OS "MICOS" QUE VIVI -parte 2

OBSERVAÇÃO: antes que o leitor desavisado possa concluir que estou a difamar esse paraíso -- na visão suponho que da maioria -- chamado PARÁ, declaro que os fatos aqui narrados são a realidade nua e crua, sem retoques nem acréscimos.

Nesses mais de 26 anos em que vivo nesta Região cheguei a conclusões interessantes: 1) apesar de toda a maciça propaganda oficial "nem tudo são flores"... seja na Bahia, Rio ou Pará, num Brasil tão insensível às necessidades e anseios da população, e 2) "onde quase tudo é mentira TUDO passa a ser verdade", para a tristeza de quem ainda acredita em pessoas, Governos, povos e religiões.

Ficaram de fora muitos outros "micos", ou melhor, humilhações, no trato com 3 Assessorias de Governo, secretarias, postos de saúde, estatais de serviços (água e luz), o insípido Correios e a "companhia-maravilha" que trata (muito mal, a meu ver) de habitação popular na Capital & adjacências... ou pouco além disso. Um dia, quando estiver em outro Estado e se vivo fôr, vou poder contar o que vi e vivi ao solicitar em tais órgãos solução para os problemas mais simples e os pleitos mais modestos.

"NATO" AZEVEDO

OS "MICOS" QUE VIVI -- parte 2

Devido à Capoeira eu já frequentava o SESC-Doca desde fins de 1986. Daí, quando em março ou maio/1987 surgiu o IV FEMUCAB -- festival de música famoso na capital -- inscrevi um "sambarimbó", uma tentativa de reproduzir o folclore local, numa homenagem à mulher. No dia do ensaio geral, marcado para às 4 hs da tarde, a empresa Som & Cia só terminou de montar palco e iluminação, etc, depois das 21 horas.

Cansado de esperar acertei com a Banda oficial do Festival ensaiar minha música na casa de um deles, o músico Paulo Pereira. Na noite do evento -- dividido em 2 dias -- entrei no palco sem ensaio de voz nem de volume de som, contando com meu irmão na platéia para me acenar caso eu estivesse cantando alto demais, isto é, berrando no microfone.

Palpite infeliz: com dezenas de spots de mil kilowatts na cara só vi sombras no ginásio superlotado (o evento era gratuito!) e o tecladista começou minha música tocando a introdução de uma outra. Com a mão nas costas acenei apavorado, tentando informá-lo que era a música errada. Felizmente percebeu a tempo... mas a minha participação foi um pequeno desastre!

Mais tarde paguei expressiva soma para um funcionário do SESC me conseguir cópia da gravação do Festival, com minha música e meia dúzia mais. O sujeito gravou o festival inteiro... menos a minha música na fita cassette de 60 minutos. Aliás, nesse mesmo SESC eu viveria vários outros "micos" -- todos ligados à Capoeira -- e que nem vale a pena relatar.

Me é impossivel deixar de contar o resultado do citado festival, trombeteado pelos jornais e TVs que sairia em 20 minutos após o fim das apresentações. Cada um dos 6 ou 7 jurados tinha uma máquina de calcular (das antigas, com rolinho de papel) e, após meia hora, se olharam, levantaram-se às pressas e meteram-se numa das salas que ficavam sob a imensa arquibancada, Mais 40 e tantos minutos e saiu o vencedor: um "gorducho" descabelado, (WF) com um "monólogo em tupinhol" quase falado e "arranhando" o violão. As vaias estrondaram e uma banda instrumental excelente -- Grupo GEMA, salvo engano -- subiu ao palco "fazendo trenzinho" como protesto pelo 3º lugar. Outro grupo, quase dez músicos criativos com uma canção empolgante, a "Bananeira Mangará" ou algo parecido, não ficou nem entre os 5 finalistas. Adiante eu me acostumaria a ver que, pelo menos em Belém, festivais e "marmeladas" andavam de mãos dadas.

Basta dizer que no colossal evento do BASA-Banco da Amazônia (em junho/1988?) o ator global Grande Otelo -- que coordenava o júri -- declarou para a Imprensa que o terceiro lugar é que devia ter vencido o festival que, como sempre, prometeu lançar um disco LP do evento E NUNCA O FEZ. Coisa comum por aqui, onde até a milionária Prefeitura de Belém costuma não cumprir a palavra empenhada, pelo menos quando se trata de escritores ou músicos.

Em março (ou maio) de 1989 eu voltaria ao palco desse mesmo Ginásio... dessa vez para protagonizar um colossal "kingkong". Arnaldo Alcântara era um esforçado músico de Ananindeua, eu conhecia algumas músicas dele e vi qualidades em 2 ou 3 delas. Quando Ferrari Jr. -- um nome que a Belém rockeira esqueceu! -- realizou a 4ª edição de seu badalado "VARIA&ONS", inscrevi Arnaldo entre as 32 bandas e cantores do concorrido festival de rock. O carro-chefe era uma balada bem-humorada que falava no vampiro brasileiro -- inspirada num personagem de Chico Anísio -- citando a fome, o desemprego e a miséria como "vampiros" que sugavam o sangue tupiniquim.

Arnaldo convidou seu vizinho Edmilson de tal, mais um baterista amador sem bateria (que tocou pandeiro no evento) de nome Carlos e eu, na gaita de boca... e lá fomos nós pro show, com 2 ou 3 treinos somente. Chegamos cedo, ensaiamos mais um pouco e Edmilson, sem a menor cerimônia, acendeu "um cigarrinho sem marca e fez a cabeça" na presença de vários músicos desconhecidos.

Pouco depois começou uma discussão, pois o "doidão" decidiu fazer um solo que cabia ao Arnaldo. Não conseguimos demover o sujeito da idéia de solar e entramos no palco dispostos a tudo. A galera adorou o refrão, cantaram juntos conosco e, quando chegou a hora do solo, Edmilson cumpriu o prometido: "atropelou" com a guitarra o violão do Arnaldo -- emprestado, o dele fôra roubado durante um dos ensaios, creio que pelo próprio Edmilson -- enquanto o apresentador me olhava espantado.

Nesse "duelo" insano não deixaram espaço para meu solo de gaita. Só fui tocá-la na música seguinte... ouvindo apupos e vaias da massa rockeira. Ferrari Jr interrompeu nossa apresentação, pediu desculpas ao público presente e nos dispensou. Nem tive palavras para justificar o vexame e nunca mais procurei o produtor. Tínhamos um projeto de unir meu berimbau ao seu teclado eletrônico. A cena rockeira de Belém tem "pais", padrinhos e até um livro... mas ignoraram a enorme contribuição de Ferrari Jr para a divulgação e consolidação do rock paraoara na Cidade das Mangueiras. Coisas do Pará!

Em 1988 meu irmão Renato e eu fundaríamos (no SESC-Doca) um centro cultural dedicado à Capoeira, fonte de imensos aborrecimentos e expressivos "micos", por desconhecermos não só os costumes e "tradições" como a "política" local, nefasta e improdutiva, ilusão sempre renovada. Para os interessados, sugiro a leitura do artigo "CCCP - 4 anos de lutas e realizações", no megasite cultural OVERMUNDO ou no meu blog no NETLOG.PT.

Mas, chegamos a 1989/90, época pródiga em eventos e trapalhadas. O locutor de "rádio-bairro" (ou "rádio-cipó", segundo o povo) Juscelino Ramos -- um nome a ser homenageado quando se falar de cultura em Ananindeua -- promovia shows de calouros nas praças, em cima de uma caminhonete e com o apoio de modestos comerciantes da Cidade Nova. Era o projeto "Espaço Aberto para o seu Talento"!

A partir desses eventos de fim-de-semana, animados por sua banda "Vôo Livre", Juscelino criaria o primeiro festival da canção do município, cuja final o prefeito evangélico Fernando Corrêa -- que entrou na prefeitura de bicicleta e, dizem as más línguas, saiu rico -- produziu e valorizou. trazendo Ruy Mauríti, cantor de renome nacional, para abrilhantar o evento. O prefeito encerraria seu mandato com 9 ou 10 processos por improbidade administrativa (todos caducaram, sem que fosse punido por nenhum), indo desmembrar o bairro de Marituba, do qual se tornou o primeiro alcaide, saindo do mandato com mais 4 processos, sem nada lhe suceder.

Voltemos ao Festival... alertei a comissão julgadora que uma banda classificada simplesmente adaptara "nova letra" para o sucesso "Flores Astrais" do inesquecível Secos & Molhados. O presidente da mesa (RP) ignorou meu alerta e a tal banda jovem venceu o festival e ganhou também o troféu de Melhor Arranjo, a partir de um evidente plágio. Escrevi aos jornais tachando o resultado de "palhaçada", pois havia um animador de festa infantil entre os jurados. O "doutor" Raimundo Pinheiro "atravessaria meu caminho" 2 ou 3 outras vezes, todas com prejuízo para meus pleitos.

Minha apresentação, com um dolente samba, foi "arrasada" pelo baterista rockeiro, que fazia riffs e "solos" me tirando a concentração. Hoje o sujeito vende peixe pelas ruas do bairro e sinto vontade de questioná-lo sobre sua performance naquele palco. No fim do ano, o todo poderoso Ministro da Ação Social viria ao bairro distribuir 32 "convênios" para os centros ditos comunitários, verba pública doada para comprar consciências e votos. Esses centros nada produzem por anos e anos, em geral não têm mesas nem cadeiras, sequer uma reles TV usada, jogos de salão (dama, dominó, baralho, etc), biblioteca ou ao menos uma mesa de pingpong. Limitam-se a fazer 2 ou 3 bailes por ano, com bingo e bebida, visando apenas a diversão de adultos.

Criticando o tal evento político num texto candente, "Uma hiena carioca entre carangueijos", ridicularizei os "comunitários" que deixaram a Eminência Parda do estado falar por último, após 10 ou 12 "discursos" bajulatórios. Outro "mico"... mal sabia eu que essa é a norma a seguir nesses "teatrinhos" politiqueiros em que a plebe ignara aplaude "raposas" que só visam enganá-la.

Entre 1989 e 1992 promovemos vários shows musicais, não só nas praças e escolas do bairro Cidade Nova como em teatros da capital, em todos os lugares "pagando micos" graças aos impedimentos, proibições, má-fé e dificuldades impostas pelos responsáveis por esses locais, tudo devido a um bairrismo tolo, ufanismo basbaque, que leva o nativo a tratar "gente de fora" como um pária ou inimigo.

Nossos shows nos teatros de Belém ficaram bem perto do fracasso porque os artistas divulgados não apareciam ou, então, porque os responsáveis pelos prédios (entre outros) criavam todo tipo de entrave para nos dificultar a realização do evento.

Com um velho músico, seresteiro de primeira linha, formei uma dupla quase sertaneja nessa época. Compositor magnifico, Abiezér Silva criava canções com facilidade. Nos inscrevemos no I Festival da Canção Mariana, no meio do ano de 1990, 2 obras do Silva e uma canção meio pop de minha lavra. Classificamos as três e, na semifinal, saímos do teatro do SESI sendo parabenizados por diversos espectadores. Infelizmente, ficou nisso nossa participação... o júri, comprometido com grupos católicos jovens, premiou "teatrinhos" de dúzia e meia de rapazes no palco, muita encenação e pouca música. O regulamento -- antecipando os novos tempos da TV global -- ficava dono de tudo: da letra, da melodia, dos direitos de gravação e reprodução... e isso partindo de uma entidade católica. Um verdadeiro espanto!

Fechamos o ano com um show (de músicos amadores de Ananindeua) no Teatro Waldemar Henrique, em 15 ou 20 de de nov./90, obrigados pela "Direção" a cobrar caro por um evento que eu pretendia que fosse de portas abertas, além da ausência de 4 artistas apalavrados, inclusive o na época bailarino Judyelson, hoje um famoso locutor de rádio-bairro daqui.

O show "Aquarela de Belém" teve de tudo: capoeiristas aquecendo-se com os pés nas paredes do Teatro (o público já presente no salão), tropeços nos berimbaus no chão, microfone derrubado no palco e eu a esquecer o nome da Academia Oficina do Corpo, que visitei por quase 2 anos.

Com o jornalista Lázaro Magalhães (ou Moraes, nem lembro mais!), do jornal Diário do Pará a me caçar pelos corredores para terminar uma entrevista, eu tentava ao mesmo tempo dirigir e também apresentar o atrapalhado show. Quando percebi a debandada de um grupo de jovens dançarinos (de uma quadrilha junina, após sua apresentação) tive um "chilique" e encerrei o show pelo metade, alegando que brasileiro se dava por satisfeito "com 1 quilo ou 1 metro de cultura". Contando (o fato) ninguém acredita!

Explica-se: eu me estressara bastante, com a greve dos ônibus em Belém tínhamos vindo (30 ou 40 pessoas) fechados num caminhão-baú e um "capoeira" comera no escuro 14 dos 15 pães reservados para nossa volta, quando a fome chegasse. Na volta, outro inferno: a porta de ferro do caminhão quase quebra a perna de um rapaz, que insistia em mantê-la aberta durante o trajeto. Acabamos todos no hospital do bairro!

Noa anos seguintes as dificuldades aumentariam, mas estávamos prevenidos para enfrentá-las, apesar da covardia e da má-fé de quantos tentaram nos prejudicar a todo custo.

Em fins de 1990. insatisfeitos com a venda de jornais na Cidade Nova, resolvemos incrementar nosso faturamento revendendo um jornalzinho "venenoso" produzido em Belém. Na linha do carioca O Pasquim, a publicação não poupava ninguém, visando a "raposa-mor" da politica(gem) paraense e mostrando, com farta documentação, as "maracutaias" e negociatas que sugavam as verbas públicas do Estado.

'O POPULAR" era uma verdadeira cartilha de como enriquecer fazendo política... era incrível como sobrava ainda alguma verba para investimentos tal a sangria inacreditável dos cofres públicos feita por quase todos nessa ex-Província do Grão-Pará. Propuzemos ao dono revender apenas o "encalhe", os exemplares devolvidos das semanas anteriores, comprando-os pela quarta parte do preço de capa e vendendo no bairro pela metade do valor oficial.

A venda foi um sucesso instantâneo, a sucessão de escândalos e roubalheiras dos honestos (?!) políticos paraoaras interessava a quase todos.

Cidade-dormitório dos funcionários públicos que atuavam na capital, os 8 Conjuntos habitacionais Cidade Nova eram reduto de preciosos votos que a "sujeirada" revelada pelo jornaleco botaria a perder, principalmente para o PMBD, o partido mais visado pelo O Popular.

O fato é que, em 3 semanas, já vendíamos perto de 120 exemplares, colaborávamos com informações importantes e meu irmão produziu um artigo que atacava conhecido professor de Capoeira de entidade do serviço social de Belém. Publicaram o texto invertendo declarações e quase anulando o objetivo da nota, que era o de alertar o público para o despreparo do "mestre" citado por êle.

Aliás, isso era comum, meus artigos viviam sendo "corrigidos" nas Redações, cheguei a enviar ao Guiness Book (de SP) um pequeno texto de duas colunas que tinha 39 erros em relação ao meu original datilografado.

Meu irmão Renato exigiu uma ressalva, que não fizeram. Pouco depois, a "surpresa" final: cancelaram o acordo de revenda da "sobra" alegando que a gente estaria JOGANDO FORA (?!) os tais exemplares -- que pagávamos à vista -- e que iriam para o lixo de uma forma ou de outra, se continuassem entulhados nos corredores da Redação. Foi mais um "mico", comprovando o poder dos poderosos locais.

Em 1993, após meu irmão ser agredido a pauladas num centro comunitário próximo de nossa casa -- na presença de quase 20 pessoas, que nada fizeram para impedir o crime -- decidimos encerrar nossa luta inglória e inútil em prol da Cultura em Ananindeua (e no Pará), com a certeza de que apenas baile/bebida/bingo e bola interessam ao povo local.

Entretanto, nem assim estaríamos livres dos crápulas e ordinários. Tentando fotografar em 1997 uma certa 'Fundação" que era divulgada em vários Estados, levamos um tiro (desviado com a mão por meu irmão) do tal "mestre" que a dirigia. Era pouco: policial ou "encostado" (X-9, segundo a plebe) o sujeito correu para a delegacia e trouxe de lá 2 amigos para me pressionar, munido de uma Intimação sem carimbo nem assinatura. Recusei o documento... êle postou os 2 policiais no meu portão e voltou pouco depois com o papel assinado por uma mulher, cujo nome era o mesmo de sua filha.

Na Delegacia minguém tomou partido... apesar do tiro, das ameaças que sofremos e da meia dúzia de infrações penais cometidas pelo tal mestre e seus asseclas.

Recorri à Corregedoria de Policia Civil da capital. Avisado, o canalha produziu um bilhete mal escrito em papel de embrulho marrom, no qual eu "o ameaçava de morte e de lhe quebrar as pernas", nessa ordem. Exigi um exame grafotécnico dos garranchos... nunca soube do resultado!

Por fim, o processo foi arquivado "por falta de provas".

Assim se faz Justiça (ou injustiça) no Pará... mas largar tudo referente â Cultura nos deu relativa paz. É impossível se fazer qualquer coisa no Estado, se não fôr através dos "figurões" e "figurinhas", ligados de uma forma ou de outra à Política ou aos políticos locais. Essa é a minha história... quem puder que conte outra!

"NATO" AZEVEDO

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ADENDO INDISPENSÁVEL

"Terra boa é o Pará...", diz um dito popular muito antigo. A frase geralmente é usada com segundas intenções, quando se percebe que a pessoa que desagradou alguém é de outro Estado, um "baiano", "louro" ou "gringo", têrmos muito empregados em relação à "gente de fora". O Estado tem índices abaixo da média nacional em quase todos os setores da vida pública, mas o Governo "camufla" essa realidade cruel com colossal propaganda de amor eterno ao Pará. No dia-a-dia das cidades vê-se apenas egoísmo e excesso de liberdade individual, em detrimento do espaço coletivo, de uma vivência verdadeiramente comunitária.

Infelizmente, não dá para ser mais claro... mas serve de exemplo este imenso artigo com 2 "micos" vividos por nós, um nos primeiros dias no Pará -- sem a menor noção dos hábitos, comportamento, costumes e "tradições" (com aspas mesmo!) locais -- e outro em 1994, já recolhidos à nossa insignificância (desde o malfadado ano anterior) e cientes de que só realiza alguma coisa nessa região quem o povo local escolhe e quer. Para um bom entendedor um pingo é letra!

Aportamos no Pará em março/1984, indo direto para um sítio de 3 km X 110 metros de extensão, num lugarejo com meia dúzia de casas sem luz elétrica nem coisa alguma. Ao lado do nosso casarão (com teto de 132 telhas de amianto) havia uma Escola abandonada, único prédio de tijolos entre casebres de madeira e telhas de barro. As poucas crianças do lugar andavam quilômetro e meio para estudarem num comércio próximo. Por querela política, mesmo naquele fim-de-mundo, o pai da dona do comércio conseguira instalar a "escola" lá, recebendo a merenda escolar mensal em sua casa.

Um morador do lugarejo nos convenceu a "comprar a briga" de fazer retornar a Escola para o prédio antigo. A partir de um convincente Oficio consegui o pretendido, mas o sujeito queria ver sua acomodada (e despreparada, a meu ver) filha como professora. Ignorei a pretensão dele, contudo a dona do comércio teve 2 prejuízos: a) tinha que andar de bicicleta 3 km todos os dias, para ser professora e, b) perdera as vantagens de receber a rendosa merenda. Por muito menos do que isso se arruma inimigos mortais por aqui.

O fulano não conseguiu convencer os demais pais do vilarejo a pôr as crianças na aula, assistida por 4 ou 5 somente. A professora em poucos dias não veio mais lecionar... restava a merenda, que nenhuma família queria preparar, para servir aos 4 ou 5 "estudantes". Decidimos dividir entre as poucas famílias, insistindo para que trouxessem copos ou vasilhas para "rachar" as 2 latas de óleo de cozinha. Ninguém trouxe!

Ficamos com o óleo e. no mês seguinte, o único trabalho era o de buscar a merenda -- pai nenhum quiz fazer isso, embora fossem à cidade todas as manhãs -- remando por 40 minutos e aguardando de 3 a 4 horas para a maré "virar", mudar de direção. Tornamos a ficar com as 2 latas de óleo, porque mais uma vez ninguém trouxe vasilhame... e a história acabou por aí.

Nos difamaram na SEMEC (Secret. de Educ. e Cultura) local declarando que ficávamos com a merenda escolar, as aulas voltaram a ser na casa da comerciante-professora -- cujo pai era o representante-mor do partido PMDB -- e a Escola de alvenaria do vilarejo voltou a ficar abandonada.

Quando chegamos ao Pará já éramos jornaleiros desde 1975/76 no Rio, trabalhando para O GLOBO. Eu até antes, em 1969/70 os jornais eram distribuidos pelos Correios (pelo menos aos domingos) e eram os estafetas do DCT que faziam a entrega. Assim, nada mais natural que retomarmos nossa profissão de jornaleiros aqui. Chegando ao Conjunto Cidade Nova em agosto/1986 observamos que no bairro inteiro só se vendia O Liberal.

Contactei o jornal da Família Barbalho e me propuz vender seu Jornal, 20 exemplares por dia e 30 aos domingos. Ignorando o acertado, me "empurraram" 50 jornais todos os dias. Enquanto meu irmão assumia meus fregueses de O Liberal, me dediquei ao Diário do Pará, fazendo 2 enormes faixas que foram colocadas na entrada do imenso bairro e em frente à Feira onde eu vendia.

Inaugurei a "exposição" de jornais, permitindo a leitura das notícias mais interessantes por quem não tinha dinheiro para comprá-los e deixava exemplares nos bares dos pontos finais de ônibus, idéia que os Jornais adotariam dez anos mais tarde. A venda cresceu e no 3º domingo já estava vendendo perto de 30 jornais, embora acumulasse uns 150 de "sobra". No quarto domingo, outra surpresa: o Jornal "patrocinou" um jovem de outro bairro, que apareceu na Feira com 50 jornais, logo cedo. Protestei... que ficasse bem longe de mim, na outra entrada da Feira do IV.

No domingo seguinte o jovem trouxe um amigo com mais 50 jornais, que se postou ao meu lado. Foi o fim de um sonho e, na segunda-feira, procurei o Depto Comercial do Diário do Pará para encerrar meu contrato, levando um walkman usado como "pagamento" dos quase 200 jornais que se acumulavam em casa.

Atendeu-me o jovem José Priante Jr que, com o apoio do nome maior da "política" local, se transformaria em deputado e até em candidato a governador. Nessa época, ao lado da minha casa na rua WE 61 - Cidade Nova IV, havia o Mercado PIONEIRO, onde o gerente Manoel pagava as garrafas de cerveja que eu lhe vendia. Da noite pro dia o sujeito virou vereador, depois deputado, adiante prefeito de nossa cidade e, agora, é vice-prefeito da capital, Belém do Pará.

Os Jornais de Belém não vendem sua produção para o jornaleiro "pé no chão", repassam-na quase toda para intermediários denominados de "baderneiros". Estes têm o imenso trabalho (?!) -- que leva uns 3 minutos -- de tirar os jornais (separados em blocos de 50 exempalres) da impressora e entregá-los contados aos supostos jornaleiros.

Antes fosse tão simples: em geral esses sujeitos são "marreteiros", atravessadores que vão repassar o material para o verdadeiro jornaleiro, que fica esperando nos bairros distantes desde a madrugada pela chegada do produto. (Essa era a realidade nos anos 80/90, em Belém... e desconfio que mudou muito pouco!) Um dos Jornais trazia diretamente para uma ONG do nosso bairro jornais (de graça?!) para revenda por garotos que a tal ONG nem tinha. Isso nos domingos, quando nosso lucro era maior e quando a gente conseguia equilibrar os prejuízos dos demais dias.

Decidimos quebrar essa corrente maligna.. fiz queixa ao Ministério Público declarando que "o Jornal discriminava os verdadeiros jornaleiros, impedindo-os de comprar seu produto". Saí de lá com uma Ordem Judicial que me permitia comprar 75 jornais, pela metade do preço de capa.

A Diretoria já me esperava... prepararam uma Fatura com meu nome, para ser apresentada "na boca" das impressoras. Na outra semana, o processo se repetiu. Na 3ª semana fui informado que não mais precisaria de fatura. Poderia pagar e pegar os jornais da mesma forma que os baderneiros.

Chegando lá, a surpresa: ou pagava tudo com apenas 20% de desconto ou não recebia os 75 exemplares. Por trás da ordem um tal "Repolho", que eu denunciara à diretora como um dos funcionários que mais desviava jornais, jogando vários maços janela abaixo, para jovens à seu serviço.

Saímos de lá com apenas 25 jornais, os baderneiros todos se recusaram a nos ceder os 50 que faltavam e, num amplo conluio, nunca mais nos venderam jornais, nem a dinheiro. Ficamos nas mãos dos marreteiros do bairro, preguiçosos, irresponsáveis, cujas contas nunca batiam, que nada anotavam do que a gente pagava, que por vezes nem sequer íam buscar o jornal no centro... um horror! Dos 125 fregueses certos, aos domingos, findamos com menos de 30... "comprando exemplares com o Pedro, (ou Afonso, ou Pacuxi, etc) que recebia do Favacho, que pegava com o Milton, que os adquiria do Jornal, com nossa comissão caindo para 15% ou menos.

Como gratidão nunca é demais, os 2 Jornais nos cederam de graça em fins de 1989 folhas de amianto (usadas nas impressoras) para cobrirmos nosso barraco, quando um hipershopping comprou a casa (alugada) onde vivíamos e a demoliu, junto com mais de 30 outras, enquanto a inepta estatal responsável pela construção delas -- com dinheiro público e para gente de baixa renda -- "se fingia de morta". O Pará nos tem sido uma permanente lição... mas a gente não aprende nunca, pois cada dia nos reserva uma nova "surpresa".

"NATO" AZEVEDO