ODOIÁ

Dois de fevereiro de dois mil e doze em Salvador, Estado da Bahia, Brasil.

Festa de entrega de oferendas à nossa querida Iemanjá, Mãe d'Água.

Milhares de pessoas se espremem para conseguir um espaço para colocar seus presentes (perfumes, brinquedos, flores e outras coisas) nos balaios que irão para o mar as 16h em vários barcos com pescadores.

Barracas vendem cervejas e tira-gosto para os mais festeiros. Carros de som e batucadas para puxar a galera que gosta de dançar (e se alienar, com todo o direito que lhes cabe).

Alguns comitês de partidos políticos existentes no bairro do Rio Vermelho oferecem aos seus correligionários, feijoadas e xinxins de bofe como forma de aumentar a visibilidade e proporcionar coesão dos pares.

Enquanto isso, o centro da cidade passa por um sufoco, com atos de vandalismo e ataques a várias lojas de eletro-domésticos e mercados executados por uma turba enfurecida de Homens Gabirús¹. Em alguns bairros também acontecem vários atos de vandalismo. O objetivo é saquear tudo o que puderem. De uma lata de sardinha à uma TV de Plasma de 50 polegadas.

Grandes músculos carregam geladeiras e fogões nas costas, outros trazem carrinhos de mão, alguns arrastam pelas ruas todos os objetos que podem carregar possivelmente para suas casas. Muitos deverão usar os produtos dos saques para posteriormente venderem.

Vários crimes acontecem enquanto a festa rola no Rio Vermelho, bairro onde se reúne os devotos de Iemanjá, com sua imagem reluzindo ao receber os raios de sol, na frente da colônia de pescadores. Ela olha para o lado da cidade como se soubesse o que estava acontecendo mas, como todos nós, parecia se julgar impotente para a solução.

Os policiais da cidade fizeram greve e a marginalidade se lambuzou como o urso no mel derramado.

Às 16.30h eu estava no ponto de ônibus e meu filho me liga preocupado comigo, dizendo que viu numa reportagem que na Avenida Sete estava havendo arrombamentos e saques em várias lojas. Eu o despreocupei dizendo que estava longe do centro.

Neste mesmo ponto, ouço uma moça dizer à colega que o supermercado G. Barbosa do Iguatemi havia sido saqueado.

Quando pego o ônibus, uma garota conversa com outra dizendo que a prima ligou dizendo que em Feira de Santana (cidade próxima) o caos também havia se instalado. Também arrombamentos e saques. Não havia policia para coibir.

Depois de um incrível engarrafamento, chego em casa e me atualizo com as noticias na TV. Os policias querem aumento e o governo do estado não atende plenamente seus anseios.

Só que, diferentemente de outras manifestações de greve que temos, onde os cidadãos que pleiteiam algo não carregam armas de fogo, nessa, as armas são usadas para amedrontar e atirar para o alto desperdiçando as balas (quando não matam algum inocente incauto) que pagamos com nossos impostos para que os policiais usem para nos proteger.

As atitudes são de verdadeiros baderneiros (mais homens gabirús) que querem desestabilizar a segurança dos cidadãos que pagam sua comida, transporte, fardas, armas e munições e outras prerrogativas que suas funções propiciam, numa orquestração que nos lembra o tempo dos gangsters ao criar as seguranças obrigatórias aos estabelecimentos nos EUA há muitos anos.

A mídia mostra alguns casos onde temos a demonstração de que esses policiais (paisanos) usam a truculência para obstruir ruas com ônibus e automóveis como forma de atrapalhar o fluxo dos cidadãos, causando às vezes mais pânico do que num assalto de marginais.

Ora, como a constituição diz que os direitos dos cidadãos são iguais perante a lei, acho que algo está muito errado.

Se os estudantes ou qualquer outra classe sai às ruas para reivindicar algo, logo esses mesmos “policiais” são os que aparecem para soltar a madeira com balas de borracha, “fantas”, bombas de gás etc. E no caso deles, quem vai soltar a madeira?

Então o governador pede ajuda ao governo federal que envia tropas do exército para tentar dar um pouco de segurança à cidade e tentar dispersar o movimento.

A Assembleia Legislativa é invadida pelos militares à paisana com várias mulheres e filhos, numa mostra de inconsciência total dos homens que deveriam ter discernimento para ocupar suas funções. No contexto, me pareçe que esses cônjuges e filhos são usados como reféns/escudos, o que me autoriza a corroborar o que disse anteriormente sobre Homens Gabirús, nesse caso, não mais os marginais e a turba da plebe guinara, mas homens a quem deveríamos ter o máximo respeito e no entanto, ao nos depararmos com esses eventos, vemos somente que a diferença entre todos é a farda e a prepotência quando a usam para abusar de poder.

A tristeza, tensão e preocupação transparecem nos semblantes dos cidadãos que acompanham as noticias diariamente.

Alguns se preocupam com o carnaval (chá alienante) que está por vir, outros com suas mercadorias que não estão sendo vendidas pois está fechando cedo o estabelecimento com medo de saques.

As ruas ficam com menor fluxo de carros e não vejo engarrafamentos mesmo em horário de rusch e por alguns momentos penso que olhando por esse ângulo algo podemos aproveitar desse caos.

Após alguns dias nesse impasse entre governo e manifestantes, ainda sem definição e com muitos homens do exército nas ruas de Salvador que já se tornou estrela global, tento entender os motivos dos saques.

Nosso grande Lula e agora, nossa querida Dilma sempre dizem que as coisas melhoraram. Como? Não consigo ver essa melhora.

Senão vejamos: porque tanta gente saqueando lojas, grandes mercados e pequenas mercearias de bairro para roubar coisas que sabemos, na maioria dos casos supérfluas, como TVS, sons etc?

Temos aqui um paradoxo. Se estamos bem, não deveríamos ter necessidades. Mas as falsas necessidades são criadas por esse mundo capitalista e o desejo de ter se torna uma doença para o homem urbano.

Não vemos aqui nenhuma conotação política, pois se houvesse organização para invasão dos bairros ricos para saques nos grandes condomínios de luxo, aos carros importados de mais de duzentos mil reais que trafegam com princesas e pequenos príncipes burgueses nas ruas de Salvador, aí sim teríamos uma guerra de classes onde a classe de cima consegue sempre subir e a de baixo descer cada vez mais, eternamente pisados e locupletados pelos primeiros.

Só vejo nisso tudo a vontade insana desse homem querer possuir algo que os outros têm e que ele não consegue possuir a curto prazo. Ou se alimenta (muito mal) ou compra uma TV de 42 polegadas. Ou toma sua cervejinha no fim de semana ou compra uma geladeira maior. Ou bota gasolina na sua moto ou em seu velho carro ou compra um forno de micro-ondas.

Tem que fazer escolhas sempre e o dinheiro nunca dá, pois a mais valia (fruto da sua força de trabalho) sempre está sendo dividida entre as mesmas efígies da elite burguesa nas nossas metrópoles.

Minha mãe dizia que a ocasião faz o ladrão. É neste momento que esses homens tentam se igualar àquela classe que está morando no Alto do Itaigara, nos condomínios de luxo em Vilas do Flamengo e Linha Verde e em vários outros oásis de fartura e desperdícios que temos na nossa cidade.

O abuso do poder econômico, as vendas nos olhos de quem o detêm para não enxergar o caos que está por vir, a amargura nos olhos dos que não têm e não sabem o que fazer para ter, denuncia o abismo que está aumentando cada vez mais entre as classes.

O trabalhador continua sendo explorado como nunca e os cada vez mais abastados só pensam em acumular cada vez mais, como Tio Patinhas nos desenhos, e isso não nos levará a nada, principalmente à paz social que ensejamos.

Algo vai acontecer e pelo que estou vendo está bem perto.

É só juntarmos os Gabirús institucionalizados (e armados) com todos os outros e o caldo estará com o tempero ideal para servirmos à mesa do brasileiro.

Mas após uma semana de fatos esdrúxulos, considerando os atores envolvidos, de onde se espera mente sã e comportamentos exemplares para a sociedade, só vímos foram atitudes dignas de seres menos racionais possíveis, numa dinâmica paradoxal que nos preocupa e angustia, pois não tem sentido darmos armas e munições (e quentinhas todo meio dia) para pessoas sem o mínimo discernimento em termos de segurança para a população.

Só prevaleçe o lado egoístico de cada um em detrimento do todo que seria o objetivo real.

¹ Metade homem, metade Sariguê. Homem que parece ter cérebro humano na caixa craniana mas só possui algo muito parecido com algum software de segunda linha da Microsoft. Esses programas que eles carregam em seus chips de memória são constantemente atualizados pelo Sistema, para que se perpetue o Status-quo.

01/12