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Transparência para as Crianças

Belém, pensando no Rio Ituxi, 21 de Novembro de 2014.

Neste mundo de Deus, a Terra é muito Água, diria eu. E na memória que vi dona Maria Lúcia a lavar suas panelas lá no rio Jaburu, em Gurupá, percebi a cumplicidade forte entre aquela amazônida e a água, tão acostumadas uma com a outra no dia a dia. Mas sendo elas cordiais reciprocamente, como pode haver desconfiança?

A desconfiança da água é a poluição que faz o homem em volume cada vez maior, de dejetos que conseguem matar um rio inteiro. A condição humana boiando fétida nos canais de nossas cidades. Do garimpo longe, mas que inevitável é o mercúrio corroer os peixes e os neurônios das gentes que nada tem a ver com a cobiça de outros poucos evoluídos, por uma pedra na versão humana mais valorosa que a água, a fonte da vida.

A desconfiança da mulher é reparar que a água bebida por sua família tem cor, tem cheiro e é bastante pesada a acumular o barro no fundo dos copos. Que não pode conter a diarreia frequente de sua meninada por não saber como tratar a água de maneira eficiente. Sua intuição apita para o perigo, mas faltam as condições para lidar com o apuro. Algumas mais sabidas coletam água da chuva, não confiam nos rios.

Nas décadas de 1980 e 1990, o cólera foi um fantasma a escorrer pelos rios e igarapés na região Norte do Brasil. Lembro dos noticiários. Do medo dos moradores da floresta. Movimentou-se a sociedade e o governo. Anunciou-se o hipoclorito. Diminuiu-se o mal. Contudo, não se criou uma nova mentalidade coletiva de cuidar de nossos recursos hídricos de maneira taxativa.

E assim, no século XXI, impressionando o famoso economista Eduardo Giannetti, o Brasil tem avanços econômicos de século XXI e vanguarda, mas com problemas sociais de século XIX. Para os cidadãos de bem que se incomodam cada vez que surge uma nova obra faraônica e inócua feita no Brasil: não é possível uma criança beber água de má qualidade!

É inapropriado dizer Brasil entre os 20 mais ricos do mundo, quando escolas não tem água para matar a sede de seus estudantes.

É inadmissível.

Dois baldes de margarina vazios. Duas velas de filtros. Uma torneirinha. O hipoclorito. Eis o filtro Rafaela. Apelidei de filtro Rafaela tal utensílio por surpreender-me com a simplicidade com que a enfermeira Rafaela Dumont ensinou famílias a fazer filtros que custam, no máximo, 35 reais, quando dos trabalhos que fiz em Almeirim pelo Instituto Floresta Tropical.

Não sei se você inventou isso amiga Rafaela, mas seu filtro hoje em dia cuida das pessoas.

Depois do que vi, não consigo conceber uma criança maltratada pela água.

Maltratada pelo descaso.

Maltratada pela inversão de valores.

Criança é o cúmulo da vida.

Água é vida.

Criança e água numa transparência só.
Pantoja Ramos
Enviado por Pantoja Ramos em 21/11/2014
Reeditado em 18/05/2016
Código do texto: T5043924
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Pantoja Ramos
Belém - Pará - Brasil, 44 anos
294 textos (10752 leituras)
75 áudios (2405 audições)
38 e-livros (2445 leituras)
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Pantoja Ramos