TEXTO TEATRAL - O AUTO DOS CANGACEIROS
PERSONAGENS
SEBASTIÃO DO CHOCALHO (Líder do Bando)
MARIQUINHA DO CANGAÇO (Mulher de Sebastião do Chocalho)
ZEFINHA DO CANGAÇO ( Mulher de Caga Sibito)
ROSA CANGACEIRA (Afilhada de Sebastião do Chocalho)
TROVOADA - (Cangaceira)
PATATIVA - (Cangaceira)
CAGA SIBITO - (Cangaceiro)
ZÉ CATOLÉ - (Cangaceiro)
PATACHOCA - (Cangaceiro)
MULHER - (Entregadora de Carta)
PADRE CÍCERO - (Pároco de Juazeiro)
VALERIANO - (Soldado)
JOVENTINO - (Soldado)
NAZÁRIO - (Soldado)
I – PRIMEIRA CENA – CARTA DE ANASTÁCIA - ABERTURA
O BANDO DE SEBASTIÃO DO CHOCALHO INVADE UM POVOADO DO SERTÃO NORDESTINO. ESTÃO NUMA PENUMBRA, NO PALCO, OS PERSONAGENS DE CAGA SIBITO E SEBASTIÃO DO CHOCALHO. DE REPENTE SURGE PELA PLATEIA UMA MULHER QUE LHE ENTREGA UMA CARTA.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
É de se lamentar que naquele povoado, lá no alto da serra os nossos homens comeram até gafanhoto, como assim fez João Batista no deserto. Só que a gente ainda num é santo como é o menino do carneirinho. Os macacos estão nos chamando de bandidos. Bandido é a farda que você usa a serviço desse governo que trata a justiça de duas maneiras: pra quem tem dinheiro de um jeito e pra quem não tem de outro jeito. (ENTRA PELA PLATEIA UMA MULHER QUE TRAZ CONSIGO UMA CARTA) Caga Sibito que zoada da gota serena é essa? Vai espiar quem vem por essas bandas.
CAGA SIBITO
Sebastião do Chocalho, não estou ouvindo patavina nenhuma.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Caga Sibito, tamo (ASSOLETRANDO) fu – di – do, tu não ouve e eu com problema de falta de vista. Lascou tudo.
CAGA SIBITO
Sebastião do Chocalho, é uma mulher.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Uma mulher, a estas horas? O que me traz esta senhora?
MULHER
Sebastião?
CAGA SIBITO
Diga logo o que a senhora quer.
MULHER
Tenho aqui uma carta endereçada a Sebastião do Chocalho.
CAGA SIBITO
Sebastião do Chocalho a encomenda é pro senhor.
MULHER
Essa carta é pra vossa senhoria. (ENTREGA A CARTA E SAI DE CENA PELA PLATEIA)
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Carta? Uma carta sempre é benvinda. Leia que estou com a vista daquele jeito que num ver coisa com coisa. Estou precisando trocar os óculos. (ENTREGA A CARTA A CAGA SIBITO)
CAGA SIBITO
(LENDO) Ao ilustre Sebastião do Chocalho.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Eu sei seu imbecil, se ela veio para mim, é claro que deve ter o meu nome. Ah, cabra burro da bexiga taboca.
CAGA SIBITO
(CONTINUANDO A LEITURA) Meu querido Sebastião, rei das caatingas do sertão nordestino, é com muito pesar que estou indo embora. Não posso mais ficar na incerteza. Tenho que partir.
Me perdoa por tudo. Vou seguir o meu destino. Obrigada. Adeus.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Pelo amor de Deus Caga Sibito, tu entendeu essa carta como eu estou entendendo?
CAGA SIBITO
O que é isso, Sebastião? Nesse sertão mundo a fora tem mulher que faz gosto. Por que se desesperar por uma quenga daquela que tá lhe abandonando?
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Quenga não, seu infeliz! Não está vendo que ela foi a única que Sebastião aqui dormiu, se levantou, fez chamego, chafurdo e outras coisinhas que tu num pode nem sonhar.
CAGA SIBITO
Me perdoe! Não quis lhe ofender. Apenas fiquei triste quando lhe vi com essa cara.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Deu os seiscentos diabos! E com qual cara o cabra queria me ver?
CAGA SIBITO
Perdão, Sebastião do Chocalho, perdão! (SE AJOELHA)
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Se levante, homem de meia tijela. Não precisa me pedi perdão. (CAGA SIBITO SE LEVANTA OBEDECENDO AS ORDENS)
CAGA SIBITO
Eu sei o quanto o senhor gostava dela.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Foi a única que até agora conseguiu conquistar meu coração. Vai ser difícil outra preencher este vazio. Mas que ela seja feliz nesta escolha. Anastácia Cangaceira, parece que é um sonho.
CAGA SIBITO
Dona Anastácia, eu tinha o maior respeito. Não é atoa que ela lhe chamou de “Rei das Caatingas”.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Além da peste da gota serena, istopô balai, ainda me chamou de catinga, Caga Sibito. Cheira aqui meu sovaco pra tu sentir aqui o meu cheiro. Ver se eu estou catinguento?
CAGA SIBITO
Não, Sebastião do Chocalho. O senhor entendeu mal. Ela lhe chamou com muito respeito de “ Rei das Caatingas desse Nordeste. Desse sertão, dessa vegetação.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Eita, gota serena... é verdade. Caga Sibito, desejo de coração partido que Anastácia seja bem feliz pra onde ela tenha ido. A saudade já começa a doer.
CAGA SIBITO
Sebastião do Chocalho, calma. O senhor tem fama, tem presença e tem ouro e tem respeito desse povo todo. Talvez o senhor nem precise ir tão longe pra conseguir uma cabrita pra fazer xodó com o senhor.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Caga Sibito, tu tá indo longe demais. É certo que se eu tiver uma danada comigo ela vai ter que fazer xodó.
CAGA SIBITO
Talvez o senhor nem vá muito longe, essa cabrita pode está bem perto daqui da gente. Invista nela. Ela só vive lhe espiando com aqueles olhos de pidão. O senhor sabe de quem tô falando.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Vamos esperar pela volta dos nossos homens. Temos que dá proteção. Fizeram uma emboscada e eles caíram direitinho. Vamos ver se a gente consegue chegar até lá. Não consigo esquecer Anastácia, Caga Sibito. Eita coração velho pra doer.
CAGA SIBITO
Me dá um medo que num tem tamanho. Se o pessoal da gente num voltar mais, como é que vai ficar?
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Caga Sibito, tu num acha se tivesse tido alguma coisa a gente num já sabia? Tu tai lembrado que a combinação foi da gente se encontrar em Juazeiro pra falar com o nosso padim Padre Ciço?
CAGA SIBITO
Quem não tem cão, Sebastião, caça com gato. Bora simbora salvar o que resta do nosso bando.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Emboscada é emboscada. Escapa quem tem juízo. Essa não é a primeira e nem vai ser a última. Ver o que sobrou do nosso bando. Caga Sibito, que diabo de banho Zefinha e Mariquinha foram tomar?
CAGA SIBITO
Patachoca está tomando conta da mulher, Sebastião do Chocalho. (GRITANDO) Patachoca! (SAEM DE CENA)
II – SEGUNDA CENA – CHEGADA EM JUAZEIRO DO PADIM PADRE CIÇO
ENTRA PELA PLATEIA TROVOADA, ROSA CANGACEIRA, PATATIVA E ZÉ CATOLÉ.
TROVOADA
Sebastião deve de tá com a gota serena. Depois daquela emboscada, a miserável de Anastácia resolveu abandonar o bando e se mandar.
PATATIVA
Acredito que Sebastião não sabe de nada ainda. Bora contar pra ele.
TROVOADA
Ele é bem capaz de mandar degolar aquela desgraçada.
PATATIVA
Anastácia é mesmo uma ingrata. Sebastião deu o maior apoio no momento em que ela mais precisava. Taí o que ela fez.
TROVOADA
Acho melhor a gente ir se acostumando com essa história e ver a reação de Sebastião. Depois vai sobrar pra gente. Ele vai jogar pesado com a gente porque a gente debandou e foi se esconder.
PATATIVA
Oxente, Trovoada, era o que a gente podia fazer. Os macaco quase dá fim ao nosso bando. Perdemos Zé Preá, Chica do Finado Zé Sibito, Panela e o Compadre Binho.
ZÉ CATOLÉ
Eu tive que me disfarçar detrás dum peste dum cagador. Uma fedentina igual a fato de urubu.
PATATIVA
Zé Catolé, você podia ter impedido a fuga de Anastácia. Sebastião vai dizer que houve alguma coisa estranha. Vá logo se preparando.
ZÉ CATOLÉ
O compadre Sebastião é gente que sabe o que faço. Anastácia preparou tudo bem direitinho e não teve como a gente saber. Patativa, se você quer saber, foi bom mesmo ela ter ido simbora. Toda cheia de dengo e fez com que Sebastião matasse por causa dela, você sabe quem.
PATATIVA
Eu sei, até hoje me lembro. Meu irmão Zé Sibito. Tudo por causa de uma cena de ciúme. Meu irmão casado com Chica nunca lhe faltou com respeito. Sebastião foi enfeitiçado pela beleza daquela mulher.
ZÉ CATOLÉ
O que tinha de boniteza, tinha de safadeza.
TROVOADA
Vocês têm notícia de Caga Sibito? Acho que ele morreu naquela emboscada.
ZÉ CATOLÉ
Caga Sibito, medroso como ele é, deve de ter escapulido. Sebastião conseguiu escapar com Mariquinha e Zefinha, por dentro das coivaras. Eita que dia pra nunca mais esquecer.
TROVOADA
Vamos seguir viagem.
ZÉ CATOLÉ
Cadê Rosa Cangaceira?
PATATIVA
Foi na venda de disfarce comprar farinha e charque. Ficou triste, porque não conseguiu fugir com seu padrinho Sebastião do Chocalho e nem com seu amor.
ZÉ CATOLÉ
É verdade. Patachoca se debandou e nem sequer pensou em Rosa Cangaceira.
TROVOADA
Patachoca ficou dando proteção. E se quer saber da verdade, a gente nem sabe por onde anda esse povo. Estamos perdidos.
TROVOADA
Deixe de falar besteira. Perdido, nunca. Estamos apenas distantes, isto sim. Rosa Cangaceira está custando. Bora ver se a gente lhe dá proteção.
ROSA CANGACEIRA
(ENTRA EM CENA) Fui chamada pra trabalhar no barracão da Fazenda de Bento Trindade. Ninguém lá nem notou que faço parte do bando do meu padrinho Sebastião do Chocalho.
TROVOADA
Apois temo que correr contra o tempo. Vamos levar dois dias para chegar em Juazeiro. O Padim Padre Ciço vai receber Sebastião do Chocalho com a gente tudinho. Bora simbora porque o tempo está do nosso lado e temos que aproveitar.
PATATIVA
O padim Padre Ciço, vocês estão lembrados que ele queria uma prosa com Sebastião. E foi ele que batizou nosso líder como Sebastião do Chocalho. Vocês estão lembrados.
ZÉ CATOLÉ
Lembro como se fosse hoje. A gente tava na gruta dos Calaço quando Sebastião recebeu um bilhete de um viajante e nele dizia.
PATATIVA
Isso é motivo de orgulho pra gente que faz parte desse bando.
TROVOADA
Rosa Cangaceira, se avexe. Pegue as coisas que a gente vai se arribar daqui. Estou incomodada com esse silêncio.
ROSA CANGACEIRA
E o que será que Padre Cícero do Juazeiro quer com Sebastião e com a gente?
TROVOADA
Sei não, minha filha. Vá perguntar ao papa. (SAEM DE CENA. EM SEGUIDA SURGEM SEBASTIÃO COM ZEFINHA, MARIQUINHA, CAGA SIBITO E PATACHOCA)
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Eita que o calor está aumentando. A sede vai me consumindo e a saudade daquela infeliz vai tomando conta das minhas andanças.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Caga Sibito é verdade o que você me contou?
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
(REVOLTADO) É verdade o que, Zefinha? Que Anastácia me abandonou, fugiu, deixou o bando e me deixou lascado, sem rumo.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Caga Sibito, pegue água pra Sebastião. (CAGA SIBITO PEGA ÁGUA DO CANTIL E DÁ PRA SEBASTIÃO DO CHOCALHO)
PATACHOCA
Sebastião, se chegarmos com vida em Juazeiro, lá deve de ter uma mulher a sua altura, que lhe entenda e saiba compreender o senhor.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Pare, Patachoca. Deixe de ser babão. Você é um dos culpados pela fuga de Anastácia.
PATACHOCA
Pelo amor do Padre Ciço, quem ficou lá naquela serra é que é responsável. A gente está aqui, vivo e contando história.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Trovoada, Patativa e Zé Catolé, esses sim, são eles que facilitaram a fuga da sua mulher.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
A partir de hoje eu não quero ninguém daqui falando o nome daquela peste. Ninguém, ouviram?
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Caga Sibito, você conseguiu ver esse pessoal antes de fugir com Sebastião?
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Caga Sibito me deu proteção, coisa que você, Patachoca, não deu. Você vive dizendo que Caga Sibito é frouxo. Frouxo é você.
PATACHOCA
Eu sei, Sebastião. Eu sou um frouxo. Sou tão frouxo que acompanhei o senhor e não abandonei.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Patachoca, pare. Aquele pessoal que ficou lá na serra, ficaram porque não teve como escapulir. Ou eles se escondiam ou morriam. Bora ver se a gente encontra um rio, estou precisando refrescar o juízo. (SAEM DE CENA. ENTRA EM CENA TROVOADA, ROSA CANGACEIRA, ZÉ CATOLÉ E PATATIVA)
ZÉ CATOLÉ
(GRITANDO) Sebastião do Chocalho!
PATATIVA
Homem, não faça isso. Os macacos devem tá por tudo que é mato. Não confie.
ROSA CANGACEIRA
Acho que a gente deve dar uma parada pra comer.
TROVOADA
Espera. Escuta. Conseguem ouvir alguma coisa?
ROSA CANGACEIRA
Estou!
PATATIVA
É bom que a gente não pare agora. É perigoso. Adiante a gente para.
ZÉ CATOLÉ
Estou aqui quase fazendo nas calça. Espera que vou aqui no mato.
ROSA CANGACEIRA
Cuidado pra não se limpar com folha de urtiga. (SAEM DE CENA RINDO DA SITUAÇÃO. ENTRA SEBASTIÃO DO CHOCALHO ACOMPANHADO DO SEU PESSOAL)
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Que catinga de bosta do istopõ balai. É bosta de gente e fresca... Vocês não estão sentindo? O nariz deve está entupido. Peraí, a catinga tá aumentando.
PATACHOCA
É verdade, estou sentindo.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Num foi tu não, Patachoca?
PATACHOCA
Eu lá sou homem de cagar no mato e não enterrar.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Patachoca é igual a gato. Caga e enterra a bexiga porque deve feder que só a gota.
ZEFINHA DO CANGAÇO
(SAI DE CENA. GRITA) Minha gente, olha quem eu encontrei, quando me viu teve um medo e se melou todinho.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Zé Catolé, cadê o pessoal?
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Homem, que coisa boa. Vocês escaparam?
ZÉ CATOLÉ
Eu, Rosa Cangaceira, Patativa e Trovoada.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Oxente, tá faltando gente. Por onde anda Zé Preá, Panela, Compadre Binho e Chica do Finado Zé Sibito? Num acredito...
ZÉ CATOLÉ
Os três foram degolados e entregues às autoridades policiais. Chica do Finado Zé Sibito foi chicoteada até a morte.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
É triste ter que passar por estas coisas... Sebastião, quando um macaco tiver a sorte de cair na mão da gente, deixa comigo pra tu ver o que sou capaz.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Gosto de ver assim. Deus tende piedade das almas de Zé Preá, de Panela, da guerreira Chica do Finado Zé Sibito e do meu Compadre Binho.
ZÉ CATOLÉ
Os macaco tão cada vez mais armado até os dente.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Homem, pelo amor de Deus, vai tomar um banho e se limpar. Tu tá fedendo que só gambá. (ROSA CANGACEIRA, PATATIVA E TROVOADA ENTRAM EM CENA. SE ABRAÇAM)
TROVOADA
Sebastião, já estamos preparados para seguir viagem até o Juazeiro.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
É verdade, Trovoada. Juazeiro… Antes vamos comer alguma coisa porque a minha barriga está de mal a pior.
ZÉ CATOLÉ
Sebastião, o senhor tem notícia de Anastácia? Ela escapuliu e não teve como a gente impedir.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Zé Catolé, Sebastião pediu por tudo que é sagrado pra gente não pronunciar o nome daquela senhora.
ZÉ CATOLÉ
Vocês sabem de alguma coisa?
ZEFINHA DO CANGAÇO
Fique calado, seu cagão. ( SAEM DE CENA. ENTRA EM CENA O PADRE CÍCERO DO JUAZEIRO)
PADRE CÍCERO
Sebastião do Chocalho vem pedir perdão a Deus por todas as atrocidades realizadas por ele e pelo seu bando. Espero que ele tenha a simplicidade de ouvir as pregações da santa igreja católica. (SE AJOELHA E PREGA SUA REZA EM SILÊNCIO. NUM DETERMINADO TEMPO ALGUÉM BATE À PORTA E FAZ UM COMUNICADO AO PADRE) Um telegrama do Governo do Estado: Padre Cícero, minhas saudações. Favor não receber o bandido Sebastião o maior terror do sertão na sua santa igreja... (NÃO TERMINA DE LER O TELEGRAMA) Era só o que faltava, eu numa idade dessa, impedir a chegada de qualquer ser humano na minha paróquia. É agora que vou receber Sebastião do Chocalho com honrarias e tudo que for preciso. Sebastião é vítima deste sistema capitalista e desumano que assola o país. (NOVAMENTE BATEM PALMAS, DESTA FEITA PARA ANUNCIAR A CHEGADA DE SEBASTIÃO DO CHOCALHO E SEU BANDO)
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Meu padim Padre Ciço do Juazeiro, nosso protetor, aqui estou meu padim. Tamos aqui pra receber a sua bênção.
PADRE CÍCERO
(COLOCA NO PESCOÇO DE SEBASTIÃO DO CHOCALHO UMA GRANDE MEDALHA) Esta medalha te livrará das caçadas da polícia e dos tiros e emboscadas. Ela está benzida e foi um presente da minha primeira peregrinação pelo Nordeste.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Oh, meu santo padre. Num tenho nem palavra pra agradecer tal honraria.
PADRE CÍCERO
Tome cuidado, meu filho. Seja justiceiro com aqueles menos favorecidos e num deixe a fama subir à cabeça. Ande sempre com Jesus Cristo...
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Com Jesus e com meu Padim Padre Ciço.
PADRE CÍCERO
E esse seu povo? Valentes e guerreiros.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Meu Padim Padre Ciço, o que é que eu faço para esquecer um grande amor do passado?
PADRE CÍCERO
Os amores são assim, Sebastião do Chocalho. Se vão e outros vem sem que a gente espere. Tenha calma, deixe o coração de lado e cuide mais da racionalidade. Todo este povo depende do seu bem estar.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Meu Padim Padre Ciço, quero aqui lhe apresentar o que restou do meu pessoal pro senhor colocar nas suas orações. (APRESENTANDO) Patativa, Patachoca, Zefinha, Zé Catolé, Trovoada, Mariquinha, Caga Sibito e Rosa Cangaceira. Os outros estão fora da igreja dando proteção e guarda a nosso povo.
PADRE CÍCERO
Faz bem, nem dentro da igreja nós não temos mais segurança. (TODOS PASSAM PELO PADRE E SÃO BENZIDOS POR ELE. AO TÉRMINO A LUZ VAI CAINDO E TODOS VÃO SAINDO DE CENA)
III – TERCEIRA CENA – A DISPUTA POR SEBASTIÃO DO CHOCALHO
FOCO NO CENTRO DO PALCO. ENCONTRA-SE SEBASTIÃO DO CHOCALHO E ROSA CANGACEIRA.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Rosinha, Rosinha, que vi desde pequititinha, tamanho de nada. Tenho um carinho da gota de grande por tu. Que história foi essa que tu foi chamada pelo pessoal do fazendeiro Bento Trindade pra trabalhar com ele?
ROSA CANGACEIRA
Meu padrinho, eu tinha proseado com o pessoal lá na serra. Tive que me disfarçar pra poder ir comprar carne e farinha no barracão do cunhado dele. Ele perguntou de onde eu tinha chegado aí menti, e ele meteu conversa pra cima deu e me chamou.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
E você, na certeza despistou, num foi?
ROSA CANGACEIRA
Eu disse que ia pensar, meu padrinho... Foi só pra ele parar com aquelas conversas.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Eu vou falar com o coronel Bento Trindade, colocar a par da situação.
ROSA CANGACEIRA
Meu padrinho, acho melhor não. O coronel tanto defende o senhor como tanto faz entregar o senhor pra justiça.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
É verdade, Rosinha. A gente num pode confiar em ninguém que tem riqueza. Eles tem medo quando a gente tá perto, quando tamo distante eles botam a gente na boca do lobo.
CAGA SIBITO
Sebastião do Chocalho. Mariquinha e Zefinha estão numa luta danada de grande que só o senhor tem como acabar.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Mas o que é que tu tá me dizendo, Caga Sibito?
CAGA SIBITO
É verdade, e tudo tem de ver com aquele converseiro com meu Padim Padre Ciço que o senhor teve. Tá uma ciumeira da gota, só o senhor pra dar fim aquela zoada.
ROSA CANGACEIRA
Desde que o padrinho veio do Juazeiro que as duas estão se estranhando.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Quero ver de pertinho e dá uma surra de pião roxo nessa briga. (SAEM DE CENA. ENTRAM EM CENA ZEFINHA DO CANGAÇO E MARIQUINHA DO CANGAÇO NO MAIOR BARRACO)
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Vocês ouviram o que foi que essa sirigaita disse da minha pessoa?
TROVOADA
Mariquinha, você está com ciúme, assuma. Zefinha é mais afeiçoada ao Patachoca. Não tem precisão dessa história.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Trovoada, minha amiga. Não é essa a história. Patachoca é o homem de Rosa Cangaceira. Os dois estão se entendendo. O fato é que essa briga que Mariquinha está querendo comigo, tem como pano de fundo o nome de Sebastião do Chocalho. (DÁ UMA GRANDE GAITADA)
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Não é isso, não. Sirigaita de uma figa. Você colocou isso na cabeça e não quer mais largar.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Largar, é minha filha? Largar o quê? Me diga se você é mulher que entrou no cangaço pra provar pro teu povo que era independente. Ficou calada, foi?
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Depois que a gente voltou de Juazeiro, você deu início a essa porcaria de disputa comigo o tempo todo. Não tem pra quê.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Por acaso sou eu? Imagina. Você é falsa, falsa de dá nó. Não acredito em você. Tu acha que Sebastião vai dar bola pra tu? Tu acha? Se ele tiver de ter uma pessoa do lado dele, essa pessoa sou eu.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Olha quem fala. Você se acha o máximo em termo de mulher. Se você fosse o que sempre fala, no mínimo Sebastião teria escolhido você e não a cangaceira Anastácia. Ouvisse bem?
ZEFINHA DO CANGAÇO
Certamente porque eu nunca fui de me exibir pra ele. Sempre fiquei na minha calada, ali no canto, mas nutrindo um amor da gota por ele. E hoje eu digo pra ele.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Você vai dizer o quê, sirigaita? (ROSA CANGACEIRA ENTRA EM CENA)
ROSA CANGACEIRA
Se vocês duas não parar com esse lenga-lenga, Sebastião vai dá uma surra de pião roxo nos pinhaço de vocês duas.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
É essa sirigaita, rapariga de cego que vive o tempo todinho se exibindo pra Sebastião.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Você pare de me chamar o tempo todo de sirigaita. Sirigaita é você e sua família. (NESTE MOMENTO AS DUAS PUXAM OS CABELOS UMA DA OUTRA E PARTEM PARA BRIGA)
CAGA SIBITO
(ENTRA EM CENA) Vocês ouviram as preces do Padim Padre Cícero que falou que a gente tem que ter união, paz e compreensão entre a gente?
ROSA CANGACEIRA
Já falei e elas não querem ouvir.
CAGA SIBITO
Zefinha, Mariquinha, vocês duas. Parem com essa briga sem cabimento e façam o favor de fazer as pazes.
ROSA CANGACEIRA
Mariquinha, faça o que Caga Sibito está pedindo. (AS DUAS NÃO DÃO OUVIDO ÀS SOLICITAÇÕES E CONTINUAM A BRIGA)
MARIQUINHA DO CANGAÇO
(GRITANDO) Sirigaita!
ZEFINHA DO CANGAÇO
(GRITANDO) Quenga dos seiscentos!
ROSA CANGACEIRA
Caga Sibito faça alguma coisa. Mariquinha vai terminar matando Zefinha. Chega de derramamento de sangue, chega.
CAGA SIBITO
E eu não sei porque Sebastião do Chocalho ainda não chegou.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
(GRITANDO) Sirigaita!
TROVOADA
Parece que o negócio é sério. Mariquinha, Zefinha, vocês duas parem. (GRITANDO) Chega de ciúme besta! (AS DUAS DÃO UM TEMPO, SE OLHAM DE CARA FEIA UMA PARA A OUTRA. ENTRA EM CENA SEBASTIÃO DO CHOCALHO)
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Me diga mesmo o que tá acontecendo por estas bandas? O que se sucede?
TROVOADA
Sebastião, já resolvi.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Já resolveu o quê? Posso saber?
ROSA CANGACEIRA
Essa briga inútil.
CAGA SIBITO
Mas essa não é a questão.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
E qual é a questão?
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Sebastião do Chocalho. Vou te contar a verdade. Desde que me vi nessa vida que botei o olho no senhor. Depois da saída da cangaceira Anastácia eu estou disposta a assumir contigo esse negócio.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Quer dizer que toda essa peleja é por causa deu? Num acredito. E tu, Zefinha? É pela mesma conversa que tu trava essa disputa, me diga?
ZEFINHA DO CANGAÇO
Sim, Sebastião. Essa quenga foi tomar banho comigo lá no riacho da gruta e se abriu. Eu não gostei e tive que me abrir.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Se abrir pra quem?
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Dizer que também gostava do senhor e que ia lutar pelo amor que sente por tu.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Bem que Caga Sibito falou, que a mulher que sucederia Anastácia estava bem perto deu. E num é só uma não, é logo duas.
ROSA CANGACEIRA
Por que meu padrinho num fica com as duas?
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Eu lá sou homem de me deitar com duas mulhé, nunca. Gosto de uma só, que me dê carinho, aconchego e segurança... é isso e pronto. Chega, tá resolvida a questão.
CAGA SIBITO
Só faltava Sebastião do Chocalho, que numa chocalhada só resolve qualquer questão.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Sebastião, o senhor não resolveu nada, só prejudicou meu pensamento.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Nessa eu tenho que concordar com Mariquinha. É verdade.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Vocês vão travar uma luta de faca e aquela que matar a outra será a minha mulher.
CANGACEIROS
Valha meu Padim Padre Ciço, vai ser um derramamento de sangue. (COMEÇA A BRIGA DE FACA ENTRE ZEFINHA DO CANGAÇO E MARIQUINHA DO CANGAÇO. OS CANGACEIROS FAZEM UMA GRANDE RODA)
ROSA CANGACEIRA
Sebastião do Chocalho, meu padrinho. Faz essa luta se acabar. Tive um sonho danado de ruim. A gente não pode perder nem Zefinha e nem Mariquinha.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Rosinha, foram elas que toparam, eu apenas cumpri o mandamento. Quem morrer vai ter um enterro de respeito pela valentia em não fugir da luta. (A BRIGA CONTINUA)
ZEFINHA DO CANGAÇO
(GRITANDO) Quenga dos seiscentos!
MARIQUINHA DO CANGAÇO
(GRITANDO) Sirigaita! (NESTE MOMENTO DERRUBA ZEFINHA E VAI ENFIAR A FACA NA GARGANTA E SEBASTIÃO DO CHOCALHO GRITA)
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Para! (MARIQUINHA NÃO MATA ZEFINHA E RECEBEM O COMANDO) Aquela que venceu será a minha mulhé, substituta de Anastácia e quem perdeu, já que não morreu, terá que fazer o nosso casamento. Alguém é contra essa proposta? (SILÊNCIO. SAEM DE CENA)
IV CENA – SOLDADOS PROCURAM SEBASTIÃO DO CHOCALHO
OS TRÊS SOLDADOS (VALERIANO, JOVENTINO E NAZÁRIO) ENTRAM PELA PLATEIA PROCURANDO POR SEBASTIÃO DO CHOCALHO E SEU BANDO. TODOS ESTÃO COM LANTERNA NAS MÃOS.
VALERIANO
Joventino, olhe essas marcas.
JOVENTINO
O que tu tá dizendo?
VALERIANO
Joventino, pelo amor de Deus. As marcas de sandália estão aqui na nossa frente.
JOVENTINO
Valeriano, meu rapaz, é verdade. Vamos investigar.
NAZÁRIO
Valeriano, eu sinto cheiro daquele bandido. Quando a gente encontrar com aquele bando, eu quero dá o primeiro balaço.
VALERIANO
Nazário, num é só você que tem esse prazer aí cravado no peito. Primeiro temos que anunciar o paradeiro do bando e voltar mais preparado.
NAZÁRIO
Joventino, Nazário vive dizendo que o maior troféu da vida dele é um dia poder dar fim a Sebastião do Chocalho.
VALERIANO
Sabe o que mais me bate uma raiva? É ver essa bandidagem toda chamando nós de macaco.
JOVENTINO
Valeriano, essas marcas não comprovam nada que são do bando de Sebastião do Chocalho.
VALERIANO
E tem mais cangaceiro desafiando a polícia, tem?
NAZÁRIO
Esse sertão virou uma peste. É cangaceiro com a gota serena. Muito deles com a proteção dos senhores de engenho, dos feitores, dos fazendeiros, é uma desgraça.
JOVENTINO
Vamos perguntar aquele romeiro se ele sabe de alguma coisa, se ele aponta algum caminho. (NA PLATEIA) O senhor por acaso já ouviu falar de um tal de Sebastião do Chocalho, o terror dessas terras, o bandoleiro mais temido dessas terras?
NAZÁRIO
Joventino, não espanta o cidadão, deixa ele se dirigir pra sua romaria. Não está vendo que ele não quer falar. É um direito dele.
VALERIANO
Deixe dessa pelenga, esse sujeito deve saber de alguma coisa.
JOVENTINO
Como é, você tem notícia dessa história? (MOSTRA A FOTO DE SEBASTIÃO) Você já viu esse infitete da gota serena alguma vez na sua vida? Ou sabe de alguém que sabe, diga.
VALERIANO
(CHAMANDO) Sebastião do Chocalho! Apareça filho de uma égua. Venha, chegue, vou arrancar suas tripa e comer assado feito preá.
JOVENTINO
Dê licença que vem uma madame toda vestida de roupa de rico, de verdade deve ser filha de algum fazendeiro daqui da região.
NAZÁRIO
A madame por acaso tem notícia de Sebastião do Chocalho? Não precisa ter medo da nossa volante. Somos do terceiro distrito de polícia do Nordeste. Se a madame sabe de alguma coisa, conta pra nós antes que seja tarde.
VALERIANO
Joventino, Nazário, vamos voltar pro distrito. Planejar melhor essa busca. O povo anda com medo, não vai abrir a boca. Em breve nós vamos ver o fim do terrível cangaço. (QUANDO ESTÃO EM PROCESSO DE RETIRADA, OUVEM-SE ALGUNS SONS DE CHOCALHO E OS SOLDADOS VOLTAM)
VALERIANO
Nazário, você ouviu?
JOVENTINO
Sim, a gente ouviu. Será que é ele?
NAZÁRIO
Deve de tá aqui por perto. Algum fazendeiro tá lhe dando guarida.
VALERIANO
Antes da gente ir pro Distrito Policial, acho que devemos dar uma passada na Fazenda São Bento. O coronel Bento Trindade deve de tá dando de proteção, não é possível.
NAZÁRIO
Vamos dar uma espiada. (VALERIANO SOBE NO PALCO E AO MESMO TEMPO VOLTA)
VALERIANO
Num é o que a gente tá pensando, não. Tem vaca e bode com força e cada um com seu chocalho. Vamos voltar pro Distrito.
NAZÁRIO
Esse chocalho é especial. Tem o som de Sebastião. Ele deve tá bem pertinho da gente. O bando tem uma oração, que quando faz a reza, ninguém consegue ver.
JOVENTINO
Concordo com Nazário.
NAZÁRIO
Vamos fazer a nossa jornada. Esse pessoal jamais vai dar o paradeiro do bando. O pessoal morre de medo. Sebastião é perverso, um cretino fugitivo da polícia que faz justiça pelas próprias mãos. Mas o dia dele e de todo bando está chegando ao fim.
VALERIANO
É isso que o governo e as forças policiais espera. Estamos aqui fazendo o nosso trabalho.
JOVENTINO
Nazário, cada dia que passa, quanto mais a gente diz que eles estão fracos, mas eles se fortalecem com a ajuda de alimento e munição desses fazendeiros canalhas.
VALERIANO
Precisamos voltar pro Distrito ou se não passar na Fazenda do Coronel Bento Trindade. (SAEM DE CENA PELA PLATEIA)
V – QUINTA CENA – O CASAMENTO DE SEBASTIÃO DO CHOCALHO
ZEFINHA DO CANGAÇO ENTRA EM CENA TRAJADA DE PADRE, APTA A FAZER O CASAMENTO DE SEBASTIÃO DO CHOCALHO E MARIQUINHA DO CANGAÇO.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Já pensou a descrença que paira no meu coração, perdida neste final de mundo, sem família, sem casa, sem amor. Minha esperança está chegando ao fim. E agora para terminar com meu juízo, me vejo aqui na condição de padre para fazer o casório de Sebastião e Mariquinha. Eu sinceramente merecia um final melhor. Mas, mesmo assim, agradeço a ele por ter me livrado da morte e ter me dado essa obrigação. (SE AJOELHA E FAZ UMA REZA. EM SEGUIDA ENTRA EM CENA CAGA SIBITO)
CAGA SIBITO
Zefinha do Cangaço, se tu nunca reparou, eu sempre tive uma queda por tu. Desde o primeiro dia que tu botou os pés no cangaço eu fiquei de olho. Só que você nunca me deu chance de provar. Tô dizendo agora porque eu estava fora e ouvi de você tudo isso. Se você quiser nós dois se casa e quando terminar tudo isso a gente se arriba e vamos construir uma casinha pra nós dois e um bocado de filhote pra gente criar.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Caga Sibito! É verdade tudo isso que você falou?
CAGA SIBITO
Tudo que lhe falei.
ZEFINHA DO CANGAÇO
E por que você nunca tinha falado?
CAGA SIBITO
Zefinha do Cangaço, quem eu amo, nem às paredes confesso.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Me dê um beijo! Se chegue, homem!
CAGA SIBITO
Agora não, eu vou me senti como tivesse beijado o meu Padim Padre Ciço.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Homem, a roupa é de padre, mas o fogo é de mulher.
CAGA SIBITO
(SE DIRIGE À ZEFINHA DO CANGAÇO E QUANDO ESTÃO PREPARADOS PARA O BEIJO, ENTRA EM CENA SEBASTIÃO DO CHOCALHO E MARIQUINHA DO CANGAÇO PARA O CASÓRIO. MARIQUINHA DO CANGAÇO VEM EM TRAJE DE NOIVA, COMO TAMBÉM SEBASTIÃO DO CHOCALHO, TRAJANDO AS VESTES DE NOIVO) Num foi nada do que o senhor viu.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
O que vocês querem é viver um pro outro, é isso?
ZEFINHA DO CANGAÇO
Sebastião, é isso. Caga Sibito se declarou e o seu amor foi tão forte que já lhe esqueci. E vou casar com ele.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Que coração da gota de falso. Nesse instante era só amor por Sebastião e agora virou pra cima de Caga Sibito.
ZEFINHA DO CANGAÇO
E você queria que eu vivesse a vida toda no caritó, sem ninguém e sem esperança? É isso que sempre você quis. Eu só quero é ser feliz e se vocês querem saber, eu também gostava de Caga Sibito e pronto.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Eita, gota. Pense no cara que se livrou de se casar contigo que ia levar uma cangaia tão grande que nem sei dizer o tamanho.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Conforme o combinado faça logo este casamento que estou doida pra fazer xodó com meu homem.
ZEFINHA DO CHOCALHO
Sebastião do Chocalho. Cadê Patativa, Trovoada, Zé Catolé e Rosa Cangaceira e Patachoca?
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
É verdade. Onde será que se meteu aqueles filhos de uma égua?
CAGA SIBITO
Da última vez que eu vi estavam jogando carta.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Eu também tava jogando e mandei eles se aprontarem.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Rosa Cangaceira e Patachoca são os padrinhos.
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Sebastião, meu amor. Dê ordem pra Zefinha fazer logo este casório. Estou que não aguento.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
É verdade, prossiga com o casório, não precisa de ter padrinho coisa nenhuma.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Sebastião Tenório da Silva, aceita Maria Pimentel da Silva como legítima esposa?
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
A minha resposta é sim.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Maria Pimentel da Silva, aceita Sebastião Tenório da Silva como seu legítimo esposo?
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Oxente, isso é pergunta que se faça. É lógico que sim.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Considerem como marido e mulher até que a morte os separe.
CANGACEIROS
Amém. (OS CANGACEIROS CAEM NUMA GRANDE FESTA E MARIQUINHA E SEBASTIÃO SAEM DE CENA. POR SUA VEZ CAGA SIBITO E ZEFINHA TAMBÉM SAEM DE CENA. AOS POUCOS AS LUZES VÃO CAINDO)
VI – SEXTA CENA – MORTE DOS CANGACEIROS - FINAL
OS CANGACEIROS ENTRANDO PELA PLATEIA NUMA MAIOR ALGAZARRA.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Ninguém corre... Aquele que tentar fugir morre.
CAGA SIBITO
Eu quero ver se nesta cidade tem homem mesmo!
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Perderam a voz, foi? Oh Sebastião, bora passar chumbo, bora?
CANGACEIROS
Bora...
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Um momento. Quem manda aqui sou eu. Aquele que desobedecer a lei eu boto é de cabeça pra baixo.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Isso é um bando de cabra frouxo.
CAGA SIBITO
É isso mesmo, Zefinha. (SUBINDO NO PALCO) Oh Sebastião, por que a gente não faz o que Mariquinha mandou passar é chumbo?
CANGACEIROS
Bora...
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Já falei. Quem manda aqui sou eu. Mas já vi que essa cidade tá sem ninguém mesmo. Eu sou Sebastião, o maior cangaceiro do sertão, e pra quem não me conhece eu sou mais ruim que o cão.
ZEFINHA DO CANGAÇO
Oh Sebastião, é bom a gente ir simbora. Os macacos já tá chegando.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
O que tu acha, Mariquinha?
MARIQUINHA DO CANGAÇO
Eu também acho Sebastião. É melhor a gente ir, até baixar a poeira.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
E tu, Caga Sibito?
CAGA SIBITO
Eu também acho Sebastião. É melhor a gente deixar baixar a poeira.
SEBASTIÃO DO CHOCALHO
Bora simbora. (VOLTAM) Mas antes vamos tirar um Bendito pro meu Padim Padre Ciço.
CANGACEIROS
Ô meu Padim Padre Ciço, protetor dos cangaceiros
Protejei nossos caminhos, dos macacos perdigueiros
Que a luz do teu perdão, venha trazer pro sertão
Proteção aos bandoleiros.
(AO TÉRMINO DO BENDITO, SEBASTIÃO COMANDA O GRUPO PARA SAIREM DE CENA) Bora simbora cambada. (SAEM DE CENA. CAGA SIBITO FICA SOZINHO)
CANGACEIROS
(CHAMANDO) Caga Sibito! (CAGA SIBITO FICA COM MEDO, QUANDO DE REPENTE NUMA GRANDE EMBOSCADA CAEM MORTOS TODOS OS CANGACEIROS NO PALCO. CAGA SIBITO ANDA POR TODOS OBSERVANDO AQUELA CENA. DE REPENTE UM GRANDE TIRO LHE ATINGE. EM SEGUINDA ENTRA PELA PLATEIA O PADRE CÍCERO)
PADRE CÍCERO
Cangaceiro não faz mais peregrinação
Porque o céu não aceita sua salvação
Sou Padre Cícero e vim de longe
Para acolher nossos irmãos.
CANGACEIROS
(SAEM DA POSTURA DE MORTE E COMEÇAM A CANTAR COM O PADRE CÍCERO) A gente vai pro céu...(REPETEM TRÊS VEZES. DÃO-SE AS MÃOS E APLAUDEM O PÚBLICO PRESENTE. FIM DO ESPETÁCULO
_______________________________________________________________________________________________________________________________________
Este texto teatral AUTO DOS CANGACEIROS, foi escrito inicialmente por Bento Júnior e em seguida com a colaboração de João de Barro. João Pessoa-PB, 22 de junho de 2024.