METÁFORA GENTE

Como era de costume pelas tardes, eles seguiam juntos pela descida da mesma pirambeira.

Eu já os conhecia de longe e soube que, embora bastante diferentes, sempre foram inseparáveis e entre eles havia a nítida constatação duma relação de verdade, sincera.

Daquela vez passavam por mim rapidamente, todavia bem de perto pude notá-los nas suas gritantes diferenças que pareciam aproximá-los numa ternura imensurável.

Sem dúvidas, eram cúmplices de suas vidas flagrantemente dessemelhantes.

Ele num porte supremo e forte, cheirava a perfume fino, de odor exótico e trazia no pescoço uma gravata novinha em folha, listrada de nuanças dum marrom acobreado que, àquele pôr -do-sol, reluziam seu legítimos fios, tecidos numa fina seda natural advinda do primor da natureza que sempre tece suas tramas com perfeição.

Lembrava um elegante "lord inglês " pelas tardes de "london- fog".

Descia amparado por ela, algo obediente, comandado com delicadeza e carinho, e sem olhar para os lados focava apenas a rua a se deliciar da tarde calma, por vezes esboçando no olhar atento certa avidez pelos pássaros da vizinhança.

Ela, no entanto, mostrava em poucos detalhes a vida dura que levava.

Magra e franzina, vestia um algodão floral surrado e calçava um chinelo desses que fazem calos nos pés. Notei por acaso que lhe faltavam alguns dentes da arcada superior.

Seus cabelos negros com algumas cãs entremeadas emolduravam um rosto ainda muito jovem, delicado e bonito, todavia sofrido, de pouco trato, porém seus olhos espertos e eficientes não o perdiam de vista frente ao esforço que fazia para segurá-lo firme consigo, até quase finalizar o declive da pirambeira.

De repente ela se sentiu tracionada, perdeu o equilíbrio e quase tombou ao chão quando ele de súbito visualizou lá embaixo um semelhante seu. Forçando seu pescoço musculoso e viril ele disparou pela rua em fortes latidos a desatar sua coleira dourada e a perder a gravata de seda pelo asfalto.

Ela a recolheu com o cuidado dum zelo incondicional e placidamente deixou que ele seguisse seu instinto.

Ali na calçada eu já escrevia minha crônica do dia a permear meus questionamentos pelas diferenças do todo, frente à singularidade de cada ser.

Não me seria preciso escrever muito, apenas narrar os misteriosos status da vida na vã perplexidade de poucas letras.