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Ao vencedor, os sapatos!



Pessoas que ao longo da vida nunca tiveram o hábito de ajudar os mais fodidos quando o fazem podem provocar verdadeiras tragédias. Vejam o caso do nosso septuagenário Nestor, proverbial mão-de-vaca de Marechal Hermes, incapaz de socorrer os parentes e os amigos em seus momentos de infortúnio, e pouco se lixando para a péssima reputação que acabou adquirindo em todo o bairro. Diga-se, a bem da verdade, que numa roda de botequim Nestor é de uma simpatia impagável; mas não lhe peçam dinheiro emprestado nem bebam com ele se estiverem sem grana, pois vão passar vergonha na hora da conta. O homenzinho, apesar da idade e do corpo franzino, cobre de insultos o pidão ou praticamente obriga o parceiro de copo a pendurar sua parte na despesa. Já levou uns tapas por causa disso, mas não se emenda.

Há dois ou três dias, não se sabe muito bem por quê, Nestor passou a mão num par de sapatos quase novos que já não usava, meteu-os numa sacola de supermercado e dirigiu-se à pracinha do Teatro Armando Gonzaga, onde moram vários mendigos e desempregados crônicos, indiferentes ao anúncio do choque de ordem da atual prefeitura. Parou no meio de uma turma de onze maltrapilhos, pôs rapidamente a bolsa no colo do que lhe pareceu o mais sacrificado, e se mandou, calado, sem olhar para trás, com medo de ser visto pelos conhecidos. Mal suspeitava o gaiato que Pituta e este cronista acompanhávamos toda a cena do banco defronte ao Hospital Carlos Chagas, semiocultos pela barraca do baleiro Castorino.

O ganhador dos sapatos sofria para enfiá-los nos pés sujos, mas foi logo cercado pelos colegas, que passaram a examinar a mercadoria e a discutir sobre o que deviam fazer com ela. “Fazer o quê? São meus!”, gritou o pobre coitado, tentando arrancar os sapatos das mãos do mais forte entre eles. Levou uma sapatada. Tentou de novo, e levou mais duas, uma na orelha esquerda, outra no cocuruto. O grandão finalmente tomou posse dos pisantes. “Está resolvido. Vamos vender essa porra, e comprar cigarro e cachaça. Fica mais comunitário.” Todos aclamaram o suposto líder da turma, e a única voz dissidente tornou-se um fiapo de voz. Quando o grandão se afastou com os sapatos, o perdedor das batatas pegou uma pedra e acertou-o com toda a força pelas costas. Confusão generalizada, espalha-brasa, o mais fraco apanhou muito e recolheu-se ao seu canto. “Quem der cigarro ou cachaça a esse pilantra vai entrar na porrada também”, gritou o maioral. “Uma semana de castigo.”

Bem, são organizados, vigilantes e punitivos. Mas o culpado foi o Nestor. Querem saber? Eram sapatos de gafieira, que pediam no mínimo paletó e gravata de bom malandro. Antes os entregasse no brechó comunitário de nossa igreja católica, que lhes daria destino mais apropriado. Acho que o pão-duro contumaz deve viver e morrer assim. Em seus repentes de generosidade, só fazem merda.
Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 16/01/2009
Reeditado em 16/01/2009
Código do texto: T1388132

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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