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O Grande Olho Que Tudo Vê Da Nova Ordem Mundial Totalitária

O Terceiro Olho do Grande Irmão Que Tudo Vê Da Nova Ordem Mundial Não Enxerga O Próprio Rabo. Os exemplos são relativamente infinitos. Aqueles globos escuros (e escusos) que ficam suspensos nos tetos de cada shopping center, hotéis, supermercados, clubes de recreação, lojas de conveniência e tantos outros lugares, por vezes tem uma função social adequada às necessidades de flagrar pessoas em comportamentos ditos anti-sociais e por vezes violentos.

Outras muitas vezes os seguranças que estão por trás dos monitores de vídeo, nas salas de observação, são totalmente ignorantes do que está realmente acontecendo e que, por vezes, parece ser uma atitude pública de desonestidade ou má fé. Não é. Muitas vezes é apenas um gesto de protesto de uma pessoa que se recusa ser roubada pelos esquemas de comercialização de medicamentos ou a extorsão aceita como honesta nas lojas e locais de prestação de de serviços e farmácias vigiados pelo Grande Olho Que Tudo Vê Do Grande Irmão Da Globalização.

Os exemplos não são poucos. Muitos mails e comentários em sites literários que me chegam aos olhos denunciam um comportamento aparentemente marginal, mas que, em realidade, é apenas uma reação adequada aos assaltos à economia popular que se perpetuam todos os dias, aos milhares, aos milhões, sem que ninguém tenha condições de reclamar, e sem que os vigilantes dos monitores do olho que tudo vê, sempre atentos aos deslizes públicos, tenham consciência do que realmente está a acontecer.

Os agentes de segurança e gerentes de lojas e farmácias a serviço do Grande Olho Que Tudo Vê Do Grande Irmão Da Globalização são pagos para vigiar, filmar e registrar os flagras sem que, por vezes, saibam que comportamentos aparentemente anti-sociais são apenas reações que podem ser consideradas legítimas, contra os assaltos, roubos, furtos e outras violências aceitas como legais, contra as quais não pode fazer nada a economia popular.

Essas violências, esses pequenos assassinatos da cidadania pessoal de milhares de pessoas não se registram. E quando se registram são com a intenção exclusiva de criminalizá-las. Às pessoas. Simplesmente são aceitos e elas devem se submeter passivamente a eles, como se fossem carneiros num abatedouro público de suas minguadas reservas econômicas.

Muitas dessas pessoas tem uma maneira particular de reagir a esses pequenos assaltos à sua economia pessoal. E os seguranças e gerentes de lojas e farmácias, do Grande Olho do Grande Irmão, não são orientados à visualização adequada e estão sempre dispostos a observar e registrar esses atos legítimos de protesto popular, como se fossem registros de atos falhos de doentes nervosos ou cleptomaníacos.

Ora, os seguranças e gerentes de lojas e farmácias dos grandes centros de comercialização de serviços e mercadorias sentem-se no direito de se sentir mais “honestos” do que as pessoas que cometem esses supostos delitos. Quando muitas vezes esses supostos delitos são apenas respostas aos delitos do sistema para os quais esses seguranças e gerentes são pagos para não ver o que está realmente a acontecer.

Gerentes de lojas e seguranças ganham seus salários para fazer de conta que não estão sabendo (por vezes não sabem mesmo) que as pessoas tem direitos aviltados e, como não há ninguém para defendê-las, elas se defendem como podem. Chamando para si o risco de ser consideradas desonestas ou doentias.

Fazer justiça com as próprias mãos, com os próprios gestos, mesmo que essas mãos e esses gestos sejam interpretados como manifestações mórbidas, quando são apenas atos de autodefesa. Muitas vezes é o único jeito (jeitinho brasileiro) da pessoa não se sentir lesada espoliada, prejudicada pelo comportamento considerado normal e aceito pelos representantes dos direitos de abuso público dos que são pagos para defender os interesses econômicos e financeiros do Grande Irmão da comercialização globalizada.

Dois exemplos: Brasilino dirigia-se ao trabalho quando passou na porta de um hotel no centro da cidade, entre a praça da República e o cinema Marabá. Um cidadão de terno e gravata na porta do hotel aproximando-se dele, falou: “O senhor quer tomar o café da manhã? Nosso bufê é dos melhores”.

Brasilino já havia ingerido seu café da manhã mas aceitou o convite pensando tratar-se de uma promoção. Chegou na sobre-loja do hotel e serviu-se de um pãozinho daqueles do tamanho de um dedo mindinho. Partiu o mesmo e colocou uma tirinha de queijo e outra de presunto que ficaram sobressaindo-se dos lados do pequeno pão.

Pegou um copinho com refresco de laranja e dirigiu-se à uma das mesas. Voltou à mesa onde havia oferta de várias frutas e pegou um pires onde posicionou uma única lingueta de manga. Um pedacinho cortado ao comprido da fruta. Qual foi sua surpresa quando um servente dirigiu-lhe delicadamente uma nota segundo a qual deveria pagar R$ 20,00 pelo pãozinho minúsculo com uma fatia de queijo e outra de presunto cortadas pela metade para caber dentro do pão. Brasilino quis protestar mas viu que não adiantaria seus argumentos.

Pegou a nota e dirigiu-se ao elevador. Passou por uma prateleira de livros que simulava uma pequena biblioteca e não resistiu à tentação de pegar um livrinho fininho e posicionar o mesmo debaixo do sovaco, dentro da blusa, para compensar o prejuízo.

Foi visto e chamado a atenção por um dos serventes da sala de alimentação do hotel. Tirou o livro na cara dura e posicionou-o na estante dizendo: “Não sou ladrão, mas também não gosto de ser roubado”. Alegou que vinte reais por um pãozinho do tamanho do mindinho acompanhado de um copo pequeno de refresco, isso sim era um roubo. Devolveu o livro e pagou os vinte reais.

Brasilino não se importou com o ônus de seu gesto. Desde que não existe roubo de livro no código penal. Seu gesto pode ser computado por bibliomania, não é roubo. Mas o pãozinho do tamanho do mindinho e um copinho de refresco por vinte reais, isto sim, configura assalto ao bolso do consumidor. Ele não se sentiu culpado ao tentar compensar o prejuízo levando um livro que não valia nem a metade dessa grana. E defendeu seu gesto de legítima defesa ao assalto do qual acabava de ser vítima. Foi uma tentativa infelizmente frustrada de fazer justiça com as próprias mãos.

2° episódio: Brasilino teve um pedaço de sua gengiva cortado pelo cirurgião dentista num centro odontológico em frente ao shopping Paulista, para que uma cárie fosse removida da base de um dente na arcada inferior. Ao sair da sala, a dentista receitou que tomasse três doses do analgésico e Spidufen 400mg. Com a receita em mãos dirigiu-se à farmácia no interior do shopping.

Segundo a receita, Brasilino deveria ingerir o conteúdo de cada um dos quatro envelopes de oito em oito horas, em meio copo de água. Mas a embalagem única disponível do analgésico era de 20 envelopes. Brasilino alegou que precisava de apenas de quatro. Se era justo comprar os quatro e inutilizar os outros dezesseis. Não havia embalagem com menos de duas dezenas de envelopes. O jeito era apelar para o “jeitinho brasileiro”.

Brasilino voltou ao balcão da farmácia e perguntou se poderia trocar a caixa que havia custado pouco mais de trinta reais, por quatro “red-bull”. Aquele, que faz o consumidor ficar leve e voar como um anjo. Um anjo, metáfora do bilau a desafiar a força da gravidade.

Ele complementaria a quantia paga com mais algum dinheiro. Dito e feito. O gerente da farmácia talvez já tivesse sido comunicado pelos seguranças do shopping que a caixa havia sido aberta. O Terceiro Olho Que Tudo Vê Do Grande Irmão Da Globalização viu Brasilino abrir a caixa (ele não buscou esconder, senão a teria aberto no banheiro). Mas nada viu das circunstâncias que o conduziram a agir dessa forma.

O balconista da farmácia foi gentil. Insinuou que não poderia trocar a mercadoria se a embalagem tivesse sido aberta. Passou a responsabilidade da troca para o gerente da loja. Este, passou um cadastro a ser preenchido. Brasilino não se fez de rogado: preencheu o cadastro como se estivesse escrevendo um parágrafo de um livro de ficção: metade das informações reais a outra metade invenção.

Afinal, num mundo globalizado pela virtualização comportamental, não se sabe ao certo se a pessoa está se revelando ou se ocultando. Segundo Heidegger, o Ente é o ocultar-se. É o esquecimento. A essência do ocultar-se exige a claridade do esquecimento. Brasilino lembrou-se de que princípios e valores não são considerados válidos para os seguranças do Grande Irmão Vigilante Globalizado. E deveria agir mais ou menos como eles.

Vigilantes são pagos para vigiar e, quando preciso, reprimir. O Grande Irmão com seus olhos enormes cravado em todos desde o teto do shopping não possui outras considerações, exceto vigiar, cadastrar, e por vezes reprimir àqueles que, segundo a observação dele, comete delitos a olhos vistos. Brasilino, induzido a cometer delitos, apenas reage a essa indução de maneira a defender seus direitos e interesses ignorados pelo esquema de produção, comercialização e vigilância do Grande Irmão.

A lógica do Brasilino é simples: se vai comprar um medicamento para jogar fora quatro quintos do conteúdo do mesmo, então precisa fazer alguma coisa para compensar o prejuízo. Para ele não é exatamente justo defender-se. E muito menos colaborar para que o Grande Irmão responsável pela produção de medicamentos, possa roubá-lo em 4/5° de sua compra. Que os quatro quintos que ele não usaria vá para os quintos dos infernos é um problema que precisa dividir com o sistema de comercialização do Grande Irmão. Improvisar é preciso. Viver honestamente é difícil.

Roubar para não ser roubado: eis a questão. Quem é quem nessa história de ladrão? Mas, afora as consequências do registro da imagem de Brasilino cadastrada pelo Olho Que Tudo Vê Do Grande Irmão, há outras. O efeito dominó de seu gesto de justiça em causa própria. Brasilino estava se candidatando a participar do programa tvvisivo apresentado pelo empresário Roberto Justus: “UM CONTRA CEM”. Ao telefonar escrevendo a mensagem GALERA para o número 49201, por mais respostas certas que respondesse, seu placar passou a registrar sempre “0” (zero).

Teria uma coisa a ver com a outra? O comportamento de Brasilino visualizado e cadastrado pelos seguranças do Grande Irmão Do Olho Que Tudo Vê no Shopping Paulista estaria influenciando negativamente em sua classificação na contagem de pontos para a possível participação no programa UM CONTRA CEM, o “reality show” do empresário Roberto Justos? É possível. No finalmente da questão, o Olho Do Grande Irmão é também o olho da repressão e da culpabilidade daqueles brasilinos que eles julgam ser merecedores da repressão sistêmica.

A formação e a vigilância que protege o capital globalitário possui várias estratégias políticas e sociais de repressão. A repressão direta e indireta praticada pelos sistemas econômicos e políticos ditos “democráticos” está cada dia mais e mais totalitária. Ou seja: considera apenas e exclusivamente seus próprios interesses localizados. Não possui o menor ou mais ínfimo respeito pelas razões e motivações das pessoas despojadas de seus direitos e de sua cidadania pelo Olho Que Tudo Vê Do Grande Irmão Sistêmico.

A repressão sistêmica, sub-reptícia, fraudulenta, sob o comando, comunicação e controle do Big-Brother Globalizado é imposta pelo mercado de produção e comercialização de bens, produtos e serviços encontrados nos shoppings, nos supermercados, nas grandes lojas de atendimento público.

Essas empresas usam e abusam da repressão direta e indireta própria dos grandes sistemas políticos autoritários, tipo estalinistas, sem nenhuma consideração às razões e motivações daqueles que, supostamente, cometem pequenos e irrisórios delitos. Na realidade não são delitos, são apenas instrumentos de autodefesa do consumidor explorado pela compulsão de consumir, excessivamente, produtos e bens de serviço sem nenhuma consideração às necessidades dele, consumidor.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 12/04/2010
Reeditado em 10/06/2014
Código do texto: T2192393
Classificação de conteúdo: seguro

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Decio Goodnews
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