Me Engana que Eu Gosto
Me Engana Que Eu Gosto
Existe um processo de relacionamento em que, apesar de sabermos que estamos sendo iludidos pelos nossos interlocutores, preferimos a ilusão à verdade.
São milhões que preferem a ilusão do bicho, ou das loterias à realidade de que só com muito trabalho, dirigido para a produtividade e qualidade, e com a luta voltada para a justiça é que poderemos ter acesso a um melhor padrão de vida.
Quantas devem ser as esposas que, ao perceberem um enriquecimento relâmpago dos maridos, preferem à ilusão da competência extraordinária à realidade do envolvimento com o tráfico, pontos de bicho, sonegação de impostos, fraudes ou comércio inescrupuloso.
Devem ser vários os pais que, ao perceberem trejeitos efeminados dos filhos homens ou andar de soldado e voz de sargentão nas filhas, preferem a ilusão de que é uma fase ou até desenvolvem um processo de negação do óbvio, do que a realidade da opção dos filhos pelo bi ou homossexualismo.
São milhões de cidadãos que preferem a ilusão da propaganda, continuando a acreditar em salvadores da pátria, à realidade da História, que demonstra que há muito esses ditos salvadores vem iludindo nossos avôs, pais e nós mesmos, bem como iludirão nossos filhos e netos no futuro.
São milhões de cidadãos que preferem a ilusão de que a sua participação social não tem importância, à realidade de que preferem o conforto da omissão.
São muitos os que preferem a ilusão de que não perderão o seu pedaço de céu após a morte, mesmo que vivam contrariando os princípios da Ordem e da Justiça, bem como as Leis da Natureza, à realidade de que, em algum lugar e de algum modo, serão julgados pela “Lei do Retorno”: “aqui se faz, aqui se paga”.
São muitos os que preferem a ilusão de que, por serem extremamente resignados, nada exigirem e por nada lutarem, serão contemplados com um pedaço do céu, à realidade de que, sem esforço e luta, não têm paraíso.
“Mercado de Ilusões” é um humor cruel sobre uma das maiores tragédias do homem: a crença cega e cômoda. Humor cruel sobre a fé irracional.
Mercado de Ilusões
Chegue mais companheiro.
O que sonhas, nosso mercado tem:
pouco trabalho; muito dinheiro
e cada um com seu harém.
Pra tudo temos remédio,
basta acreditar.
Temos poções contra o tédio
e para chato não se aproximar.
Temos bálsamo contra solidão,
loção para nascer cabelo,
tônico pra não falhar machão
e pílulas para dor de cotovelo.
Pra um viver de cão,
temos risadas de hiena,
crenças no deus trovão,
falsas lutas de arena
e esperanças para a próxima eleição.
Temos música para rima,
ilusões pro desespero.
Temos papo para esquina,
e calor quebra gelo.
Chegue mais companheiro,
venha pra uma vida de sorte:
na loto milhões em dinheiro
e pedaço de céu para depois da morte.