Insônias

Cá estou: insone, mente prenhe de idéias inconcebíveis, coberto por uma manta furtada no Hospital do Câncer, ouvindo Division of Laura Lee no alto-falante do tocador coreano e me sentindo num quarto em Paris, Bangladesh, Kansas City, blábláblá, quando estou apenas no meu quarto sem porta com uma pseudoparede no fundo de uma casa dos fundos dum terreno com três casas na maldita mal-dita Zona Leste de São Paulo, SP, Brasil.

Releio Lolita com avidez e me sinto menos andrajoso. Tentar escrever sobrepuja tal benesse.

Há um avião passando pela região neste exato momento. Deve ser o das 01h25m.

(bocejo)

Lasco aqui um ponto final e volto ao livro.

“Sempre lendo pra nunca ser lido”, já escreveu Schopenhauer.

14/09/2011 – 01h25m / Ouvindo: Division of Laura Lee - Trapped In

*

Morrendo de ódio e tédio

Fumando cigarro após

Cigarro

Recostado na janela

Vendo os vaivéns

Dela

Ignorando meus pigarros

Consumindo remédio após

Remédio

Ah, me sinto tão fodido!

Cúmplice de um crime; de

Um suicídio assistido.

Qual deles me exprime

Melhor?

14/09/2011 – 01h35m / Ouvindo: She Wants Revenge – These Things

*

Já passa das três da manhã e minha letra voltou a habitual feiúra. Tirei o gesso ontem, e ontem não escrevi porque dormi na casa da minha namorada. Não consigo escrever por lá. Também não consigo saciar minhas necessidades fisiológicas por lá. Aquele avião das uma e vinte e cinco da manhã não passou, hoje. Ontem também não. Acho.

Não consigo dormir com tanto pensamento cabeludo espancando o sono, portanto, apelei a esse caderno abandonado – e imaculadamente intacto! – que estrategicamente deixei ao lado da minha cama.

(bocejo)

Cara, é madrugada de uma sexta-feira e curto uma insônia da seguinte forma: ouvindo Racionais; bebendo Toddy com canela; com blusa de lã marrom e bermuda de muay thai; estou encafifado com o porquê do tradutor do Lolita ter usado a palavra “persecução” em vez de “perseguição”; encafifado também em qual seria tradução russa para tal palavra...

É, não consigo manejar a caneta – sinto uma dor anormal (pra mim, o médico que me deu alta diz que é normal) no dedo médio. Minha namorada disse que eu ando muito viado por causa dessa mão. Ela foi perdoada e não levou um safanão porque já sentiu as dores do parto. Logo, tive que me redimir com uma noite alucinante de sexo.

Ok, essa última linha não aconteceu – cortesia da minha (falta de) imaginação.

16/09/2011 – 03h40m - Racionais Mc's - Fórmula Mágica da Paz

*

Sabe o que é descer uma avenida de bicicleta, no meio dos carros, numa noite estrelada e gostosa, sorvendo um frapê de café divino e ouvindo Johnny Cash? Do it, my friends!

Rafael P Abreu
Enviado por Rafael P Abreu em 19/09/2011
Reeditado em 19/09/2011
Código do texto: T3229375
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