EU, QUANDO CRIANÇA E O RIO SÃO FRANCISCO(O VELHO CHICO)

A MORTE DO VELHO CHICO

DO CORDEL DE HONORATO RIBEIRO PARA AS CRÔNICAS

(trabalho embrionário)

Meu Velho, meu Velho Chico

Quem te viu e quem te vê!

Não dá mais para acreditar

Quem quiser te conhecer,

Pois esquceram de ti

Tão magro como faquir

De ti querem esquecer.

PRÓLOGO

As horas eram intermináveis na cidade de Pirapora de Minas Gerais. O meu maior passa tempo era justamente subir em uma banca de carpintaria, que ficava no quintal da casa onde estávamos hospedados desde o dia que chegamos de São Paulo, de trem de ferro,cujo itinerário da viagem iniciara-se na Estação da Luz, cruzando parte do sertão paulista, passando pelo sertão das Minas Gerais, inclusive fazendo baldeação em Belo Horizonte, a capital chegando à cidade de Pirapora. O destino final era Santa Maria da Vitória. Nesta época, para se chegar ao sul do pais e ou retornar para o nordeste, o melhor caminho era a via férrea e depois pelo rio São Francisco. Mas, enquanto não chegava o dia do embarque, eu, ainda com cinco anos de idade, na minha inquietação, ficava observando as máquinas das Marias fumaças na estação ferroviária que por sinal ficava próxima dos fundos do quintal da casa onde estávamos

Numa bela tarde, quase ao cair do sol, as professoras e a minha mãe, arrumaram as malas apressadamente. Pegaram na minha mão conduzindo-me para fora da casa onde à frente estava estacionado um carro modelo rural, com um senhor de barbas brancas que estava ao volante e que desceu para auxiliar as professoras a colocarem as malas no bagageiro. O nome do senhor era Noé, conhecido por seu Noé. Já acomodados no veículo, partimos em direção a um lugar que eu não tinha a menor ideia.

Após transcorridos alguns minutos o carro finalmente parou em um lugar movimentado, parecido com uma praia. Não tive tempo de olhar ao redor para saber que tipo de lugar era aquele. Só percebi quando estava subindo em uma rampa de madeira, chamada de prancha, e que estava entrando em um grande barco, totalmente diferente do trem de ferro.. Foi aí que subindo as escadas para o andar superior e, encostado nas grades de proteção é que vislumbrei pela primeira vez, o mar de águas douradas, gigantesco pra mim naquele momento. Era um rio maior do que o meu Tietê em São Paulo.

De repente ouvi soar um apito parecido com um apito de trem, só que era um apito mais forte. Ouvi um chiado tão alto parecido com o barulho de duzentas panelas de pressão fervendo e fazendo barulhos juntas ao mesmo tempo e, depois de soarem mais dois apitos, a embarcação começou vagarosamente a navegar enquanto as margens e a cidade de Pirapora ficavam para trás. Ali, naquele momento, começou a minha relação com o rio São Francisco. Fiquei sabendo mais tarde que, a embarcação era um gaiola, chamado às vezes de vapor, talvez por causa das caldeiras cujo vapor fazia com que as rodas localizadas atrás girassem impulsionando a embarcação para frente. O apito toda vez que ele era acionado, aprendi que haveria uma parada próxima em algum lugar. Às vezes nos cais das cidades onde chegava para embarque e desembarque de pessoas, ou às vezes nas margens para apanhar lenhas empilhadas em locais específicos, pois as lenhas eram o combustível que alimentavam a caldeira gigante do vapor. Indiretamente ou diretamente, os românticos vapores já contribuíam naquela época para com o desmatamento das margens do rio São Francisco. Imaginem, pois, que durante todo esse período de navegação dos gaiolas, quantas árvores foram ceifadas para serem transformadas em lenha! Não tinha a mínima ideia. Naquela época, afinal de contas eu era apenas uma criança de quase cinco anos e para mim só interessava estar fazendo uma grande viagem de aventuras pelo Rio São Francisco, como se fosse um longo sonho. Muitas vezes eu me trancava no banheiro do vapor que ficava na parte trazeira, mas não era para fazer as necessidades fisiológicas, e sim para ficar olhando a roda girando e jogando espumas alvas para cima, como se fossem neves giratórias ou estrelas se espedaçando em milhares de gotas d’água.Era um espetáculo muito bonito para ser visto e deliciaador por hora a fio.

Quando percebiam o meu sumiço, as meninas de Pirapora que estavam indo para o colégio de Dona Rosa e que de certo modo se transformaram em minhas monitoras ali naquela viagem, chegavam aflitas para interromperem e estragarem a minha viagem através das espumas da roda giratória, observando o rio se afastar do barco, virtualmente, pois na verdade, era o barco que se afastava e as partes do rio e as margens é que iam passando às vezes lentamente e, às vezes mais velozmente, como se andassem ao contrário do vapor disputando uma maratona ao contrário, enquanto que outras partes das margens iam se aproximando e se afastando em uma constância ritmada.

Como eram alucinantes as margens do rio olhando do meio dele para cada uma delas, cheias de árvores, cidades e fazendas! Os barrancos devido à trajetória das águas nas cheias, já possuíam o formato de cais com suas escadas naturais formadas de barro e areia. Muitas ilhas se aproximavam e se distanciavam do vapor. E nos povoados, sempre havia gente nos barrancos acenando para nós que estávamos dentro do imponente gaiola, enquanto o comandante acionava o apito cumprimentando os ribeirinhos com o som estridente, as marcas da embarcação rasgava o tapete majestoso de águas douradas, na verdade barrentas, mas com o sol ou nascendo ou no ocaso, elas se multicoloriam , transformavam em autêntico tapete dourado de várias tonalidades. Também com o nascimento da lua cheia, a cor prateada se misturava com a cor barrenta das águas formando um autêntico quadro de cores doiradas matizadas com a cor prateada, até formando um espelho nas águas correntes no risco do rio com águas maretadas. O astro dos namorados parecia sair de dentro das águas cruzando sobre as árvores das margens até tomar sua rota no azul negro do céu.

Ao longo do nosso trajeto pelo rio São Francisco ,canoas remadas por barranqueiros passavam próximas ao vapor, e não sei como as minúsculas embarcações não naufragavam nas maretas deixadas pelas pás das rodas que impulsionavam o vapor, rio abaixo.

Durante todo o período da viagem, muitos canoeiros barranqueiros pescadores cruzavam com a grande embarcação. Umas subindo o rio e outras descendo o rio. Em dados momentos cruzávamos com embarcações movidas a motor, também descendo em direção a Juazeiro ou subindo em direção a Pirapora de Minas Gerais. Outras vezes eram as pequenas chalanas viajando rio abaixo ou rio acima ou vadeando de uma margem a outra transportando sempre pessoas.

As maretas provocadas pelas pás do vapor, em forma de v, como ondas marítimas, davam a impressão de encobrirem as canoas com os barranqueiros pescadores, corajosos e impotentes com relação às fortes ondas, mas com a habilidade adquirida desde o nascimento nesta convivência com as águas do rio, sobreviviam a essas correntes fortes que batiam violentamente nos barrancos das margens, fazendo com que as espumas barrentas subissem bem altas, e até fazendo um barulho assustador.

Em uma madrugada quando o sol rompia o alvorecer do dia com a sua barra de cor dourada da aurora, o apito do vapor fez com que desembarcássemos em uma espécie de praia, que estava apinhada de pessoas e pequenas embarcações. Era a cidade de Bom Jesus da Lapa, que era acordada com o apito do vapor. O grande morro, a tudo assistia sem se intrometer nos acontecimentos. Limitou se apenas a fazer parte da grande paisagem que o amanhecer dourado, com o barulho sonoro das águas do São Francisco, o canto de diversos pássaros, como canários da terra, sabiás, cardeais, pássaros pretos e o assoviar da brisa matutina. A partir daquele momento me dei conta de que o dia havia amanhecido e que a minha bela viagem pelo Velho Chico estava chegando ao fim. Mas os poucos dias de amizade com rio, foram suficientes para tornar-me o seu grande amigo e admirador e através dos versos do cordel A Morte do Velho Chico,escritos por um dos seus filhos queridos, o poeta Honorato Ribeiro dos Santos, o Zé de Patrício, volto a sentir saudades do Velho Chico para discorrer sobre parte da sua história em crônicas.

É o que há.