Maria-Fumaça
É só mais uma crônica, talvez. Mas não poderia iniciá-la sem antes declarar minha profunda ternura aos que ainda se espantam com a obviedade das coisas. Queria que minha crônica fosse doce como um deslumbrado sorriso de menininha inglesa, que vi num trem de Minas Gerais, diante de vacas e pastos e montes e azuis!
Queria, antes de tudo, um trem. E que esse trem não tivesse destino nenhum, e que passasse por diversas estações, o que faria desse trem o mais belo: justamente porque não se sabe de onde veio nem para onde vai. Que apenas seguisse nos seus trilhos como quem segue sem rumo, em sua linha-férrea, errante e vagabunda: desbravando, desvelando paisagens, perscrutando horizontes, e que passasse por Chile, Bolívia, Paraguai, entrando no país vizinho, assim, com quem entra na casa da avó.
Que minha crônica fosse doida e destrambelhada como os brotinhos que guardam entre si segredos impublicáveis: "Sabiam que rosas tem espinhos... e que tem pólem também?"
Ah, que minha crônica fosse um brotinho! Que o mundo está cansado de intelectuais, impestado de doutores, de PhD's nisso e naquilo! Que o mundo está cansado de homens sensatos e inteligentes, de homens sérios e notáveis. Ah, que minha crônica fosse um brotinho, o mais bobo, ingênuo, impertinente e destrambelhado brotinho. Que fosse um trem, uai!
E que fosse gentil como uma Maria-Fumaça, e que levasse à vida dessas gentes tristes do meu subúrbio, de São João del-Rei ou de qualquer lugar do mundo, alguns segundos de sincera ternura. Ainda que tímida, ainda que quase-nada. Mas que fizesse um bem, um sincero bem que não se traduz em palavras.
E se ainda não acendesse nos corações humanos uma chama de alegria, uma pequena chama que seja, então mando aos diabos esse solitário ofício de fazer crônicas, e viro maquinista! Sim, viro maquinista!
Sem licença, qual manhã tempestuosa, entrarei pelo teu quintal - será necessariamente numa interminável tarde de domingo, numa tediosa tarde de domingo - e você estará debruçada na sua pobre janela, desconsolada ante a triste paisagem da sua rua, presa ao seu previsível cotidiano: e meu trem, subitamente despontará no teu triste horizonte, apitando alto, fazendo um escarcéu dos diabos, lembrando aos seus vizinhos, e todos que ainda guardam a preciosa capacidade de escultar, que navegar é preciso, e que viver nem tanto! Trilhar ou navegar?
Ah, que minha crônica fosse um trem que navegasse!
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