Seiscentos gramas por favor
Bonito de doer a retina! Nossa senhora!
Assim perceberam um jovem de altura [in]desejável (para elas que gostam dos pequenos) pedindo “600g de queijo coalho – fatiado por favor”!
Detalhe: ele falou seiscentos gramas.
Suficiente para fazer voar a imaginação das duas sobre aquele rapaz na padaria vésvera de feriado, sozinho às 7 da noite.
Elas são solteiras.
Uma de Caruarau, interior de pernambuco(logo alí), terra do famoso Mestre Vitalino, jovem(vinte e poucos anos), artista(atriz das boas), desinibida, linda, cult, inteligente, urgente, emotiva, estudou ballet, piano, leu mil livros, escreve e é quase realizada na vida.
A outra de Serra Talhada, sertão do mesmo estado(lá na "baixa da égua", como dizia vovó quando o lugar era longe) terra de Lampião - gangaceiro brabo - (aff! uó), dona de casa,(trinta e alguns poucos, bem poucos anos) mãe chata, pragmática, apressada, intolerante, às vezes engraçada, apaixonada por cinema, quadros, tintas, pincéis, artesanato, adereços, havaianas e quase realizada também.
Ambas moram na capital.
Voltando ao bonitão da padaria...
Dona de casa:
- Acho que é de fora, tinha sotaque diferente.
Atriz:
- Será que é solteiro?
Dona de casa:
- É nada. Um gato daquele não ia ta sozinho nunca!
Atriz:
- Ele pode ser novo na cidade, tem cara de estudante.
Dona de casa:
- Será gay?
Atriz:
- Não, acho que não. Mas se for, não parece.
Sim porque, em Recife, fora noivo, casado, gay, padre e os mal educados que comem de boca cheia, arrotam e peidam sem cerimônia, restam quase nada pra's poucas heteros.
Dona de casa:
- Acho que é estudante de mestrado vindo de alguma cidade. Estudante e inteligente, pois pediu seiscentos gramas e não "seiscentas" como a classe não[mal] letrada costuma falar e pelo jeito mora só, pois pediu queijo fatiado, sinal de quem não tem empregada e não queria ter trabalho na hora de assar.
Assim a conversa rendeu por horas a fio. O fato é que elas chegaram em casa e só então lembraram o feriadão e a falta que o pão que elas esqueceram de comprar faria nos dias seguintes em que tudo era fechado. Mas não pareciam se incomodar, pois o gato da padaria pedindo seiscentos gramas de queijo coalho-fatiado- compensava qualquer necessidade de comer. Mentira absurda! Elas cozinharam como nunca, inventaram pratos ótimos e passaram muito bem, mesmo sem pão e sem romance.
Curiosamente a mais nova comentou depois que ele poderia ser de fato solteiro e estava em companhia de amigos em um apartamento mal arrumado qualquer ali pertinho delas. A mais velha achou por bem acreditar nesta suposição, considerando a quantidade generosa de pão e queijo comprados e pensando quieta... Já que era pra usar a imaginação que usassem a favor delas que são solteiras, têm histórico de romances fracassados parecidos e mesmo não apreciando os aproximados 1.80m de altura do rapaz, ele servia para qualquer coisa diferente de “nuvem passageira”.
Servia no mínimo pra namorar, pra conversar, pois tinha carinho e gentileza no modo de falar, não parecia gay e àquela altura do campeonato [solitário] das duas, com a chuva daquele fim de semana longo...
O cansaço da busca pelo ideal, [bonito, inteligente, pequeno, solteiro, independente e hetero] deu lugar à importância de ter alguém na vida que (lógico, entre outras virtudes indispensáveis às duas amigas exigentes) naquele momento apenas soubesse pedir “por favor” e falasse seiscentos gramas.
Era o bastante para o fim de semana.