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Orelhas de foca


Os dois compartilhavam uma cerveja junto ao balcão do Chinês, perto de onde eu estava. Conhecia-os de vista, sabia que eram peemes, à paisana então. Tenente e soldado de folga no velho bairro, trocando uma idéia. Tenho audição de índio tupinambá, mas, no meio da algazarra do boteco depois de mais uma vitória do Flamengo na Libertadores, a conversa deles chegava-me aos pedaços. Dava para perceber que falavam sobre as recentes baixas na corporação estadual, e aqui, sem dúvida alguma, baixas era um trocadilho hediondo. Quando eu pescava frases completas, entendia que estavam com medo. Não o medo dos calças-frouxas. Na verdade, o medo dos que vêem hesitação, amadorismo e muito erro de estratégia na retaguarda, se não acomodações de ordem política no andar de cima, o mundo dos maus lidadores da res publica, o mundo da conveniência.

Os dois peemes diziam mais ou menos isto:

Não param de matar a gente, cara. Carrego comigo apenas a carteira de advogado. Fora de serviço, só venho ao Chinês. Eu ainda saio com a família, mas para bem longe daqui. Só venho ao Chinês: bermuda, chinelo e carteira de maluco. Lembra do nosso colega lá no Gogó da Ema? [Decapitaram o policial fardado, enfiaram o corpo na mala e abandonaram o carro na porta da casa dele. Se não me falha a memória, foi encontrado ali pela filha ou pelo filho adolescente.] Tem de haver uma limpeza, nos dois lados. Nos três, você esqueceu as milícias. Parece que os homens estão reunidos. É muita autoridade na moita. Algum deagá [direitos humanos?] botando a boca no trombone? Isso é recado, malandro. No asfalto é por causa do aperto no morro, engole essa. O problema são as áreas de sombra, não a favela. Será que vão sair na porrada no tal encontro? Tem gente ali furiosa com o marasmo. Mas só furiosa. Eu também estou furioso com o meu salário. Nunca pensei em ir tanto a cemitérios. [Por sinal, idéia forte e oportuna o cemitério-de-pistóia montado na praia de Copacabana.] E o secretário? E o governador? Se bobear, estão pensando que é caso de polícia.

Perdi muito do papo devido à explosão de alegria rubro-negra, mas em casa, no meu radinho de pilha, soube daquela garotada fuzilada na porta de um colégio e peguei o secretário de Segurança declarando que, se os moradores das áreas de conflito não disserem à polícia quem são e onde estão os bandidos, não vai dar. Então está ótimo. Sem investigação competente, não resta outra coisa senão troca de tiros. O que não falta é gente de-avulso para as balas perdidas.


[17.3.2007]
Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 17/03/2007
Código do texto: T416400

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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