Varado de fome
Num dia quente ensolarado
Lá no meio do sertão
Um matuto, meio forte
Tava em grande aflição
Com a espielha arriada
E a barriga a dar pressão
Tô varado de fome
Já num vejo solução
Se num como um prato cheio
Vou cair no mei do chão
Pense num cabra danado
Com a munheca sem pressão
Saiu ele, pé ligeiro
Pra tentar se alimentar
Mas sem um tostão furado
Como ia ele comprar?
O suor corria o rosto
Tava feio de olhar
Foi na venda de Seu Chico
Que vendia no fiado
Mas o homem só negava
Tu já tá muito endividado
Se num pagar o que deve
Vai dormir todo inchado
O matuto, esperto e liso
Num podia vacilar
Avistou uma galinha
E tentou ali pegar
Mas a bicha foi ligeira
Num quis colaborar
Foi então que lá na estrada
O milagre aconteceu
Viu um velho camarada
Que por sorte apareceu
Tava assando um carneiro
E o chamou, vem Zé, pega o seu
Num pensou duas vezes
Foi chegando devagar
Pegou logo um naco grande
Comeu sem nem mastigar
Rapaz, tô de banda
Já posso até trabaiá
Dessa história eu digo
Pra num ter desespero
A fome bate, é matreira
Mas sempre tem um parceiro
Num precisa se arriscar
Pra num cair no atoleiro.