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Rio Paru, até o Panama

                   Almeirim, Pará, Amazônia, Brasil. 29 de janeiro de 2014.

Dizer que este texto deveria ser um registro de trabalho, mas é quase todo de admiração. Não, não conhecia o rio Paru, somente o outro lado, o Jari, aquele que povoou minha infância. Muitas paredes me impediram de ver o surpreendente Paru e suas comunidades, plantas, bichos, lendas, sabores e paisagens. Tudo tem o seu tempo e oportunidade e precisam ser bem aproveitados.


No começo da viagem, fiquei desconcertado ao saber que a cidade de Almerim fica relativamente próxima à boca do Paru, eu que achava por meio dos mapas que seriam quilômetros e mais quilômetros. Na verdade, há uma guerra de dimensões em nossa mente: quando crianças, os homenzarrões de antes não passam de medianos quando crescemos e na geografia às vezes superestimamos os territórios mapeados em seus tamanhos. Quando o caminho é feito, não fica tão longe nem tão grande assim, penso.


Seu Chico falou-me de sua juventude, de seu tempo de remada até chegar às altas quedas d´água. Uma saga que durava um mês, ou, de acordo com a precisão do viajante citado, 32 dias à procura da balata, vez ou outra topando com as tribos indígenas que circulavam por ali. E naquilo que me permito relatar, fecho limite de minha observação da Cachoeira do Panama até a foz do Paru.


E subindo o rio vi um mosaico de paisagens, das águas barrentas que cercam as ilhas de várzea próprias da influência direta do rio Amazonas, do saltar de camarões e corrida dos bagres migradores como a dourada e a piramutaba. Maravilhado fiquei com a presença das serras que em alguns momentos dava guarita ao Paru e aos buritizais, rápidas lembranças dos sertões do centro do país, até chegar à floresta. E cá e lá uma vila, com a maior atualmente sendo Barreiras, porque um dia outrora a comunidade Cafezal já a tenha sido.


Em Cafezal foi a contradição em pessoas: poucos plantam café atualmente, apesar do histórico. Daquilo que se tinha mantido, provei café direto da planta, nativo, vermelhos frutos, de terras onde havia certa friagem alimentados pelo relevo. Aquele cafezinho deve estar entre os três melhores que já tomei na vida, mas não indico qual vem primeiro, não me atrevo. É pegar uma bronca da mãe e da esposa. Então é isso, entre os de fora da família, o do Paru é o preferido, fica bem assim?


Infelizmente, a localidade de Cafezal está minguando, ano a ano. É preciso recuperar esta identidade comunitária. Mais do que isso, o território agroextrativista da região precisa ser protegido e preservado. Recreio, Santa Rosa, Catabaú, Barreiras também devem ter reconhecidas suas histórias, extrativismos e agroecologias locais.


Uma cachoeira como o Panama não pode virar hidrelétrica. É beleza demais em troca de nosso conforto consumista. Vão lá piuns, expulsem os gananciosos. Percebam almeirienses, valorizem suas matas. Pulem jaraquis para o nosso jantar. Alegrem ribeiros com suas prosas e causos. Misture feijão manteiguinha a formar o mais saboroso baião. Cresçam graviolas, alimentem as crianças. Vitaminem camu-camus, vitaminem sua gente. Mostrem aos moços, cacaus nativos, a antiga agricultura sustentável.


Afirme, Panama, como Deus é magnífico. Como diria Saramago, é pelo dedo que se conhece o Gigante...

Pantoja Ramos
Enviado por Pantoja Ramos em 01/02/2014
Reeditado em 05/12/2016
Código do texto: T4674207
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Pantoja Ramos
Belém - Pará - Brasil, 44 anos
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