O LUXO DO LIXO

O horário de verão é algo aprazível nas grandes cidades porque nos permite aproveitar a luz dos finais das tardes ensolaradas para ainda realizarmos algumas tarefas cotidianas com maior prazer e segurança, se é que segurança existe nas megalópoles.

Porém existe a revelação da poesia oculta, aquela que, da vida, acontece pelas ruas.

E foi numa tardes dessas que eu fazia a minha caminhada vespertina pelas calçadas quando, de longe, eu o avistei iluminado pelo sol.

Balbuciava-me ali esquecido, sozinho, abandonado à sua sorte, embora ainda de aparência bem conservada, todavia com um certo "ar" de imponência arrefecido, a despeito do seu pouco tempo de existência.

Decerto que tanto ele como eu estranhávamos aquele seu habitat e confesso que mesmo ali, num local um tanto inóspito, seu destino me enchia os olhos de desejo e de curiosidade, então, assim que me aproximei, passei a observá-lo melhor bem como a procurar seu companheiro que lhe prometera ser inseparável. Não o encontrei.

Ali, a sós consigo, muito em breve partiria para o desconhecido.

Ele, com toda certeza acostumado aos tantos olhares vaidosos desta vida, me contou que já havia vivido alguns poucos momentos de glamour, porque sua genese natural assim o fizera apenas para glamourosos momentos.

Não era algo comum, tampouco feito para alguém "comum", para que fosse assim, abandonado sem o menor respeito, depois de aconchegar algumas caminhadas insolentes e grandiosas.

Consciente de que sempre fizera parte do compulsivo sonho de consumo de quase todas as musas elegantes do mundo, senti que até para mim me foi difícil observá-lo num destino tão singular.

Lembrei-me de que a cena era a perfeita figuração do que já aprendi, apenas caminhando, o fato de que até as pedras, sejam elas as dos caminhos rústicos ou as dos suaves palácios, têm chances de idênticas rolagens... e de que podem ser tangíveis entre si os seus tantos destinos tão certamente incertos.

Tamanha sensação essa que me passou pelo sentimento tão instantaneamente quanto aquele exato momento em que nos cruzamos em silêncio para depois nos distanciarmos , eu entornando meu pescoço para trás a observá-lo na sua beleza e no seu tão digno refinamento, e de certa forma, a desejar lhe sentir o conforto e a delicadeza, a desfrutar do seu perene ofício, o de sempre caminhar com elegância a despeito dos caminhos nem sempre tão previsíveis da vida de tudo e de todos.

Cravejado e abandonado entre as grades de ferro duma lixeira dum condomínio da rua, a espera do caminhão dos lixos recicláveis, ali eu o cumprimentei no mesmo instante em que nos despedimos para sempre, posto que também a mim ele já cumprira com resignação a sua última missão.

Afinal, tratava-se do conto da curta história dum clássico pé de Scarpin de cetim dourado, valorizado por um finíssimo salto Luís XV intacto e que ali se despedia renegado, no entanto, sem deixar de cumprir a sua prometida missão: a de brilhar e de encantar...

Até o fim.

Verídico.