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Palavra de inadimplente


Não sei o que Zuleica viu em mim. 

Se viu o que vejo todas as manhãs na frente do espelho, é um verdadeiro mistério que tenha ficado tão entusiasmada comigo, a ponto de conceder-me toda a sua atenção em quase duas horas de bate-papo. 

Dinheiro ou suspeita de ter diante de si um bom partido, fora de cogitação. Não pode andar atrás dessas coisas quem acaba de conhecer o cronista na Igreja de Santa Edwiges, oferecendo a essa famosa protetora dos pobres e dos endividados uma vela de 365 dias e assistindo às treze ou quatorze missas que foram rezadas durante todo o dia de ontem. Não sou católico praticante, mas o meu perfil riobaldo-tatarana em coisas de religião explica muito bem por que não dispenso nenhuma. Como dizia o outro em Grande sertão: veredas, eu também bebo água de todo rio. 

Tinha deixado o templo no final da sexta missa para fazer um lanche na primeira esquina, e encontro esse monumento nagô numa pastelaria ali próximo. Já disse em outras crônicas no meu Galho de Arruda (http://galhodearruda.com) que adoro pastel de queijo com caldo de cana. Não foi outro o meu pedido. 

Sentei-me a uma mesinha perto da porta da lanchonete, abri minha inseparável mochila de dez tostões e retirei dali Os caninos brancos, de Jack London. Queria terminar logo essa grande novela para poder esquecer a brochura no banco do trem, quando voltasse para casa. Naquele momento, mal podia imaginar que dali a instantes Jack London iria cair nos braços de Zuleica, provocando toda a minha inveja. 

Foi ela quem puxou assunto. Olhou para o adro superlotado da igreja, deu um suspiro de mulher bonita (não me perguntem como é suspiro de mulher bonita, só vendo) e disse na minha direção, mas sem deixar muito claro, lógico, que era comigo: 

“O que a gente não faz para sair da merda!...” 

Senti todo o desespero da mulher. E o seu forte desabafo não me soou vulgar. Não com aquela ruga estóica no entrecenho e aqueles olhos verdes cheios d’água, que um antigo fado português andou caluniando. Estava deprimida, muito deprimida, a mulata. 

Hora de dar uma escovada nessa alma, pensei comigo. 

“Veio também para todas as missas?”, perguntei a ela, esboçando um sorriso. Mas sorriso de caloteiro involuntário, sempre defensivo e culturalmente amarelo. 

Zuleica deu uma arqueada de sobrancelha deste tamanho ao ouvir minha pergunta, percebeu a ênfase em todas, e caiu numa risada tão gostosa, que em segundos estava outra; da água para o vinho, aproveitando o contexto. 

Veio para onde eu estava, fez questão de pagar uma nova rodada de pastel e caldo de cana, e, pasmem, deu uma puxada carinhosa em minha barbicha grisalha, numa intimidade de velha companheira de infância. Quis saber o que eu estava lendo, disse que não lia nada, por falta de incentivo e informação, ganhou os Caninos brancos de presente, falamos de mil coisas, comparamos o tamanho de nossas dívidas e rimos muito disso (ou ríamos ou dávamos um tiro na cabeça), trocamos telefones, e-mails, endereços... 

Em suma, Santa Edwiges funciona mesmo. Cheguei ali tão pobre de grana, gastei meus últimos níqueis na vela de 365 dias e no lanche da pastelaria, rezei, pedi o possível e o impossível, e volto para casa com a sensação de haver encontrado um tesouro.

[17.10.2006]
Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 31/03/2007
Reeditado em 31/03/2007
Código do texto: T433125

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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Luiz Guerra