ANJOS HUMANOS

O plantão do Jornal Nacional interrompe a novela Mandala - obra de Dias Gomes, baseada em Édipo Rei, a tragédia grega de Sófocles, no momento em que Jocasta, personagem de Vera Fischer, revelaria a Édipo, de Felipe Camargo, ser sua mãe - para transmitir, ao vivo, o resgate de um bebê de oito meses, soterrado após avalanche do barraco onde morava com os pais e mais dois irmãos – já encontrados e declarados mortos.

Há três dias não parava de chover na capital paulista, e os rios, transbordando, regurgitavam contra o homem os dejetos da indústria que ele ingerira durante meses. Carros de bombeiros estavam por todos os lados, a correria dava lugar ao desespero; morros desabavam levando consigo vidas e histórias de pessoas sofridas, que à margem da sociedade, sobreviviam do pouco que angariavam das latas do lixo ou da caridade de um e de outro. As lágrimas eram muitas, o sofrimento jamais visto e a fé, o elemento que mantém o homem esperançoso há milênios, alimentando-se da desgraça alheia, incólume...

Luz divina que abrilhanta o espírito humano, a solidariedade mantinha em pé o grupo de voluntários, que mesmo exausto, persistia na busca do bebê, cujo choro fino embrenhava-se pelos destroços, naufragando na agitação da superfície.

A garoa não cedia, alguns populares, atentos, não desgrudavam os olhos dos morros adjacentes, o perigo de novos deslizamentos era eminente.

Políticos de todas as partes da cidade chegavam com seus carros luxuosos bancados à custa da exploração popular. Entre um aperto de mão e a entrega de um santinho, posavam-se de anjos, sensibilizados com a tragédia, como se não fossem os responsáveis pela aflição daquele povo.

Os oportunistas de plantão gravavam tudo para a campanha eleitoral gratuita da TV, momento em que a administração atual dificilmente escaparia dos ataques, sendo acusada de negligente, impiedosa com o social e subserviente aos poderes internacionais.

As imagens da tragédia viajavam o país, comoviam o mundo, geravam críticas de estadistas pela péssima aplicação do dinheiro público em obras que não evitaram a dor de tantas famílias brasileiras.

Um dos bombeiros, de nome José, integrante da equipe de salvamento, com as forças quase esmorecidas, implora aos santos proteção, precisava chegar à criança, retirá-la daquela lama, mantê-la viva, crente em dias melhores, na presença de uma família que a protegesse das intempéries do destino. Ao retirar uma pedra com os dedos carcomidos pelo lamaçal, avista o rosto do menor e grita, em um pranto comovente, ao perceber que o mesmo havia resistido à morte com a audácia de um querubim.

O milagre ecoa além das fronteiras da sensatez, a vida humana, como na passagem bíblica, vence novamente a deusa das trevas, cujo prazer é instigar o pânico, semear a dor e conduzir a alma do condenado às ruínas do caos.

Anos se passam, guerras são vencidas, presidentes destituídos, décadas perdidas, séculos esquecidos, mas as mesmas feridas, como chagas, insistem em não fechar; a cada novo temporal, novas histórias de dor e sofrimento são acrescentadas ao grande e nada previsível livro da Vida... E assim como José e tantos outros, novos heróis, todos anônimos, farão parte destas mesmas histórias, na condição de anjos humanos, prontos para corrigirem os erros daqueles que são pagos para fazer e apenas o fazem na fantasia da TV e diante de palanques, microfones e platéias.