. Um deles colocou uma faca no seu peito e nesse momento ficou tomado de espanto e medo, tremendo-se. Entregou a carteira, o relógio, uma caneta bonita que tinha e disse:

- Por favor, não me façam mal, não precisam me machucar, eu sei que vocês precisam de dinheiro, levem tudo que tenho, mas poupe minha vida, não me machuquem, eu sou um pastor, não faço mal a ninguém. Aqui na minha pasta tem apenas minha Bíblia, não tenho mais nada. O que tenho de valor é o que tenho em minhas mãos e já mostrei; levem, mas não me façam mal.

Eles riram da atitude do pastor, estavam acostumados a reações mais tempestivas de outras vítimas e ficaram surpresos com a atitude e a personalidade do pastor. Estava muito escuro, então pegaram o dinheiro e os objetos pessoais dele e sumiram. E o pastor, embora trêmulo, ficou agradecendo a Deus porque não fizeram nenhum mal a ele.

A Igreja tinha preparado para aquela cidade uma grande cruzada evangelística e este pastor era o nome maior do evento. Ele tinha se preparado para esta campanha evangelística e estava ansioso para chegar este momento. Quando chegou o dia para a primeira conferência, o local estava repleto de gente, muitos marginais estavam lá presentes, não por causa da mensagem, mas devido às meninas bonitas que cantavam. Eles entravam molestando as meninas e, de qualquer forma, estavam lá. Na primeira noite, viu um rapaz que o olhava, quando o pastor olhava para o outro lado, o rapaz olhava para ele e quando o pastor fixava o olho nele, o mesmo abaixava, se escondia atrás da pessoa que estava a sua frente. E em outro momento em que o pastor Bullón se dirigia à plateia e virava-se percebia que o rapaz continuava observando-o. Por esse detalhe descrito o rosto dele ficou marcado na mente do pastor.

Na segunda noite, aquele jovem não apareceu, se passaram a terceira e quarta noites e nada do rapaz, ou seja, ele não voltara mais para assistir às pregações. Contudo, como acontecia em cada noite evangelística, um grupo de bonitas jovens anotava os nomes dos visitantes e seus respectivos endereços. E este pastor começou a visitar as pessoas e foi assim que um dia ele chegou à casa deste rapaz. O pastor percebeu a hora que ele se escondeu, a mãe saiu para atendê-lo, perguntou-lhe pelo filho dela, o Jorge Roberto, e ela disse que ele não estava.

- Senhora, acabo de vê-lo, sei que ele está aí, chame-o. Ele não tem que ter medo, eu sou um amigo dele, eu sou o pastor que está pregando aqui perto, disse Bullón.

Saiu enfim o Jorge Roberto, estava ele sem camisa, no seu corpo viam-se marcas de cicatrizes de facadas e balas. Uma vida feita nos bairros marginais da cidade de Lima. De forma assustada fitou seu olhar para o pastor, indagando o que ele queria. Ao que o pastor respondeu...

- Estou com saudade de você, fostes na primeira noite e não voltou mais, não gostou da conferência?

Começaram a conversar e de repente o pastor sentiu uma sensação diferente; ficou frio, gelado, porque o rapaz confessara que ele era aquele rapaz que colocou uma faca no peito do pastor, tirando seu relógio e dinheiro. Pediu que confirmasse que ele fora o autor do assalto e ele confirmou...

- Sim, fui eu. Eu pensei que você tinha me reconhecido porque na primeira noite de conferência, você olhava e olhava pra mim.

- Não... Eu não o reconheci porque quando me assaltou estava escuro, mas agora que você está confessando... Onde está meu relógio e meu dinheiro? Disse o pastor.

Jorge Roberto falou que agora não tinha mais nada daquele roubo. E o pastor disse não haver problema e que o rapaz tinha que pagá-lo, uma vez que estava confessando o assalto. Diante da recusa do jovem de pagar e da sua óbvia pobreza, o pastor propôs-lhe o seguinte:

- Eu vou pregar noventa noites seguidas aqui, se você não perder uma noite até o fim, você pagou a dívida. Agora se você não assistir, você tem que me pagar o relógio.

- Tá bom, eu irei lá, disse o rapaz com voz trêmula e com semblante caído.

E naquela noite, ele apareceu; sempre aparecia, às vezes na metade do sermão, às vezes no início e até mesmo no fim. Ficava na porta; parado, como dizendo... Olha eu aqui, estou pagando a dívida. Entretanto, ele não mostrava interesse na mensagem. Quando entrava, ficava assediando as meninas, realmente não se percebia nele vontade clara em aprender e assimilar algo daquela mensagem.

Felizmente, em uma noite, o pastor sentiu que o espírito de Deus operou, realizou uma ação divina sobre aquele jovem.

Nós podemos brincar com as coisas divinas um momento, e vários momentos sucessivos, podemos fugir de Deus um Mês, um ano ou mais de um ano, mas não podemos evitar, desviar-nos der Deus o tempo todo. Mas tarde ou mais cedo, o espirito de Deus nos agarra...

E naquela noite o pastor Alejandro Bullón viu Jorge Roberto ser sacudido, o viu chorar. Quando terminou a mensagem, foi cumprimentar as pessoas na porta; mas Jorge não saiu e ao final, o pastou notou Jorge Roberto sentado em um banco e com a cabeça entre as mãos chorava como uma criança. Sentou-se perto dele.

- O que acontece com você? Perguntou o pastor.

Pastor, é verdade o que o senhor pregou?

- O que?

- Deus pode mudar minha vida num segundo?

- Claro que pode!

Jorge olhou para o pastor com raiva e disse:

- Não, Ele pode mudar a vida de qualquer um, a minha Ele não pode, ninguém pode mudar a minha vida...

- Por que Jorge?

Foi nesta hora que Jorge contou umas das mais tristes historias que o pastor Bullón já ouvira em toda sua vida até então...

- Pastor, eu não conheci meu pai, minha mãe era uma prostituta, trabalhava num prostíbulo, eu fui gerado lá, nunca conheci meu pai, quando eu tinha cinco ou seis anos, todas as crianças tinham pai, menos eu, e perguntei à minha mãe, mãe por que eu não tenho pai! E minha mãe me deu um tapa na boca, me dizendo que isso não se pergunta nunca. Mas eu não precisei mais perguntar, porque um amigo na rua me contou por que eu não tinha pai. Naquele dia eu senti algo terrível contra minha mãe; mas o que eu podia fazer? Minha mãe era tudo que eu tinha... Ah pastor, quando eu era criancinha, engatilhando; enquanto minha mãe vendia seu corpo, as outras mulheres tomavam conta de mim. Eu comecei acordar para vida, respirando lixo desta vida. Quando eu tinha onze, doze anos, minha mãe ficou tuberculosa, começou a vomitar sangue, as mulheres então a expulsaram, a minha mãe não podia trabalhar mais lá. Não tínhamos pra aonde ir, então viemos para esta favela. Ela tinha feito uma espécie de buraco no morro, tinha colocado uma porta de latão e eles moravam lá como bichos, como animais. Pastor, numa noite, minha mãe estava morrendo literalmente, numa manhã estava vomitando sangue, o lençol branco todo cheio de sangue, minha mãe estava morrendo e eu tinha apenas 11 anos e não tinha ninguém na vida... Ah pastor minha mãe tinha ido pela manhã ao médico, ele havia dado uma receita, mas não tínhamos dinheiro para comprar o remédio, eu fui pedir auxílio aos vizinhos para que me ajudassem a comprar o remédio. E, no entanto, ninguém se interessava por nós, não houve uma só pessoa que quisesse ajudar. Foi então que desci o morro, fiquei lá embaixo no ponto do transporte; homens e mulheres andando, mulheres com carteiras, com bolsas, com brincos, com joias... Eu era um garoto com onze anos, não sei de onde tirei coragem; avancei contra uma mulher e tirei a corrente de ouro e corri o mais que pude, subi o morro. Eu sabia quem comprava ouro aqui, vendi a corrente, peguei o dinheiro e sabia que não tinha tempo a perder, peguei o primeiro transporte que ia à cidade, comprei o remédio da minha mãe e quando chegou à tarde, entrei em casa e dei o remédio para ela. E naquele dia, aqui dentro do meu coração, se quebrou umas das coisas mais bonitas que eu tinha, porque a partir daí; eu entendi que eu não precisava de ninguém para poder viver, eu podia viver sozinho. Foi então que eu comecei a descer todos os dias com o intuito de tirar os pertences das mulheres; depois correr, fugir e vender... Nunca mais passei necessidade, aprendi a fumar, e para piorar, percebi que o cigarro não bastava, comecei a fumar maconha; esta já não bastava, comecei a cheirar cocaína e ainda não o suficiente, passei a me injetar cocaína.

E ele chorando, continuou:

- Pastor, olha para mim, eu já violentei mulheres, eu já roubei. Talvez eu até já matei, eu sou um viciado em drogas. Para poder sustentar o vício eu passo drogas, sou um traficante; eu sou a escória, eu sou um lixo, eu não presto, eu não valho pra nada. E agora o senhor vem, o senhor que nunca sofreu, você que não conhece a vida que eu conheço... Vem me dizer que Cristo pode mudar minha vida em um segundo?

- Jorge, não sei, só sei que Deus ama você! Disse Bullón.

Então o pastor orou com ele e no dia seguinte o rapaz não voltou, bem como no outro dia, e nos dias que se seguiam...

Mas um dia quando o pastor estava terminando de pregar, a mãe dele apareceu e começou a chamar lá da porta. Pastor, pastor... E quando terminou a pregação ele foi ao encontro dela e ela disse...

- O senhor tem que ir a minha casa, o Jorge Roberto precisa da sua ajuda. E o pastor correu com ela e quando ele entrou, viu um quadro grotesco: Jorge estava amarrado com as duas mãos à cama. A mãe contara o que havia acontecido. Naquela tarde, ele chegou em casa, começou a andar como leão enjaulado, de um lado para o outro e em toda casa e dizia...

- Eu tenho vontade de usar droga, eu preciso usar droga, mas eu não posso usar mais droga porque Cristo mudou minha vida.

Entretanto à medida que o tempo passava, o desejo de usar droga ia crescendo dentro dele e fica desesperado do quarto e anda inquieto de um lado para outro e afirmava para o pastor que precisava da droga, mas que não queria usá-la mais, pois Cristo mudara sua vida. E em um momento de estrema ansiedade pela droga, ficou tão nervoso que deu uma cabeçada na parede abrindo uma ferida e o sangue escorreu pelo seu rosto. A mãe chegou perto dele e disse...

- Filho, se precisar, use droga; mas, por favor, não se machuque.

E ele deu um tapa na mãe, caindo esta no chão. Depois percebendo o que tinha feito, recolheu sua mãe, falando...

- Mãe, por favor, me perdoe, estou louco, eu preciso de droga. Mas eu não posso usar mais... Mãe, você não entende, Cristo mudou minha vida, eu não devo usar mais droga. Eu te peço, me amarre, porque se você não me amarrar, eu vou procurar droga e não quero mais!

E quando a mãe o amarrou, ele pediu que procurasse o pastor, que tinha certa certeza de que o mesmo estava na igreja. No momento que ele entrou na casa, Jorge o insultou, xingou... Mesmo assim, o pastor soltou a mão dele; o jovem sentou-se na cama pálido, tremia e chorando, perguntou...

- Pastor, será que eu vou conseguir?

O pastor o abraçou...

- Jorge, você vai conseguir!

Aí começou a grande luta desse rapaz. Agora, todas as noites estava no templo. Vinha-lhe o desejo da droga, e pedia:

- Mãe, me amarre aqui no poste.

E amarrado ao poste, ele esperneava, gritava, xingava... Até que o desejo da droga passava.

Quando ele não aparecia na igreja, o pastor sabia: Ele tinha se drogado. Numa sexta-feira, à noite, ele não apareceu. O pastor foi para casa de Jorge e ele não estava. Mas o pastor Bullón sabia onde ele estava. Bullón passou a conhecer os pontos de droga; os locais onde os marginais, as prostitutas e drogados se reuniam. E na sexta-feira seguinte, também à noite, ele encontrou Jorge. Este rapaz então chorou ao ver o seu estimado pastor e disse...

- Pastor, eu maldigo a hora que te assaltei, com tanta gente para assaltar, eu tinha que encontrar você em meu caminho? Eu não te conhecia. Quando você me ensinou todas as coisas sobre Jesus, eu era feliz à minha maneira, eu vivia uma vida torta. Mas a consciência não me perturbava; hoje não, hoje eu sinto que Jesus me fala, que Jesus me chama! E eu não posso, e não consigo... Vá embora, esquece-se de mim. Eu nunca vou sair daqui, eu não tenho forças.

- Jorge, você vem comigo...

- Pastor, este lugar não é pra você. Este ambiente não é para você...

Mas o pastor o respondeu:

- Jesus deixou tudo e veio viver aqui. Ele está chamando você!

Passaram meses, uma luta de vida e morte contra a droga, contra a vida passada.

Não há nada que Jesus não possa fazer em sua vida, não importa o que amarra você, o que escraviza você, ou o vício que você carrega na vida, nem mesmo seu caráter e temperamento. Não há nada na vida que Jesus não possa mudar e que não possa transformar!

E um dia, definitivamente, Jorge colocou sua vida nas mãos de Deus. Uma dia, Jorge parou de usar droga, parou de roubar; deixou para trás a vida marginal, vazia e inútil que vivia.

O pastor Alejandro Bullón conseguiu um emprego para ele numa fábrica de sapatos. Foi inesquecível para este homem de Deus, o dia em que Jorge recebeu seu primeiro pagamento. Mais especificamente uma sexta-feira. Veio o rapaz à casa de Bullón, para compartilhar esta alegria. Parecia uma criança com um brinquedo novo...

- Pastor, olha esse dinheiro, é o primeiro dinheiro que não roubei de ninguém, eu ganhei esse dinheiro com minhas mãos. Separou seu dízimo e entregou para Jesus o que era dele. Estava feliz.

E quando chegou dezembro, Bullón não podia batizar alguém porque não era um pastor ordenado, mas levou Jorge até o tanque de batismo e outro pastor o batizou em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo! E quando Jorge saiu, o pastor Bullón o abraçou e seu terno ficou molhado; talvez com a água da túnica molhada de Jorge, talvez com a lágrima que os dois derramavam. Porque Bullón estava abraçando um rapaz que um dia colocou uma faca em seu peito para assaltá-lo. E agora Deus entregava Jorge para ele; como um presente de amor para sua Igreja!

No ano seguinte, pastor Bullón mudou de distrito. Mandaram como missionário para a Amazônia, e a única pessoa que despediu desse pastor e sua família, foi Jorge. Entretanto, quando disse adeus para ele, Bullón não sabia que nunca mais ia ver esse rapaz nesta Terra, porque um ano depois quando saíra de férias, alguns membros da igreja de Lima o procuraram e disseram:

- Pastor, seu amigo Jorge está morto.

- O que foi que aconteceu com ele? Perguntou.

- Num sábado pela manhã, na igreja que agora temos naquele morro, na capital do Peru, o pastor estava cumprimentando todos os irmãos depois do sermão, Jorge cumprimentava o pastor e ao sair ficou na rua, na calçada da igreja. E quando todos estavam saindo, três ex-capangas da gangue de marginais da qual Jorge saiu, numa operação de queima de arquivo, enfiaram sete facas naquele rapaz, na porta da igreja. Tudo foi tão rápido que ninguém conseguiu fazer nada. Os irmãos (membros da igreja) correram para levantá-lo e Jorge com um gesto de dor disse:

- Irmãos não me toquem, eu acho que vou morrer; mas não faz mal, estou feliz, porque foi aqui que Jesus me encontrou, me amou, me perdoou e me transformou! Pagaram o corpo de Jorge e puseram num carro. Um diácono tinha a cabeça de Jorge no colo e este diácono contara ao pastor Bullón, que ao chegar ao hospital, Jorge abriu os olhos e disse:

- Irmãos, façam um favor pra mim...

- Pois não, Jorge...

- Procurem o pastor Bullón, fale para ele que a gente se encontra lá nos céus!

Logo depois Jorge estava morto.

O pastor Bullón quer afirmar que um dia encontrará com Jorge lá nos céus, quando Cristo voltar!

GMarcone
Enviado por GMarcone em 23/04/2015
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