Se Eu Fosse uma Cronista


Conversava com amigos sobre o Ano do Brasil na França. A programação contou com eventos de qualidade, representantes verdadeiros de nossos talentos em todas as artes. Como era de se esperar, também houve muita coisa fraca, muita, como bem cantaram os Titãs, “melhor banda de todos os tempos da última semana”. Entendo a importância de se levar tudo o que o Brasil tem produzido aos olhares do mundo. Mas, imaginar o mundo assistindo tudo o que se toca numa tarde no Faustão ou no Domingo Legal dá uma vergonha danada! Os franceses devem ter pensado que foram em vão os anos perdidos na Missão Francesa ao Brasil, no início do século XIX. Isso poderia ter suscitado uma nova investida daquelas por aqui, uma invasão de artistas franceses, ávidos por nos incutir alguma finesse.
O que será que os franceses andam criando? Resolvi pesquisar um pouco. Mais especificamente, em literatura francesa: crônicas. Na WEB descobri alguns cronistas, a maioria ligada a eventos históricos dos séculos XIX e XX. Provavelmente, se eu dominasse a bela língua, encontraria mais nomes, poderia ler alguns textos. Mas diante dessa barreira, a única coisa que me aproximou dos franceses, foi o seu antológico mau-humor.
Digamos, porém, que os franceses decidissem mesmo reeditar a Missão e que eu fosse uma cronista deles em visita ao Brasil. Mesmo acreditando que os conterrâneos de Napoleão sejam cidadãos bem informados, penso que eu teria alguma surpresa ao chegar por aqui, admirada diante da grandiosidade e efervescência de São Paulo, da aparente paz nas praias do Rio de Janeiro e, principalmente, do expressivo faturamento de 30 milhões de reais havido na Feira Pan Amazônica do Livro no Pará, com 500 mil volumes vendidos, bem ao lado da grande floresta.
Passado este primeiro impacto, assim como meus sucessores, provavelmente, eu abriria uma escola literária onde ensinaria a arte francesa de escrever crônicas, promoveria a cultura francesa por meio de oficinas, concursos, feiras e coletâneas.
É certo que me ressentiria ao observar a dificuldade em trabalhar com a arte da escrita num país onde se lê tão pouco, onde não se valoriza a cultura, onde os impostos são altos e os incentivos, ridículos. Onde, sem apadrinhamento, é praticamente impossível conseguir o apoio de alguma editora e, por uma produção independente, se paga, em cada exemplar de uma tiragem de quinhentos livrinhos de oitenta páginas, quase o mesmo valor pelo qual se encontra nas bancas de ofertas das grandes livrarias, os maiores clássicos da literatura mundial e até alguns recentes best-sellers. E, se isso não bastasse, para expor seu livro em uma prateleira qualquer de fundo, essas mesmas livrarias extorquem o autor em cinquenta por cento do valor de capa.
É... Melhor parar de imaginar! Infelizmente, não sou uma cronista francesa em visita de uns poucos anos ao Brasil. Ao contrário, mesmo tendo uma sobrinha que mora na França e está em vias de se casar com um simpático (juro que é!) parisiense, sou uma pretensa cronista brasileira que nunca pisou na Europa e que, se esfalfa como pode para conseguir algum destaque com sua arte no Brasil.

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Texto escrito para o 6° Desafio Literário da Câmara dos Deputados - Etapa 4.
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