OLHANDO PARA O LADO

Quem já não teve na vida um daqueles tão inesquecíveis dias que logo cedinho já nos faz deduzir que seria melhor ter acordado só no dia seguinte?

Pois então, o início do dia "daquele dia" já prometia sérias emoções.

Logo cedo o trânsito barulhava num congestionamento infernal isso porque eu já havia saído meia hora antes do horário costumeiro para pontualmente chegar ao trabalho, assim que conseguisse abastecer na plena crise das distribuidoras de combustível.

Depois de conseguir um tiquinho de etanol parti para a jornada do dia.

Vinha pensando pelo caminho que há pontualidades na vida que tanto incorporamos com o tempo que já se nos tornam questão de honra automática, todavia, é difícil honrar compromissos nestas megalópoles de hoje em dia, já que toda a logística é contra qualquer compromisso maior.

Assim que cheguei, como sempre acontece, já não havia aonde estacionar naquela maratona da ladeira estreita aonde num espaço de mais ou menos seis metros de largura o trânsito flui pesado nos dois sentidos para ônibus e caminhões, inclusive.

Eu procurava exaustivamente aonde deixar o carro para poder trabalhar enquanto pensava nas tantas dificuldades que enfrentamos nas cidades grandes quase que diuturnamente, sem que ninguém tenha olhos para as nossas catracas do dia-a dia.

Assim que um motorista saiu do meio fio, embiquei meu carro na vaga e numa manobra de baliza bem apertada, aliás de fazer inveja a qualquer motorista homem, estacionei o carro...bufando de raiva.

Ao sair do automóvel imaginei que na volta não conseguiria tirá-lo de lá com a mesma sorte com a qual eu o havia ali estacionado, pois os ônibus descem a pirambeira assustando a tudo e a todos que estão a frente do seu caminho.

Horas depois, a lição de vida ali me chegava clara e imediatamente assim que olhei para o lado através do retrovisor do meu carro já na intenção de sinalizar a minha saída da vaga.

Nestes dias de hoje sinto que os sinais de advertência frente aos nossos atos e até aos nossos rápidos pensamentos nos chegam a galope.

Acionei a seta de saída.

Então enxerguei que um veículo atípico descia a pirambeira numa certa velocidade de espantar, porém, já me sinalizando com as mãos que eu podia partir. Alguém, enfim, me dava a passagem.

Abaixei o vidro do carro e gritei um "obrigada!" ao motorista paraplégico que me dava folgada oportunidade de manobrar ao parar a sua cadeira de rodas que ele pilotava ladeira abaixo.

Senti um misto de emoção e desconforto.

Ali, sobre aquele asfalto tão disputado, aprendi que nunca podemos seguir em frente sem olhar para os lados.

Decerto que sempre haverá alguém, em situações menos confortáveis, a nos enxergar...