GENTE FINA

A onda de violência que tomou conta da cidade tem sua origem no tráfico de drogas. A cidade está sentindo a força do tráfico por ter se tornado uma das principais rotas de distribuição de drogas da região. As marcas deixadas pelos traficantes são bem visíveis na cidade, onde a fiscalização é falha, permitindo a proliferação de todas as modalidades de crimes.

A população enfrenta hoje, um verdadeiro martírio, provocado pela ação dos traficantes. A marginalidade é responsável por homicídios e roubos, uma epidemia que bate às portas do povo muitas vezes mais cruel que as doenças epidêmicas comuns. O que era exclusivo das grandes cidades, hoje, por aqui, se tornou uma realidade perversa, o tráfico faz suas vítimas em todos os becos e vielas da cidade. Ao que tudo indica a policia não consegue combater os bandidos, que estão cada dia mais preparados, mais armados; enquanto isso a população fica em casa, atrás das grades e muros altos, e os bandidos soltos.

Recordo ter lido em algum jornal o furto de um carro de um executivo que se encontrava num shopping da capital, fazendo compras para o natal. Chegando ao estacionamento juntamente com a sua mulher, notou o furto do carro. O casal desesperou-se e minutos depois a mulher lembrou-se que tinha deixado o celular dentro do carro. Imediatamente o marido ligou e o meliante atendeu:

- Olhe. Eu sou o dono do carro que o senhor furtou.

- Muito bem! E daí, simpatia?

- Vamos negociar. Quanto o senhor quer para devolver o carro. Ele é da minha mulher. Ela está aqui do meu lado chorando, desesperada.

- Olhe simpatia, eu já ia entregar este carro para o “aparador”. (pessoa que compra objetos furtados), porém, eu gostei da sua pessoa, o senhor parece ser gente fina; vamos negociar.

- Ótimo! Conversando a gente se entende, não é mesmo? disse o marido animado.

- Claro! Claro! Vamos fazer o seguinte; eu vou ficar com o seu carro esse final de semana. Vou dar um rolé com a minha gata e na segunda-feira eu o devolvo. Diga a patroa para ficar “fria”, eu não vou estragar o carro dela. Falou?

- Ótimo! Não tem problema nenhum. Pode rodar com o carro à vontade. Se o senhor reparar bem, verá que o tanque está cheio.

- Vejo que você é mesmo sangue bom! Gostei da sua pessoa!

- Bondade sua. Você é que parece ser boa pessoa - respondeu o executivo.

- Mas veja bem, gente fina, você tem que fazer duas coisas. Não pode dar queixa do furto, e tem que me ligar neste mesmo celular, na segunda-feira, na parte da tarde. Aí eu lhe direi onde vou deixar o carro. Combinado?

- Olhe amigo, quem falou em queixa? Nem pense nisso. Se você quiser pode devolver o carro lá em casa; a gente toma uma geladinha e se conhece melhor. O que você acha?

- A ideia é boa; mas prefiro deixar o carro em outro local. Quem sabe noutra oportunidade?

- Você é que manda, amigão. De qualquer maneira, um feliz natal para você e toda sua família.

- Obrigado, meu amigo. Desejo o mesmo para você e a madame aí ao lado. Dê um beijo nas crianças.

O negocio foi fechado e o carro devolvido conforme o combinado; as duas partes ficaram satisfeitas. Bastante romântico. Hoje a coisa está diferente, os crimes já não têm o glamour de outrora.