A MELHOR IDADE, VELHICE OU IDOSO?

MELHOR IDADE, VELHICE OU IDOSO?

“Vecchio scarpone mio

fai rivivere tu

la mia gioventú”.

(de Pinchi-Donida)

Com os apitos da Ipiranguinha e da Conac. Assim éramos acordados, naqueles tempos de minha infância. Santo André apenas engatinhava, dando os primeiros passos para o seu desenvolvimento.

Acordava, como definiu o saudoso Dr. Octaviano Gaiarsa, de seu pesado sono, em seu livro sobre a história da cidade.

Nessa tomada de cena, é que eu apareci como ator, e bem figurante, como simples membro de família classe média, apesar de ser das mais tradicionais da região. Nas crônicas que ousarei escrever, logo todos perceberão tratar-se o autor de um fanático bairrista, qualidade (... ou defeito?) que será somada ao tremendo saudosista que sou. E, para que não haja dúvida, como todo brasileiro vidrado em futebol, Sãopaulino de quatro costados. E, também, Ramalhão!

Outro dia, um de meus netos, o Guga, 12 anos, corinthiano, me perguntou:

“- Vô, se jogar Santo André e São Paulo, p’ra quem você torce? Respondi:

“ – Para os dois! Quem ganhar, ganhou. Com leve coloração tricolor, devido à tradição”.

Portanto, em todas ou quase todas elas, abordarei fatos, acontecimentos, coisas de uma Santo André onde eu vivi, que testemunhei, momentos inesquecíveis que, ainda hoje, já com a idade um tanto avançada, me trazem indeléveis recordações.

Abro parêntesis, aqui, para esclarecer, de vez por todas, que não sou daqueles que “...no meu tempo era melhor ...” e, também, que não faço parte da “melhor idade”, pois, como Rubem Alves, não me incluo dentre aqueles que assim se definem...ele acha melhor “velhice”,... “mais poético”, e eu “idoso”.

Como também, longe de mim a intenção de querer contar minha vida. Meu foco será atingir aqueles que tiveram a oportunidade de testemunhar os fatos, ou aqueles que não, porém, que gostarão de conhecê-los; satisfazer as pessoas citadas, os lugares referidos, na certeza de que isso trará, a todos, a mesma felicidade e alegria que eu sinto, quando me fazem relembrar coisas do passado, principalmente as que presenciei! Ai, será impossível não me referir à minha pessoa.

Abordarei muito a Vila Assunção, onde nasci e vivi meus primeiros anos, um bairro de muita tradição na cidade, uma espécie de Brás ou Mooca daqui, reduto, em sua grande maioria, de italianos e seus descendentes; falarei das primeiras peladas de futebol, jogos de grandes disputas entre “a turma da rua de baixo contra a da rua de cima”, quando a bola, era de meia, o campo, o meio da rua e o gol, duas pedras; das peraltices da molecada na praça da Matriz; do tempo de escola; das figuras tradicionais da cidade (qual dela não as tem?); das primeiras namoradinhas (engraçado, naquele tempo, a gente se encantava com a garotinha, e apontando-a para os amigos “ - Minha namorada”. O outro respondia: “Que nada, é minha”. E ela não tinha o mínimo conhecimento disso!). Você ai que está lendo, não era assim?

Então, veio a revolução! Calma! A minha! A partir do término do curso primário, em 1950, a vida se transformou completamente, quando uma nova fase se iniciou com os estudos em São Paulo, obrigando-me a me distanciar, durante uns dez anos, desta querida terra. Afastamento em termos, pois, nos finais de semana aqui retornava, mas, ai, numa outra fase, com novas amizades, outros fatos, curiosidades, que, sem dúvida, serão igualmente objetos de abordagem da minha parte.

Enfim, como todos sabem que recordar é viver, com a pretensão de ainda ter um bom tempo para exercitar a memória, espero poder resgatá-la o máximo possível, pois, sem medo de errar, infeliz é aquele que não tem nada para contar.

Nota - Esta crônica, a primeira que escrevi em maio/2009, comemora o centésimo texto que publico no Recanto. Ela faz parte do meu primeiro livro "UM PASSADO SEMPRE PRESENTE".

Aristeu Fatal
Enviado por Aristeu Fatal em 21/07/2012
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