UM DESPERTAR NA CALÇADA

Numa dessas manhãs do cotidiano, por volta das seis da matina e por motivos de força maior, eu me vi ali a observar o amanhecer em pleno centro da cidade de São Paulo, mais precisamente na praça do Patriarca, ali bem na calçada contígua ao Palácio da Prefeitura da cidade.

Cenário para lá de figurativo.

Enquanto aguardava a abertura da repartição aproveitei para observar aquele belo entorno arquitetônico do centro velho, algo que nos passa meio despercebido no dia a dia agitado pelo trânsito, pela poluição e pelos afazeres cotidianos, porém, um cenário duma beleza artística exatamente à altura das belas obras simultâneas do velho mundo.

Não é todo dia que temos a oportunidade de, tão cedo, observar a vida amanhecendo ali no centro de Sampa, e obviamente que o cenário da cidade rapidamente transmuta assim que o sol resolve se deslocar do leste para o oeste do planeta.

Então há que se ser rápido para enxergar o todo.

De repente, minutos antes que o badalar dos sinos do Mosteiro de São Bento nos abençoasse mais um início do dia, pude perceber logo ali ao meu meio fio que alinhava os automóveis estacionados na rua, que um zelador dum condomínio comercial cutucava com os pés um amontoado de cobertas espalhadas pela calçada como se espantasse qualquer tipo de inconveniência.

"Vamos, vamos acordar, já tá na hora!" dizia ele com a pressa das demais horas que já ordenavam pela mudança de turno e do cenário da cidade.

Não demorei a perceber que se tratava dum sonolento morador de rua que mais parecia se negar a acordar dum sono profundo, de sonhos bem melhores que a sua realidade.

Naquela altura o sino do Mosteiro já sonorizava as sete horas, quando uma pomba pousou sobre ele a procura de migalhas de alimentos.

Ele nem percebeu o bater vigoroso das asas também famintas que lhe pousaram sobre a sua itinerante coberta de lã fina, escura e surrada.

De repente , quando ele já ensaiava os seus primeiros bocejos, o seu cachorro, velho companheiro de guarda de todas as sua horas, também despertou a lhe render as boas vindas a mais uma manhã daquelas suas compartilhadas vidas tão reais.

Uma lambida carinhosa do cão sobre sua face foi o elixir de coragem que ele precisava para despertar de vez e se erguer da calçada para continuar...continuar.

Então senti que ali reuniu forças, guardou todo o dormitório volante numa mochila de dorso, sorriu agradecidamente para o cachorro e então partiu daquele seu efêmero cenário para o destino de mais um dia pelas ruas... no auge e no vigor já arrefecido dos seus aparentes vinte anos de idade.

A passos lentos enfim, dobraram a esquina e eu os perdi dos meus olhos dentre os primeiros movimentos da cidade grande, alheia aos maiores pormenores.

Assim os imortalizo aqui nesse meu registro, a ele ao seu fiel amigo, não apenas pela emoção e pelos questionamentos que me despertaram naquele nascer da manhã, mas também porque há que se reescrever as memórias das crônicas que a cidade tão impunemente nos escreve.