CRASH

Crash, o filme. Crash, a batida. Acho que andei provocando muito os deuses, ultimamente. Reclamando da vida, das dificuldades do estágio, das incertezas do trabalho, da carência emocional, do medo de crescer sem nunca admitir que já estou bem grandinha, dos sobressaltos do coração que não me deixam enxergar as coisas nitidamente, do inferno astral que eu não acredito, mas vivo... Enfim, reclamando, reclamando, reclamando e chorando muito entre uma reclamada e outra.

Então, crash.

Parados na sinaleira, sinal vermelho, domingo de manhã. Conversas amenas, solzinho gostoso, carinhos, preguiça por ter acordado cedo. Sem expectativas maiores do que aquele domingo, do que a semana que se estenderia até o próximo encontro. E de repente, crash. Uma caminhonete se arremessando contra o nosso carro. O barulho infernal do metal esmagado, do vidro estilhaçado, do meu grito. A traseira destruída. Uma batida de cabeça. Um desespero nunca antes experimentado.

Não me lembro de algum dia ter sentido tanto medo. Coloquei as mãos na cabeça e não queria olhar o machucado por medo do sangue, não queria abrir os olhos por medo de me descobrir morta, não queria de maneira alguma olhar para o lado e ver o Caio machucado. Eu só soube gritar: "Tu tá bem? Tu tá bem?" E ele não respondia, ele não falava, ele levou talvez um segundo eterno para me tirar do limbo em que já estava mergulhada. Crash e toda a minha vida que ainda nem vivi passou pela minha cabeça. Crash e nunca nada teve tanta importância quanto ouvir a voz do Caio. Crash e não havia mais chão seguro para eu pisar.

Em Crash, o filme, vemos que a velocidade da vida fatalmente, em algum momento, nos fará perder o controle. Alguém diz, durante a história, que nunca saberemos realmente quem somos. A vertigem do viver nos impede de conhecermos a nós mesmos. Não há tempo. Não há vontade. Não há interesse. A nossa verdade nos interessa tanto quanto os outros nos interessam: nada ou quase nada e, além do mais, sempre temos algo mais importante para fazer nesse momento. Para conhecermos a nós mesmos, só quando somos induzidos, empurrados, arremessados... Crash.

Tudo o que eu penso hoje e a cada dia desde domingo é que poderia ter sido muito pior. Tantas coisas horríveis poderiam ter acontecido! Crash e não haveria mais nada. Crash e tudo acabado no meio de uma reclamação. De uma grande e interminável reclamação.

E esta teria sido a minha vida?

Felizmente não aconteceu nada no acidente. Um pequeno galo e um enorme susto. E, é claro, uma repensada na vida. Uma boa repensada na vida. Afinal, alguém escolheu esse jeito para dizer: "Calma, Camila. As coisas não estão tão ruins assim".

Mulher de Sardas
Enviado por Mulher de Sardas em 15/05/2006
Código do texto: T156643