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O fantasma de Carlos Drummond de Andrade
 
 
Já se tornou piada velha, e até idiota, segundo os mais carrancudos, a sugestão de pôr lentes de contato na estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade na praia de Copacabana. De qualquer modo, velha ou idiota a tal piada, parece que não há mesmo outro jeito. Pela sétima vez, desde que a instalaram num banco do famoso calçadão, aparece um gaiato e rouba-lhe os óculos, privando o nosso grande bardo do espetáculo de tanta coisa bonita de se ver, especialmente as mulheres do pedaço. Covardia pura contra o genial itabirano que amava o Rio de Janeiro como poucos.
 
Eu nunca soube da prisão de nenhum desses vândalos. Naturalmente, agem na hora em que os guardas municipais estão no terceiro sonho, tendo pesadelos com os problemas diurnos da orla e o choque de ordem promovido pela atual prefeitura. Como vão cuidar de um poeta que nem conhecem depois das nove da noite e durante a perigosa madrugada? Se querem saber, vão é acabar deixando o nosso Drummond sem óculos nem guarda-chuva. O quê? Não há nenhum guarda-chuva? Me desculpem. Que ideia mais estranha!
 
Mas, se ainda não pegaram ninguém, ocorre-me outra ideia, menos estranha. Quem sabe o larápio não é próprio fantasma do poeta? Aqueles que o conheceram pelas crônicas que publicava quase diariamente em jornais e revistas de todo o país não podem ter esquecido que ele tinha verdadeiro horror à exposição midiática, às homenagens corporativas, à vida literária social, às panelinhas de poetas e prosadores, preferindo a reclusão doméstica a qualquer ameaça de aclamação pública de si ou de sua obra.
 
Se estivesse vivo na época em que bolaram uma estátua para ele, não teria autorizado esse atentado à sua discrição e modéstia. Assim como nunca aceitou candidatar-se à Academia Brasileira de Letras, também não teria aceitado a estátua, o ícone profano, o busto de gesso, ou qualquer outra coisa no gênero. Ideia de jerico, teria declarado com o risinho tímido e reticente daqueles que abominam com elegância e bonomia a vaidade humana.
 
Portanto, senhores guardas municipais, procurem o fantasma de Drummond; deve ser ele o tal larápio. Mas, se é assim, por que não carrega logo toda a estátua? Sutileza, meus caros, sutileza. Drummond sem os óculos não é o poeta. Drummond sem os óculos é apenas um monte de bronze no calçadão, mas nunca o poeta.
Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 21/01/2009
Código do texto: T1396331

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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Luiz Guerra