Encontro com Drummond
Deu-se, no calçadão de Copacabana.
Surpreendi-o sentado em um banco de pedra, no calçadão de Copacabano, proximidades do Forte do Exército. De costas para o mar; pernas cruzadas; calado; ele parecia estar bolando sua próxima crônica; ou tecendo os versos do seu novo poema.
Tentei apertar-lhe a mão. Ele nem se mexeu. Disse-lhe: "Bom-dia, Poeta!" E ele, nada. Com as pernas cruzadas; calado; ele parecia estar bolando sua próxima crônica; ou tecendo os versos do seu novo poema.
Sentei-me ao seu lado. Com o tempo, quem sabe, eu podia ouvi-lo recitando um soneto; pedir-lhe um autógrafo; e até envolvê-lo num papo descontraído. Falar, por exemplo, sobre o Vasco da Gama, o time do seu e do meu coração.
Em determinado momento, cheguei a me perguntar se não estaria sendo inconveniente, querendo tirar-lhe do seu instante de profunda concentração.
Meu dileto e paciente leitor, ouça, meu encontro era com a estátua de Carlos Drummond de Andrade, uma homenagem dos cariocas ao poeta mineiro, que amou, intensamente, o Rio de Janeiro. Em tamanho natural, a estátua é perfeita.
Há quem afirme que ela só falta falar. Todo mundo fica impressionado com a semelhança entre a estátua e o homenageado. Impossível passar ao seu lado sem tocá-la; admirá-la; fotografá-la.
Diante da estátua do imortal vate - e fazendo de conta que ele ali estava em carne e osso -, deitei falação: disse-lhe que admirava sua prosa, e aplaudia sua poesia.
Lembrei-me do seu poema A bunda, que engraçada, e, baixinho, recitei: "A bunda, que engraçada./ Está sempre sorrindo, nunca é trágica." - "A bunda são duas luas gêmeas/ em rotundo meneio. Anda por si/ na cadência mimosa, no milagre/ de ser duas em uma, plenamente." O próprio Drummond dizia: "Oh! sejamos pornográficos/ (docemente pornográficos)".
Era fim de dezembro. Copacabana preparava o seu ruidoso Réveillon. Entrei no clima, e declamei estes versos, que são dele: "O último dia do ano/ não é o último dia do tempo. / Outros dias virão/ e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida."
Queria prosseguir. Mas fui impedido de fazê-lo: um sujeito, com "algumas" na cuca, aproximara-se da estátua, bradando: - "Alô, Drummond, feliz Ano Novo!" Pensei: o poeta, sem dúvida, adoraria ficar na companhia daquele boêmio, eternizando-o, possivelmente, em uma crônica. Saí de mansinho, procurando fugir da fria neblina que se aparoximava da estátua, depois de esconder o Pão de Açúcar.
Deu-se, no calçadão de Copacabana.
Surpreendi-o sentado em um banco de pedra, no calçadão de Copacabano, proximidades do Forte do Exército. De costas para o mar; pernas cruzadas; calado; ele parecia estar bolando sua próxima crônica; ou tecendo os versos do seu novo poema.
Tentei apertar-lhe a mão. Ele nem se mexeu. Disse-lhe: "Bom-dia, Poeta!" E ele, nada. Com as pernas cruzadas; calado; ele parecia estar bolando sua próxima crônica; ou tecendo os versos do seu novo poema.
Sentei-me ao seu lado. Com o tempo, quem sabe, eu podia ouvi-lo recitando um soneto; pedir-lhe um autógrafo; e até envolvê-lo num papo descontraído. Falar, por exemplo, sobre o Vasco da Gama, o time do seu e do meu coração.
Em determinado momento, cheguei a me perguntar se não estaria sendo inconveniente, querendo tirar-lhe do seu instante de profunda concentração.
Meu dileto e paciente leitor, ouça, meu encontro era com a estátua de Carlos Drummond de Andrade, uma homenagem dos cariocas ao poeta mineiro, que amou, intensamente, o Rio de Janeiro. Em tamanho natural, a estátua é perfeita.
Há quem afirme que ela só falta falar. Todo mundo fica impressionado com a semelhança entre a estátua e o homenageado. Impossível passar ao seu lado sem tocá-la; admirá-la; fotografá-la.
Diante da estátua do imortal vate - e fazendo de conta que ele ali estava em carne e osso -, deitei falação: disse-lhe que admirava sua prosa, e aplaudia sua poesia.
Lembrei-me do seu poema A bunda, que engraçada, e, baixinho, recitei: "A bunda, que engraçada./ Está sempre sorrindo, nunca é trágica." - "A bunda são duas luas gêmeas/ em rotundo meneio. Anda por si/ na cadência mimosa, no milagre/ de ser duas em uma, plenamente." O próprio Drummond dizia: "Oh! sejamos pornográficos/ (docemente pornográficos)".
Era fim de dezembro. Copacabana preparava o seu ruidoso Réveillon. Entrei no clima, e declamei estes versos, que são dele: "O último dia do ano/ não é o último dia do tempo. / Outros dias virão/ e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida."
Queria prosseguir. Mas fui impedido de fazê-lo: um sujeito, com "algumas" na cuca, aproximara-se da estátua, bradando: - "Alô, Drummond, feliz Ano Novo!" Pensei: o poeta, sem dúvida, adoraria ficar na companhia daquele boêmio, eternizando-o, possivelmente, em uma crônica. Saí de mansinho, procurando fugir da fria neblina que se aparoximava da estátua, depois de esconder o Pão de Açúcar.