Elas mataram,mas não eram assassinas
Será que dá para entender um pouco da angústia eterna dos que vivem nas trevas e no limite da vida, da aflição dos delinqüentes por falta de amor e da solidão dos esquecidos?
Penso que Jean Genet, dramaturgo francês, escreveu As Criadas pensando alcançar [talvez] esta compreensão em algum humano.
A peça foi inspirada no filme Murderous Maids, que conta a história verídica de um crime hediondo ocorrido na França em 1933, onde duas irmãs -27 e 21 anos- exauridas de humilhações e desafeto de todas as maneiras, traumas de infância e conflito pela relação incestuosa, mataram brutalmente a patroa e sua filha.
Por mais absurdo que possa parecer o que afirmo, o filme faz o espectador enxergar com outros olhos o lado das irmãs criminosas que acreditaram ser o crime o único caminho de se libertarem daquela quase prisão amaldiçoada.
Uma mansão escura, triste, cheia de coisinhas (quadros, esculturas e pequenos objetos) que não podiam ser sequer observados com admiração, tocar então? Só na hora de limpar sua poeira e danificá-los era motivo de ouvirem um rosário de palavrões, rebaixamento moral e insultos intermináveis.
Elas (a patroa e a filha) eram detestáveis, intragáveis e insuportáveis criaturas. A patroa tinha mania de usar luvar brancas para averiguar se havia objeto empoeirado.
Certo domingo, uma das criadas passando roupa, queima sem querer[obviamente] uma blusa da patroa que ao chegar em casa, no fim da tarde desse mesmo dia, encontra as LUZES APAGADAS. Elas estavam trancadas no quarto[sótão] com medo, muito medo do que estava para acontecer.
Foi o bastante para a madame entrar rosnando, bufando e azeda de ódio, só porque as luzes estavam apagadas e elas não estavam de plantão para recebê-las. O resto da para imaginar. Os insultos [nada razoáveis] dessa vez não foram suportados em silêncio pelas subalternas.
Logo, entre tapas e berros ásperos, mãe e filha são arrastada escada a baixo. Tiveram vários membros mutilados, os olhos que foram arrancados com as mãos. Depois do ato consumado no casarão sombrio, detaram-se naquele mar de sangue, cansadas a espera de nada, em silêncio...
Sem expressão de arrependimento, sem planos... Não sei o que passava na cabeça delas. Talvez o desgaste tenha sido tão absurdo que nem cogitaram fugir. Ficaram alí, quietas até a polícia chegar.
Uma morreu na prisão vítima de depressão pouco depois. Tempos depois a outra enlouqueceu e morreu, vítima do mesmo mal por não suportar viver longe de sua amante/irmã.
Por fim, mesmo sendo contra qualquer tipo de violência, sempre defendi que nada justifica o crime e continuo defendendo e acreditando nisso, mas incrivelmente este fato me contagiou com uma ternura pagã pelas criadas que, definitivamente não eram marginais nem perigosas e jamais pensaram em matar alguém. Eram humanas e tiveram seus limites de tolerância esgotados como ninguém jamais[suponho] pode imaginar ou julgar.