Royal Flush e Rivotril

Se todos fossem fartos, o estrago seria maior — então ainda bem que não.

Se toda dor virasse prazer, eu voltava pra você.

Segunda: um corpo diferente.

Terça: outro.

Quarta: um drink apressado pra descer as incertezas.

Cheiro de baunilha, meias conversas que quase valem meu entusiasmo, mas despencam pro limbo do quase assim que o teor sexual se sobressai.

Tragadas longas de esperança pelo próximo.

Quinta: cachos no cabelo, olhar marcado, fitando alguém que eu mal sei como chegou ali.

Engole mais uma dose, sorri entre pausas.

Royal flush dele. Game over meu.

Sexta: volto pra cama ocupada com o vazio.

Mais vazio que os corpos que usei — ou que me usaram.

Rivotril pra dormir.

Sonhos pesados, silêncios leves.

Sábado: vamos trabalhar.

Me sinto usada.

Mais que quando escolho me deitar com estranhos por alguns minutos duvidosos.

Domingo: repulsa.

Mas só até o ciclo recomeçar.

Desdenho da minha própria superficialidade, mas ainda mais do fato de isso ser o mais profundo que a maioria das pessoas consegue ser.