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Perfume de ninfeta


Tinha acabado de ler uma nota engraçada numa coluna de ninharias do jornal. Aliás, não tenho nada contra as ninharias.

Levantei-me do sofá, aproximei-me da janela, acendi um cigarro. E olhei na direção da adolescente que tirava umas dúvidas de inglês com Betinha na mesa redonda da sala de estar. Concentradíssimas, não estavam nem aí para os meus movimentos.

De pura farra, como um vira-lata em busca de carinho humano, lancei no meio das duas:

“Katharine Tuck.”

Exasperada com a intromissão, minha ex-mulher não olhou para mim, deixando escoar toda a sua raiva num longo suspiro que vinha guardando para a primeira oportunidade. Mas a menina, depois de exibir-se para a professora corrigindo minha pronúncia, quis saber quem era. Sem me dar tempo de contar, Betinha comentou com ela:

“Nunca ouvi falar. Está me cheirando a modelo, cantora ou atriz de cinema.”

Errou feio a madame. Mesmo assim, pensei comigo, não deixava de ser bastante curioso que lhe cheirasse a alguma coisa justamente o nome da garota americana cujos tênis, no último dia 20 de março, ganharam o primeiro lugar num concurso de chulé.

De fato, Katharine Tuck, uma lourinha de apenas treze anos de idade, foi a grande vencedora do 32º Concurso Nacional de Desodorantes para Tênis Fedorentos, realizado em Vermont, nos Estados Unidos. (Eis a ninharia que me fizera interromper a leitura do jornal para passá-la adiante.) Pela façanha, a chulepenta embolsou o equivalente entre nós a cinco mil reais, dinheiro que atenuaria bastante a enrascada financeira em que o cronista se encontra.

Foi exatamente por isso que senti uma inveja danada dessa menina dos pés podres. Corto um dobrado para faturar uma mixaria aqui e ali com os meus demorados frilas, e Katharine Tuck, com a cara mais lavada do mundo (pelo menos, isso), não precisa mais que apresentar-se num palco, descalçar solenemente os tênis e exibi-los diante de uma platéia de desocupados, todos de nariz atento, para ganhar em uma única tarde dois mil e tantos dólares. Segundo leio agora no BondeNews, “o calçado chegou a poluir o ambiente onde estavam os juízes do concurso”.

Entrevistada pela mídia local, a malcheirosa lourinha declarou que devia tudo a si mesma. Foram meses terríveis de preparação e muita força de vontade para não desistir no meio do caminho. Não tirava os tênis para nada. Tomava banho e dormia com eles. No processo, brigou com os pais e as duas irmãs patricinhas, perdeu dois namorados, foi desprezada pelo seu próprio poodle, além de um sem-número de dissabores fora de casa.

Mas o resultado aí estava. Era a grande campeã deste ano, com vários miasmas de vantagem sobre o segundo lugar. E erguia diante das câmeras o tamanduá de bronze que recebera naquela tarde, mais o cheque abençoado. No próximo concurso, disse ainda, usaria um novo par de tênis. Os atuais ficariam pendurados atrás da porta do seu quarto. Para dar sorte.


[23.3.2007]
Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 23/03/2007
Reeditado em 27/03/2007
Código do texto: T423744

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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