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Lembranças de um quarto escuro

 Começo este texto de forma pessoal, de antemão peço desculpas pelos meus erros pois não é tão fácil de escolher as palavras quando se está desabafando. Quem sou? Depois de longos anos usando máscaras e atuando no teatro da vida que esqueci completamente quem sou e perdi  minha verdadeira identidade.
         Sentada num canto qualquer do meu quarto escuro, onde as paredes são tão frias como me tornei por dentro, sim, digo me tornei pois não era assim, era como a primavera, com seus dias frios, quentes e amenos e mesmo assim viva tranquila porque sabia que no final haveria lindas flores a me alegrar, agora, estou como o inverno, cheio de tempestades, raios furiosos, pronto para destruir tudo que se ergueu com muito esforço.
          Escuto vozes no mundo lá fora, risonhas e tristes mas sempre com o ar de que são gestos falsos e ensaiados, aqui dentro do meu velho quarto escuro, o silencio grita mais alto que toda população terrestre em unisono, posso ouvir perfeitamente a batida do meu coração remendado “tum tum tum”, soa como um velho e gasto relógio.  Abro e fecho os olhos, não há diferença, a visão é a mesma, escuridão total, o externo reflete meu interior.
         Fecho os olhos e consigo distinguir perfeitamente a posição de cada objeto. Logo à  frente a minha cama, cuja tal repousei diversas vezes após um dia exaustivo, cama esta que me acolheu quando o mundo me rejeitou logo à minha frente, o violão a minha esquerda, violão este que as cordas já enferrujaram esperando canções felizes que nunca chegou, violão que diversas vezes me imaginei tocando as melodias mais belas que os ouvidos mais tristes quisera ouvir, do lado do mesmo, uma velha boneca de pano que ganhei de quem eu menos esperava, de alguém que me fez sorrir em tempos remotos, de alguém que hoje me felicito em saber que está melhor sem mim, ao lado a boneca estavam enfileirados os livros que passei diversas e longas noites percorrendo cada linha, criando um mundo só meu, parafraseando as ideias ali contidas, hoje, já não creio mais em finais felizes, me conte se tudo no final acabar bem. Abro os olhos, escuridão total, olho ao meu redor e vejo um objeto reluzir do outro lado do quarto e reluz, reluz como um sorriso convidativo, como uma proposta indecorosa. Reluz. Esse brilho me é tão familiar quanto ao da lua solitária. Reluz. O observo intrigada, como uma coisa pequena pode trazer uma mescla de escravidão com liberdade?
          Ah, minha velha lâmina... Quantas historias temos para contar...
         Me lembro como se fosse ontem... Será que foi ontem? As vezes eu me perco nos meus próprios devaneios... Me lembro como se fosse ontem as risadas, as gozações, a violência e ódio vindo sem razão ou motivo aparente, simplesmente ódio... Os humanos são a única especie capaz de atacar sem motivos, de seguir padrões sem ao menos questionar, desmerecem o termo civilização e roubam o titulo de animais selvagens. Roubam, maltratam, ferem, mentem e matam por prazer, apenas pelo simples fato de causar dor alheia. Ah, me lembro como e fosse ontem... Apelidos, palavras maldosas, atitudes perversas motivadas pro você ser diferente do que a sociedade afirma ser tolerável.
Ainda ali sentada, como muitas vezes fiquei, depois de um dia que parecia não ter fim, minha mente viajava, rostos passavam, palavras gritavam mas a dor que sentia não acabava.
J B Nevian
Enviado por J B Nevian em 14/02/2013
Código do texto: T4139682
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
J B Nevian
Salvador - Bahia - Brasil, 25 anos
11 textos (399 leituras)
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J B Nevian