O ESPÓLIO DAS NOSSAS OUÇAS*
A emissão semanal dos programas de partidos políticos, mercê da tutela do TRE, em “presídio” nacional de rádio e tevês, definitivamente virou um abuso.
Ninguém, mas ninguém mesmo, no picadeiro deste país, de sã consciência, por mais que goste e seja versado em política, ou politiquice, pode ter bofes para aguentar uma hora inteira de falácia, demagogia e cinismo. Digo cinismo, literalmente isto. Ah, que vocês tenham olhos e/ou ouvidos para o holocausto da ladainha. Eu, não!
Como podemos compreender que emissoras de rádio e televisão, por imposição de dispositivos forjados pela parte interessada, o colendo Congresso Nacional, concedam – sem chiar – seus microfones para esse carrossel de asneiras que, às segundas-feiras (hoje, às quintas-feiras), desfila diante da “ira santa” da Nação, montada em corcel inflacionário?
Enquanto “almofadinhas” metralham a gente sofrida e faminta com petas deslavadas, ao som tépido de lindos e c o l l o r i d o s visuais, clipes manjados que se misturam com a mídia diária e gotejada dos governos estadual, municipal e federal, a filas quilométricas de doentes dobram esquinas.
Simultaneamente, aqui e ali, maiores e menores abandonados (corrigindo, “abandonados”, entre aspas) pela própria ostentação das nossas elites matam por um parzinho de tênis. E o seu direito de acesso à escola perde-se no oco do mundo, onde a vida é um beco de favela (atualmente, de modo modernoso, diz-se comunidade).
É preciso, absolutamente preciso, que a sociedade civil brasileira, desarmada, armada só de sua conscientização, para não tornar-se massa de manobra permanente, meta bazuca a tiracolo para exigir do TRE, e dos senhores depufedes e senadores, o refresco imediato da revisão constitucional.
Urge que se efetive a necessária, urgentíssima reforma partidária, assim como reduzir o tempo estúpido de uma hora em cadeia nacional de televisão, a fim de que uns loquazes “almofadinhas” nos estupigaitem de fanfarronadas hipócritas, aguadas a cuspo demagógico.
Mas que tais providências sejam para já, e já, sob pena de que a vulgarização do “dia da mentira” esteja iminente, sempre às quintas-feiras. E no bojo desse utópico “salseiro”, claro, o corte impiedoso do número exorbitante das ditas “siglas de aluguel”, que infestam os clássicos cartórios eleitorais. Como faz, num dizer, o Zé Simão: “é mole?”
Ano de 1993, e mais de quarenta “partidos”, no Brasil. Fui veementemente contra o bipartidarismo à época da ditadura. Mas também mais de quarenta partidos é uma barafunda, pura canalhice. E a nos negarem o sonho de uma depuração, o caos estará em definitivo como o espólio das nossas ouças. E o blá-blá-blá, no mundo, a comer de esmola. Ou, por outra, de demagogia.
Junho de 1993.
Fort., 08/07/2010.
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(*) A crônica está “velhinha”, contudo achei
de resgatá-la porque coisas do limiar dos anos
90 ainda estão na ordem do dia, de algum modo.
E nos próximos meses, por conta das eleições,
teremos muito diz-que-diz nos meios de comu -
nicação.