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Meu Amigo Inca (El “Bitcho”)

Trabalhei em publicidade e propaganda no Rio de Janeiro na década de setenta. Uma maneira de ganhar algum dinheiro enquanto estagiário de uma agência de PP&RP no largo da Glória. Próxima ao Museu de Arte Moderna que frequentava quase diariamente. Principalmente a Cinemateca.

A agência era relativamente próxima também do Museu da Imagem e do Som. Outro, dos muitos lugares onde se podia visualizar o melhor do cinema de arte (de autor) europeu na década mencionada. O movimento “hippie” brasileiro, ignorado pela sociedade e pelos livros de história, acontecia nas ruas, avenidas, praças e praias das cidades.

Carlos Reluz Bernaola, El “Bitcho”, ilustrador e arte-finalista (Direção de Arte) de raro talento, meio sobre o rechonchudo, um metro e sessenta, se tanto, personalidade veramente existencialista, angustiada, conflituosa, uma alma indígena, cândida. A cachaça canabis aplacava sua dor existencial (Existencialismo é um humanismo) difícil de se conciliar com as alegrias dos salários relativamente altos do pessoal da criação publicitária. Vivia no mundo interiorizado dos mistérios.

Reluz parecia uma espécie de Cantinflas dos Andes. Sua aparência e fala, tinham uma veia cômica natural de quem fruía uma contradição impossível de se conciliar. Ou seja: Reluz era um descendente Quechua (povos indígenas do Peru, Equador, Chile, Colômbia Bolívia, Argentina) sem identidade nacional. El “Bitcho” trabalhava para a comercialização de produtos industrializados do capitalismo cromagnon. Como poderia conciliar facilmente um trabalho profissional a serviço da colonização de produtos industrializados, com a memória da colonização feroz de seu povo?

Os descendentes Quéchuas são semelhantes ao povo palestino: não possuem um território nacional.

Quando o diretor do departamento de criação da agência vinha até sua prancheta e falava de uma ideia sobre um anúncio ou uma campanha, mal o cara terminava a exposição de motivos do cliente (“briefing”) e o “raff” de um anúncio de jornal ou revista já estava pronto. Raff ou “rough” quer dizer o primeiro rascunho de um desenho que antecede ao “lay-out”. O “lay-out”, por sua vez, é um desenho (ilustração ou montagem) que antecede a “arte-final”.

A aparência desleixada, o andar bamboleante e a voz de quem gagueja sem gaguejar, numa tonalidade de quem estava sempre pedindo socorro, tinham um quê de humor que talvez não fosse visto com simpatia pelo pessoal de terno e gravata da administração da agência. Sua cachaça era um cigarrinho de marijuana que, suponho, diminuía as tensões psicológicas e lhe permitia trocar idéias e falar sobre as contradições que estava vivenciando. Não sem certa aflição.

Suas feridas emocionais estavam em aberto, como em aberto estavam As Veias Abertas Da América Latina. A ansiedade nele era simplesmente manifesta, patente, incontestável. Axiomática. Evidente. Ele devia faturar um salário equivalente ao dos redatores oficiais da agência.

Eu, por minha vez, nem registro em carteira tinha. E meu salário de estagiário, redator, do departamento de criação, não chegava talvez a dez por cento do que ganhava o pessoal com registro em carteira.</p>

A proximidade de interesses profissionais fazia com que almoçássemos num restaurante árabe próximo à Cinelândia. No parque do Flamengo.

Eu me vestia muito diferentemente dos burocratas da agência. O cabelo grande, “hippie” e as roupas fora do padrão burocrático do pessoal do colarinho branco, também não suscitava a simpatia e a proximidade com os demais membros da equipe do departamento de criação. Era um pessoal com idéias supostamente abertas, mas que temia sobremaneira a concorrência da criatividade e do talento de quem quer que pudesse ameaçar por em xeque a estabilidade (instável) de seus altos salários para os padrões de mercado da época.

As ambições profissionais que evoluíam facilmente para delírios de grandeza, suscitavam o desenvolvimento de distúrbios persecutórios mais conhecidos por paranoia. E os noias abundavam nos departamentos de criação das agências de publicidade & propaganda na época do “pula-pula”. Todos tinham a sensação de que poderiam ser dispensados, substituídos por outros profissionais da criação com potencial para tomar deles o lugar tão excessivamente resguardado.

E um estagiário do DC com talento, era ao mesmo tempo uma ajuda para o departamento como também uma ameaça aos redatores sempre noias, que não queriam, de modo algum, alguém por perto que poderia ameaçar a estabilidade instável de suas mordomias salariais nos departamentos de criação das agências.

E o Carlos Reluz, meu amigo Inca, El “Bitcho”, costumava me dizer que eu devia, na hora do almoço, ir almoçar com as pessoas  endinheiradas do departamento porque minhas ideias sobre anúncios e campanhas eram constantemente aproveitadas por elas, sem que me dessem o devido credito criativo. A mim, simples estagiário. Reluz costumava dizer-me:

— Bitcho, vê se força uma barra com esses caras. Vai e fila um rango deles nos restaurantes em que eles almoçam. É um mínimo que eles podem fazer por você. Pagar um almoço. Não é nenhum favor. Você faz todo dia, muito mais por eles. E eles não pagam nada por suas ideias. Os caras te exploram. Os caras ganham uma grana e você fica curtindo uma larica na hora do almoço. Vê se te manca.

Meu amigo tinha toda razão. Eu guarnecia os caras de ideias para as campanhas, participava da criação de anúncios, e o crédito era todo deles. Por muito favor meu nome aparecia no Anuário de Propaganda, e esse era todo o credito que eu ganhava por meu trabalho intelectual. Criativo.

Quando minha participação era inquestionável, eu não me fazia de rogado e dizia que, “pelo menos, um rango há de sair desse latifúndio hoje”. E, na cara de pau, lá estava eu ao lado dos medalhões do salário, cobrando pelo menos um almoço por minha contribuição às ideias a aos textos criados, por vezes, parcialmente, por mim, das campanhas.

Por chamar a todos de “bitchos” ele ficou sendo conhecido por El “Bitcho”. Tipo inesquecível do departamento de criação da agência, pelo seu talento, por sua atitude  humanitária, pela ansiedade de vida e a postura sempre beirando o cansaço físico e emocional, mas intensamente disposta a servir sem ser servil.

Seu aspecto físico e a expressão fisionômica sempre humorada e simulando satisfação e tolerância infindas, ganhava a simpatia até dos olheiros e dedos-duros que costumavam circular em todos os departamentos da agência. Alcaguetes sempre dispostos a ganhar um sorriso de simpatia do chefão da agência ou do “gerente de operações”, em troca de uma suposta acusação de negligência profissional.

Eu, leitor compulsivo, fazia sexo com os livros, Nessa época estava em voga falar do “Grito Primal”. Havia lido o livro homônimo de Arthur Janov (The Primal Scream). Vendo meu amigo Inca todo voltado para si mesmo, talvez tentando esconder conteúdos de natureza emocional ou, quem sabe, atávica, a impressão de quem está muito revoltado com muitas injustiças, as próprias, e as presenciadas contra outras pessoas, instigava-lhe a possibilidade do berro. Do “berro primal” que liberta, pelo menos provisoriamente, as tensões que ameaçavam transbordar em outro tipo de agressividade: a física.

Após me ver berrar em plena rua, ou mesmo dentro da agência, ele ficava constrangido. E dizia que os esbirros da ditadura militar em voga poderiam achar que minha atitude pudesse ser vista como postura subversiva e eu, por isso, poderia ser preso. E na agência, perder o emprego de redator estagiário. Ele realmente parecia ficar aflito com essas possibilidades. Eu, que não tinha nada, exceto criatividade, audácia e revolta, dizia que ninguém deveria sentir-se privado da liberdade de, pelo menos, berrar.

Pelo que li, semana passada, num site da web quando digitei seu nome no Google, ele também passou a berrar em plena rua. O que, infelizmente, não evitou que meu amigo Inca morresse de câncer. Vai, Reluz, ilumina os caminhos em outras dimensões do inexistir. E da existência de outros bichos. Na sua irreverência era dessa forma que nos considerava. A todos. Com esse emprego simples, apropriado e legítimo da linguagem. Axé, Irmão.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 03/04/2011
Reeditado em 31/05/2014
Código do texto: T2887515
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Decio Goodnews
São Paulo - São Paulo - Brasil
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