Elas, de pernas cruzadas...

     1. Houve um tempo em que a mulher ao cruzar as pernas feria o código de boas maneiras, recorda, em "Coisas que o povo diz", o saudoso folclorista Luís da Câmara Cascudo. E eu digo: era sem dúvida um tempo muito chato. 
     
2. Ontem, no Shopping Salvador, vi uma jovem mulher, com as pernas cruzadas, e não estava nem aí para os abelhudos que, com insistência e maldade, a espiavam uma, duas, dez vezes.
     
3. Não posso negar que suas panturrilhas chamavam a atenção dos fregueses que perambulavam pelo Shopping, fazendo compras, ou, como eu, sem fazer absolutamente nada; a não ser espiar, sem nenhum apetite, uma ou outra vitrina. 
     
4. Olhando-a, com a discrição que minha idade permite e aconselha, lembrei-me, imediatamente, e com uma pontinha de saudade, do meu tempo de Universidade, cá em Salvador, e já lá se vão mais de cinco décadas. 
     
5. Na minha Faculdade, a de Direito, ingênua e pura, uma bela aluna - considerada muito avançada no tempo - mexia com nós, seus coleguinhas, cruzando e descruzando, repetidas vezes, suas lisas e torneadas pernas.
     
6. Tão bonitas eram elas, as pernas, que, para não perder um só lance, não hesitávamos em chegar, com algum atraso, nas aulas de Processo Penal e de Direito Civil, cuos professores eram pontuais e rigososos na hora da chamada. 
     
7. Ela sabia que estava sendo "admirada"; mas fazia de conta que nada estava acontecendo no seu entorno, apesar de muito movimentado...
     Estava certamente naquela de que aquilo que se tem de belo, deve, sim, ser mostrado, independente do tempo, local e circunstâncias. Por que esconder?
     
Ponto de vista, aliás, com o qual concordo, desde que a "exibição" não me traga transtornos ou me faça ter ciúmes...O leitor me entende.
     
8. Muito bem. Se ela não era a aluna mais bonita da Faculdade, era, sem sombra de dúvida, a mais sex. E eu ainda acrescentaria: charmosa. Por casa de sua exuberância física, Salvador dos anos 1960 tirava-lhe o chapéu.
     
9. Um dia, ela casou com uma celebridade baiana. Seu casamento, porém, durou pouco. E ela voltou, alimentando a fantasia da rapaziada, a maioria já de anel no dedo. 
     
10. Retorno ao Câmara Cascudo e às suas "conversas cheias de erudição e sabor", em "Coisas que o povo diz".
     No capítulo "Cruzar as pernas", ele escreveu que "as meninas e as mocinhas", do seu tempo, "recebiam a recomendação expressa e categórica de  jamais pôr uma perna em cima da outra. Valia um ultraje para os os preceitos fundamentais dos bons costumes."
     
11. E, em seguida: "Se alguma, mais espevitada e trepidante, fingia esquecer o dogma e punha a perna cruzada, era fatal o bombardeio dos olhares reprovativos e, sempre que possível, um bom e discreto beliscão, avisador da infringência."
     Volto a repetir: tempo ingrato, aquele!
     
12. Mas pelo que escreve o Cascudo, o ato de não cruzar as penas, em repeito ao código de boas maneiras, valia, também, para os homens.
     
E cita, como exemplo, o Presidente Arthur Bernardes (1922-1926), elogiado pela sua postura cênica: "não se recostava no espaldar da poltrona e não era capaz de descansar uma perna, cruzando-a na outra."
     
13. Pela descrição que faz do Presidente Bernardes o escritor Gilberto Amado, parece-me fácil concluir que Seu Mé não devia mesmo cruzar as pernas. Descreve Amado: "Vejo Bernardes,magro, teso, descarnado, movimentando o pomo-de-adão em deglutições aerofágicas, quero dizer, engolindo saliva e resistindo à revolução. 
     Impressionante espetáculo olhar para ele nas reuniões públicas ou nos conciliábulos íntimos. O homem era o mesmo, no salão dos despachos, na sala da capela, na sala de jantar, no quarto de dormir."

     14. Já não mais se vê presidentes com a postura do mineiro Arthur Bernardes. Conheci um, que, se o cerimonial não o advertisse, ele cruzava as pernas diante da Rainha da Inglaterra e até de Sua Santidade, o sucessor de São Pedro. Portava-se como se estivesse num papo descontraído, movido a uma boa pinga, com um vaqueiro, nas caatingas do nordeste.
     15. O tempo passou e com uma velocidade incrível! Esta estória da mulher não cruzar as pernas, é coisa do passado. Coisa do "Brasil Velho", como, no seu interessante livro, ressalta Luís da Câmara Cascudo.
         
16Segredava outro dia a um amigo, entre um mergulho e outro no sereno mar do Farol da Barra, que mais vale uma mulher com as pernas "descuidadamente" cruzadas, do que dez de biquíni, exposta ao sol e aos olhares suplicantes da galera masculina faminta. E ele, sinicamente, concordou comigo...  
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 19/02/2011
Reeditado em 27/09/2019
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