O VÉU DAS ILUSÕES...

Existe um véu que cobre todas as coisas - dos mais simples objetos aos mais complexos (e por isso incompletos) sentimentos. No mundo de carne e osso este véu de todas as ilusões cobre as sensações mais proveitosas… e como conseqüência temos a vida, devidamente tresloucada, sempre posta como um prato frio. Como sabemos existe mais prazer no olfato que no paladar, algo possível só aos pratos quentes - quando emergidos do calor que os circundam, exalam a poesia do frescor... o Divino frescor de se estar aproveitando o “Aqui e Agora”, verdadeiro manancial de felicidades.

É costume dividir a existência em passado, presente e futuro. Mas se a própria idéia de existência é infinita, como podemos então fragmentá-la? Os que se aventuram a projetar suas sombras em algum desses fragmentos, literalmente findam-se com eles ao verem suas vidas serem transformadas em míseras centelhas, porquanto há todo um fogo eterno aceso em seus corações. Assim cada emoção a desvendar belezas e mistérios, seja boa ou ruim, grosseiramente é nivelada a um tipo de trivialidade dantesca - ficamos a mascar, como heróis sem causa, o mesmo chiclete dia e noite - o perfume e o frescor já se foram, mas continuamos com a ilusão de imaginar como ele “era” ou poderia “ser”. Acostumados a nossa goma de mascar secular que, pouco a pouco escraviza nossa mente com lixos passados, presentes ou futuros, sentimos medo de cuspi-la, afinal ela pode, com todas as nódoas da saliva, ir parar no rosto de algum padre, pastor, político… estes e outros ditos conhecedores da verdade são os maiores vendedores de passado, presente e futuro - o véu mortuário que asfixia todas as descobertas do delirante “Aqui e Agora”.

Passamos toda a existência corpórea com o sentimento de haver perdido ou com o temor de perder o que ainda não foi conquistado. Quando deixamos de viver o momento infinitesimal de todos os finitos instantes que se abrem aos flashes é como se estivéssemos dormindo e curtindo a ilusão, enquanto alguém explora-nos a essência, a magia da vida. Quando acordamos, lá está uma grande ferida, deixamos de ser felizes. O ponto mais burro dessa nossa relação tríplice (passado, presente e futuro) é que toda nossa tristeza ou felicidade são concedidas por nós “Aqui e Agora”.

Viver de “Aqui e Agora” não significa deixar de fazer planos, mas realizá-los com a brasa do “Amar Agora”, “Viver Agora”, “Doar-se Agora”, “Conquistar Agora”, “Chorar Agora”, “Sofrer Agora”, “Sorrir Agora” - o calor destes é que promulga-nos o olfato para a tão sonhada felicidade. Para os que acharem a sentença anterior incorreta, pensando que sofrer não é felicidade, eis um alerta - sofrimento é um tipo de felicidade das mais preciosas. Caso o diamante pudesse falar, diria que foi na sôfrega lapidação que teve os seus ápices mais prazerosos, ápices da mais completa ousadia de olhar para cima (seu azeitado “Aqui e Agora”) enquanto toda a força do esmeril o forçava para baixo.

Certa vez Jesus, ao partir para a pregação, ouviu de um dos seus discípulos: “Senhor, permite-me que vá primeiro enterrar o meu pai”. Mas o Rabi respondeu: “Segue-me e deixa os mortos enterrarem os seus mortos”. Este conselho pode ser ampliado “DEIXE OS MORTOS ENTERRAREM OS SEUS MORTOS, OS VIVOS ENTERRAREM OS SEUS VIVOS E OS QUE AINDA HÃO DE NASCER ENTERRAREM SUAS GERAÇÕES. SIGA O SEU “AQUI E AGORA” DESVELANDO RAROS SABORES DA VIDA EM CADA DEGUSTANTE SEGUNDO QUE SE DESABROCHA COMO UMA FLOR GOTEJADA DE ORVALHO.

O espanhol Ramon de Campoamor refletindo sobre nosso embate com esta tríplice aliança concluiu: “Só vivemos realmente quando o nosso peito e a nossa mente são um furacão de idéias e paixões”…. e….e idéias e paixões, claro, só existem no “Aqui e Agora”.

Para os que imediatamente ao término dessas palavras ousarem tirar o véu de todas as ilusões de suas vidas, ouvirão acordados e extasiados estas palavras de Santa Teresa de Jesus: “VIVO SEM VIVER EM MIM, E TÃO ALTA VIDA ESPERO (e “Aqui Agora” vivo), QUE MORRO PORQUE NÃO MORRO”. Eis mais uma vez o significado da existência - ETERNIDADE, o que não se pode dividir sem que a alma fique doente e explorada.

Epicteto, o filósofo escravo, ganhou sua liberdade pautando a vida com esta máxima vigilante: “Vigia a tua vida, e não renuncies por nada à tua liberdade (de Ser Aqui e Agora)”. Não imite os maus comediantes (…sua sociedade…. sua televisão…seus…) que só sabem cantar em coro.