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Os Dez “Rolex” Do Huck

1° Rolex: “Vou à periferia toda semana. No país inteiro. Conheço muito melhor a realidade brasileira dos que os que me criticaram.”

(Huck se referiu à publicação de um artigo na Folha de São Paulo, no qual desabafou sobre a violência que sofrera, artigo que gerou uma série de opiniões críticas ao apresentador dos leitores do jornal).

Opinião do relojoeiro: Ora, nas periferias se mata por qualquer relógio de camelô. Não precisa ser Rolex produzido no Paraguai. Menos ainda, original, como, com certeza, era o Rolex do Huck. A marginalidade das periferias copia em suas ações predatórias à porta dos restaurantes chiques, os estilos de assaltar aprendidos dos marginais das produções hollywoodianas em exibição todos os dias nos canais da tv aberta e, principalmente, nos canais pagos das tvs.

O baixo nível dos programas de tv, de um dos quais ele é apresentador, não educa as pessoas para a inclusão social e o respeito próprio e mútuo. Mas para a humilhação de mostrar para os tvespectadores, a condição social precária de cada um, que os leva a ter de tentar acertar algumas bolas de basquete na cesta, e outras grandes e heróicas façanhas no vídeo da telinha, de modo a ganhar alguns trocados que, para eles, os que participam de seus programas “educacionais”, supostamente representa uma mudança de vida para melhor.

2° Rolex: “Sou a mesma pessoa na minha casa, na Globo, no complexo do alemão. Falo igual e me visto igual. Não troco de roupa para ir a favelas. Mas deixa eu dizer o que penso da “elite”. Nela tem gente de todos os tipos...”

Opinião do relojoeiro: Não é possível que o apresentador tenha a mesma atitude emocional para com pessoas de comportamento pessoal, familiar e social, totalmente diversos. A vestimenta externa pode ser semelhante, mas com certeza há intensa diversidade de intenções quando ele está em cada um desses diferentes lugares de promoção pessoal para seu programa tvvisivo. Não era preciso ser tão supérfluo e redundante. Não só na “elite”, tem gente de todos os tipos em todos os lugares.

Os problemas do país antes de serem problemas de pessoas, são de estruturas, nas quais elas vivem se matando mutuamente. Os problemas do país passam pelo baixo nível de uma tv que deveria respeitar minimamente as mentes de seus tvespectadores. E não sucatá-las de maneira radical e fundamentalista, como se esse sucateamento não fosse apenas um paliativo kitsch, ao gosto dos produtores e seus anúncios.

(O que você sentiu depois do assalto? Perguntou o repórter da Veja na entrevista publicada nas páginas amarelas, edição n° 40, de 10.10.07).

3° Rolex: “As pernas começaram a tremer e fiquei muito nervoso. Depois, veio a raiva e por fim o sentimento de impotência. A sensação é a de que não há nada que se possa fazer... Não é possível que ninguém vá fazer nada.”

Opinião do relojoeiro: Realmente, ninguém vai se mobilizar para fazer nada. Talvez a bandidagem possa até, num gesto de solidariedade a uma personagem que freqüenta seus ambientes, devolver o Rolex do Huck.. Afinal ele não é aquele apresentador bonzinho que dá prêmios de fins de semana a pessoas extremamente necessitadas? Premiações que não vão melhorar em nada a sobrevivência dessas pessoas, que vão apenas servir de mísero paliativo.

Há muitas atitudes que podem ser afirmadas: Investir em educação, em cultura tvvisiva que não seja do tipo do moço bonzinho que, como o beija-flor querendo apagar o incêndio florestal devastador com uma gotinha de água derramada de seu bico, muito longe do fogo mais rasteiro, acredita que está fazendo a sua parte. Por que o Huck não aproveita o espaço de seu programa para promover debates com professores do ensino elementar e médio, entrevistar autoridades ligadas à “educação” para falar dos paradigmas “educacionais” que fazem do Brasil uma grande colônia globalizada do narcotráfico, da corrupção “pra lamentar” e da violência urbana tipo “Tropa de Elite”.

4° Rolex: “Mas isso já passou. Não foi nada tão extraordinário, nem a primeira vez que fui assaltado”. (O repórter perguntou: — Não? Já passou por isso antes?) — Muitas vezes. Huck enumerou um assalto quando tinha 12 anos, outros dois em sua casa em São Paulo, na casa de praia em Angra dos Reis, e um seqüestro-relâmpago.

Opinião do relojoeiro: A atual educação do país nas escolas do ensino elementar, médio e dito “superior” conduz seus alunos às diversas formas de banditismo, e às suas alunas às diversas formas de banditismo e prostituição. A prostituição masculina e a feminina são facilmente identificadas nos ambientes ditos escolares. O salário de gari dos professores não motiva ao ensinamento mais rudimentar, nem mesmo das normas gramaticais. Crianças e adolescentes vão ao colégio pela merenda escolar. Apenas.

5° Rolex: Em respostas à pergunta do entrevistador sobre o que mais havia incomodado Huck nas críticas ao artigo publicado na Folha, respondeu: “Falaram de burguesia, que é um discurso velho, de trinta anos atrás... Não escrevi motivado pela perda do relógio. Escrevi como cidadão. As pessoas perderam o direito de ir e vir. Não estou nem aí para as bobagens que falaram.”

Opinião do relojoeiro: Se não é a velha burguesia, não de trinta, mas de trezentos anos atrás, quem mantém esse “state of mind”? E esta situação de sucateamento globalizado das mentalidades? Então, quem ou que categoria social a substituiu nessa responsabilidade? Os “pralamentares” (são pequenos-burgueses e burgueses)? Os produtores de programas para tv, os executivos dos conglomerados tvvisivos globalizados aos quais Huck serve em seus programas (são burgueses e pequenos-burgueses). É certo que o direito constitucional de ir e vir, e até o de ficar em casa, está cada dia mais tênue e apenas teórico. Não há lugar preservado da violenta patologia tvvisiva globalizada.

6° Rolex: “Quem pegar as cartas dos leitores ou os blogs e artigos em jornais verá um monte de manés que escreveram. Garanto que já fui à periferia milhares de vezes mais do que eles. Vou toda semana. No domingo, antes de viajar para Nova York onde vou gravar um quadro do Caldeirão, andei no Complexo do Alemão...”

Opinião do relojoeiro: Huck ingênua, soberba e presunçosamente acredita que as pessoas que escreveram sobre seu artigo são todas “manés” (ou pelo menos “um monte delas”). O fato de freqüentar ambientes sociais considerados perigosos, protegido pelos contatos da Globo, com a intenção de divulgar seu “talk-show”, protegido pelas imunidades de praxe, não faz com que a situação local dessas pessoas, nessas comunidades e em outras, mude a condição conjuntural delas, e muito menos de outras comunidades adjacentes.

Esse paliativo, a alegação de que criou uma ONG, onde todo ano recebe 200 jovens, 70% deles seriam aproveitados no mercado de trabalho, não melhora um mínimo dos mínimos (para dizer um mínimo) a situação de calamidade pública da “educação” e da marginalidade globalizada do bairro em que residem, da cidade onde moram, e do país que está saturado de cabeleireiros da tragédia social irreversível em que a tv globalizada pela mediocridade de seus programas se encontra. Huck, para esses conglomerados de tv é apenas um inocente útil, um maquiador, seu programa é uma espécie de cosmético tvvisivo e ele um embelezador dos velhos paradigmas de seus patrões, (os burgueses?) de antes, muito antes de 1789.

7° Rolex: “Não acredito que os Jardins vão um dia virar o Jardim Ângela. Acho que todas as áreas da cidade merecem o mesmo tratamento. Não estou dizendo com isso que esse ou aquele governo seja omisso...”
Opinião do relojoeiro: Não vão virar porque já viraram. A diferença é de aparência, de maquiagem. Os salões de cabeleireiros dos Jardins cobram, em média, 800 reais por uma sessão de embelezamento. Os tipos de assalto ao bolso dos consumidores chiques são diferentes dos assaltos aos recursos bem menos atraentes dos habitantes do Jardim Ângela. Huck mostra preocupação em não ferir suscetibilidades políticas: "Não estou dizendo com isso que esse ou aquele governo seja omisso...”

Pergunta: Esses governos são gerenciados por quem? Como Huck denomina essa “elite”? E fica cheio de dedos, ou de pulsos para seus rolex, para admitir a responsabilidades dela ("elite")na situação social de catástrofe globalizada: "Não estou dizendo com isso que esse ou aquele governo seja omisso...” Mais que omissos, caro Huck, são corruptos ao extremo. Você, tão bem aceito em tantos diversos ambientes não sabe disso? Talvez você não tenha perguntado ainda aos participantes de seus programas o que eles acham de seus governantes. E da criminosa concentração de renda, característica da sociedade brasileira.

8° Rolex: (A reportagem de Veja perguntou se é fundamental que se tenha uma polícia eficiente). “Claro que sim...”

Opinião do relojoeiro: Ninguém mencionou se estavam, o repórter e o Huck se

referindo à polícia do livro “Elite da Tropa” ou do filme “Tropa de Elite”.

9° Rolex: À pergunta do repórter se a tv excita à violência e à sexualização precoce, Huck respondeu: “Não concordo... O que faz com que o Brasil tenha uma noção de país, uma unidade, é a tvvisão. Estou na Globo há oito anos e tenho absoluta noção de como esse assunto é tratado de maneira séria... Tudo o que vai ao ar é visto antes com essa preocupação...”

Opinião do relojoeiro: Será que o Huck vê apenas a missa dominical das seis horas da manhã? Ele não assiste aos programas de “humor”? Ele não vê nem o próprio programa? A sociedade brasileira tem sim uma unidade a partir da programação da Globo. É o tipo de unidade que faz com que as pessoas (já que a burguesia não mais existe para ele) das “elites” em todos os estados do país ajam de modo a promover diversos carnavais fora de época (o narcotráfico faz um carnaval à parte) e os dramas familiares das personagens das novelas se reproduzam em milhares, em milhões de lares que têm como espelho diário as personagens das novelas da Globo.

Os jornais tvvisivos reproduzem diariamente uma montanha de eventos moralmente corrosivos nos quais a corrupção em todas as instâncias dos poderes se mostra a olhos vistos em toda a extensão da sociedade à qual servem de exemplo. Os filmes e seriados estão mostrando todos os tipos de armas, as reais e as de ficção que estão sendo usadas nas produções da violência tvvisiva e cinematográfica.

A sociedade, em todos os seus extratos, está saindo pelo ladrão de tudo quanto é forma de criminalidade. O horror está nos lares, nos bares, nos clubes, nas academias. No “Pralamento” Renan Babá e seus 40 Amigos do Peito expuseram as mazelas do Senado por meses, a ponto de se chegar a cogitar a criação de um “Pralamento” unicameral. Sim, caro Huck, a Globo é responsável pela globalização da perspectiva social ou sucateamento mental do inconsciente coletivo nacional. Nisso você tem plena razão:

A uniformidade de uma personalidade nacional cuja formação começa nas escolas de ensino fundamental e se prolonga não apenas nas instituições de “ensino superior”. Talvez seja por isso que haja um fantástico incremento de exportação de prostitutas e prostitutos para os países europeus. E nos latino americanos. Afinal, todos acreditamos no Mercosul.

O 10° Rolex do Huck: “No domingo andei no complexo do Alemão. Vou, converso com as pessoas. Vejo o que acontece no país.”

Opinião do relojoeiro: Você está mesmo vendo tudo, caro Huck, o que acontece no país. Talvez você pudesse ter uma visão menos embaciada da paisagem nacional se seus óculos escuros não fossem tão chiques, e suas “visitas” ao Complexo do Alemão ou à Cidade de Deus não fossem promovidas com passaportes da Globo.
Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 12/04/2010
Reeditado em 12/04/2010
Código do texto: T2192238
Classificação de conteúdo: seguro

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Decio Goodnews
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