A cobra
Crônicas de Ed:
O vício do poeta
Sempre que eu passa por aquela porta, eu pressentia que algo aterrador aconteceria.
Às vezes, nosso subconsciente nos avisa algo catalogado como uma tragédia anunciada.
O dia fora perto do recorde da maior temperatura e a sensação térmica ultrapassara os 60 graus durante o dia e os répteis do bambuzal não suportaram o calor que aquecia e amarelava as varas e se dispensavam pelas privilegiadas moradas vizinhas.
Durante a noite, Fernando não resistia ao aquecimento da nossa suíte e sempre fazia a sua necessidade fisiológica no banheiro do fundo do quintal a eliminar resíduos do seu corpo e a liberar espaço para o trato gastrointestinal processar mais alimentos. Afinal, somos especialistas em Educação Física e comemos alimentos ricos em fibras e seguimos um estilo de vida saudável, pois é o bastante para que o nosso organismo funcione regularmente.
De repente, um grito:
-Neném, Neném!
Desesperadamente, eu parti em socorro do meu marido e me deparei com uma cena inusitada.
Fernando, completamente nu, fora hipnotizado pela jiboia arco-íris, a mais dócil criatura que o observava desde sua chegada ao mictório.
Consegui retirá-lo da cena e o envolvi com seu traje praiano. Meus gritos de desespero assustavam a pobre serpente que se encolhia sobre a tampa da caixa acoplada. Foi quando percebi que o animal deveria ser poupado do machado de Fernando que já recuperado queria impor a sua macheza dando a ideia de cortar-lhe a cabeça.
Havia ao redor da casa, camuflados entre as cercas, os flashs que se misturavam aos vaga-lumes a tentar nos denunciar por maus tratos aos animais.
Liguei para Henrique, meu sobrinho, o menino que fora criado naquela região da Colônia em Jacarepaguá e era conhecedor de todos os animais que visitavam nossas casas: as cobras, os saguis, as rãs, as pererecas, os gambás, as capivaras, os lagartos e tantos outros silvestres.
O rapaz, pegou a cobra, suavemente, utilizando
uma lata de lixo e uma vassoura. Foi uma maneira simples de pegá-la sem ter de manuseá-la diretamente. Ele a colocou numa caixa de papelão para que sua noite fosse sossegada e na manhã do dia seguinte, a jiboia voltara para seu habitat a receber mais um dia fervoroso, enquanto que eu não conseguira dormir e poupara Dona Haidê que dormia serenamente. Perdi minha concentração durante o dia e minha memória ficou alterada como também o meu humor. Senti-me irritada, estressada, mas depois que tudo passou, encontrei meu amigo poeta que após ouvir a minha exuberante história, disse:
-Vou jogar na cobra!
Descobri que jogar no bicho é o vício do poeta.