Paranóia ou Mistificação?

Passei ao longo dessas semanas analisando a censura, tentando captar pela história os momentos tristes do passado em que ela, a censura, fez-se presente. Também não me esqueci daqueles que me encontram pelas ruas e me indagam sobre a veracidade das crônicas que público, há aqueles que ligam em casa e perguntam, mas Literatura é isso mesmo tem a função de mexer com o imaginário humano, atribuir elementos ricos da ficção e da linguagem conotativa na mais fiel e verídica das histórias e mostrar o ato verdadeiro na mais bela das mentiras. Suscitar a dúvida: é essa a minha função.

Mas querem assassinar Monteiro lobato pela segunda vez. O Pré-Modernista já está morto há décadas e desde suas primeiras histórias infantis crianças absorveram e viveram intensamente suas personagens e aventuras. Eu mesmo fiquei horas na TV esperando e deliciando-me nas tardes globais na década de oitenta. Que bom! Meu pai leu, minha avó encenou as aventuras de Narizinho no colégio. E com essa geração não é diferente: crianças insistem em lê-lo, procuram-no por prazer. As escolas celebram seus textos no Dia Nacional do Folclore, citam-no em excertos e passam para a análise textual. Li este ano diversos textos de Lobato aos meus discentes e lê-los-ei quantos forem precisos. Eles se divertem, gargalham, criticam, analisam e apresentam sugestões. Mas o Conselho Nacional de Educação (CNE) pareceu não ter lido Monteiro Lobato por prazer, com olhos pueris; leu o escritor que descartou Anita Malfatti como o mais racista dos escritores com a ganância de derrubar a sua obra, acusando-o de violar os direitos humanos, pois Tia Nastácia não merece todas aquelas acusações narradas pelo autor na voz da Boneca Emília.

Primeiro essa questão do politicamente correto poderá privar a imprensa de direitos cabíveis ao Quarto Poder e levar-nos a uma censura jamais imaginada nestes anos depois de décadas de sufoco;

Segundo, trata-se de uma obra de ficção e todas são escritas dessa forma muitas vezes para despertar as discussões, reavivar o instinto humano acostumado a passividade;

Terceiro, se Monteiro Lobato foi capaz de minimizar o trabalho de Anita, não seria ele quem instigaria o racismo, nem por um Jeca Tatu e muito menos pela Tia Nastácia.

Começou-se censurando a obra de Cristóvão Tezza em Santa Catarina, livros que seriam distribuídos às escolas públicas; depois foi a vez de Ignácio de Loyola ter um de seus contos censurado pela Educação do estado de São Paulo, agora querem acabar com Lobato, especificamente com o livro “Caçadas de Pedrinho”. Que achem outro motivo, palpável, justificável, como as caçadas, algo proibido, mas não me venham censurar uma obra de arte com o tópico de os salvadores da Pátria. Os militares pensavam assim e nos proibiram... Paranóia ou mistificação por parte do CNE?

Sergio Santanna
Enviado por Sergio Santanna em 13/11/2010
Código do texto: T2613919
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