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Tesouro no Cemitério

Tesouro no Cemitério


Parte I


Era uma noite fria de outono, sem lua e com estrelas obscurecidas pelas nuvens, o vento sem qualquer discrição cortava as folhagens por que passava e impulsionava o que tocasse.
Matilde, em seu sofá, terminava de assistir a novela já pensando em ir se aninhar à sua gata, sua única companheira, percebeu um vulto à janela, mas ao se levantar e olhar, não era nada, pois nem a luz com sensor de presença tinha acendido.
Desligou a TV, foi à cozinha e tomou água, foi ao banheiro, ao passar novamente pela cozinha, sentiu-se observada, porém, ao olhar em volta, as cortinas estavam fechadas, e nada ou ninguém poderia estar ali.
Certamente, estou com sono! Minha imaginação está fantasiando o filme que assisti de tarde. -pensou Matilde.
Entrou para o quarto, deitou-se com sua gata, logo adormeceu.
Entre sonhos, sentiu-se acordar. Olhou em volta e não viu sua gata, a luz estava meio densa, talvez estivesse em meia fase, pensou. De repente, percebeu um movimento na sala que pensou ser a gata, mas o movimento era um pouco grande demais, logo a gata entrou correndo pelo quarto assustada e aninhou-se em seu colo.
Matilde levantou-se meio zonza, não enxergava bem, a luz era inferior à meia fase! Teria algum problema na rede? Ao caminhar pela sala, ouviu vozes, notou alguma mudança nos móveis... Não entedia o que estava acontecendo.
Notou um volume em seu sofá, ao dar a volta para ver o que era, assustou-se, quis gritar, mas não conseguiu. O homem curvado sobre seu cajado, deixava a vista somente sua boca e sua barba grisalha.
- Boa noite!
Paralisada, Matilde não conseguia nem ter pensamentos.
- Esta noite, sua sorte está prestes a mudar...
- Como entrou aqui? Vou chamar a polícia! - já pegando o telefone, mas não conseguia discar.
- Não adianta relutar, Matilde! Você me conhece. Já me viu outra vez há muito tempo...
- De novo, não! Fui dada como louca por meus pais, passei por internação, sofrimentos... De novo, não! Xô, vai embora! Vá de retro!
Uma gargalhada estridente soou sob o capuz; o homem curvo ergueu-se tirando seu capuz e abrindo sua capa, revelando-se um belo e forte homem.
- Não sou feio, nem mal. Você sofreu o que tinha de sofrer. Deveria ter mantido a fé, assim o sofrimento teria sido menor e mais breve.
Agora, vamos! Não tenho mais tempo para perder.
- Não vou a...
Abrindo sua capa, o homem envolveu Matilde, ergueu seu cajado, para em seguida batê-lo fortemente no chão. Um tubo de fogo se formou ao redor, por onde desapareceram.


Parte II

Eis que aportaram num campo, uma cruz enorme havia atrás de Matilde. Ao estabilizar sua visão, notou estar num cemitério.
- Morri, é isso? Por que não falou logo?! Mas cadê o enterro? A alma vem para o cemitério, mas o corpo fica em casa? Ou vai dizer que aqui é o inferno?
- Cala a boca!
Austero, o homem a guiava pelas ruas. Havia muitos homens e mulheres, alguns belos e fortes, outros feios, outros ainda aterrorizantes. Em alguns locais, Matilde percebeu que ele depositava moedas; para todos os que ele encontrava no caminho, ele fazia um movimento de cumprimento.
Chegaram em frente a um mausoléu, onde o homem bateu estranhamente, como se estivesse conduzindo um código. A porta se abriu, aparentemente, era um mausoléu comum, entraram, a porta se fechou e, então, surgiu um senhor de idade e voz rouca:
- Já estava na hora! - Abriu-lhes a porta que estava oculta pela própria sombra, uma escadaria se apresentou, tanto para baixo, como para cima.
"Como é possível" - Temendo o destino a que a  lhe reservava, contudo inferindo que sua rota era a descida, Matilde pôs o pé no primeiro degrau.
- Suba!
Um certo alívio acalmou seu coração, mas ainda estava tomada de terror.
 
Parte III

A escadaria era estreita, úmida, em forma de caracol, parecia infinita, era iluminada apenas pela ponta do cajado do homem.
Finalmente, atingiram o fim. Era um lugar iluminado pela lua cheia e por um céu estrelado,  havia muitas ruas de terra que se cruzavam e, nestes cruzamentos, sempre havia alguém parado. Ora eram homens fortes e imponentes, com finos trajes como o que a conduzia, ora eram mulheres com longos e chiques vestidos. Matilde notou que as cores neste mundo oscilavam mais entre o preto, o vermelho, com tons de dourado,  azul e roxo.
O homem que a conduzia, levou-a a um salão onde algumas pessoas, que como ela também estavam acompanhadas de homens ou mulheres como os que vira nos cruzamentos das longas ruas que percorrera. Neste momento, Matilde sentiu -se fraca e quase perdeu os sentidos. Um homem alto, forte e de rosto cadavérico surgiu à frente e bradou uma palavra que ela não entendeu, mas achou que fosse uma espécie de saudação já que houve resposta dos imponenentes homens e mulheres.
Por fim, começou:
-Vocês,  matérias da Terra, foram trazidos aqui por seus guardiões que habitam este reino! Este é um momento muito importante para o mundo em que habitam!
As pessoas ouviam amendrotadas o rosto cadavérico falar.
-Aqui não há nada para se temer! Ouçam! Vocês foram escolhidos para uma missão. Uma missão muito importante que dependerá da fé de vocês para se concretizar. A missão de serem médiuns na terra!
Cada um de vocês será direcionado à energia de maior afinidade. Depois, em terra, deverão trabalhar com essa energia dando sua voz e seus movimentos ao espírito que lhe orientará. Deverão seguir seus comandos para que a missão tenha sucesso!


Matilde quase levantou a mão se não fosse a interrupção de seu guardião.


Vocês,  novos médiuns, devem estar se perguntando o que acontecerá caso recusem a missão. Eu lhes digo: não contarão mais com a proteção que têm, ficarão na terra à mercê da sorte e do acaso.
É um novo tempo, tempo de levarmos à Terra a luz e o conhecimento das coisas da alma. É o tempo de abrirmos as portas para a espiritualidade atuar. Dependemos de vocês.


Com o fim do pronunciamento, o homem de rosto cadavérico se afastou. Os guardiões conduziram as pessoas a caminhos distintos.
Matilde fora levada a uma fila enorme e de lá pode notar que algumas pessoas saiam com uma blusa branca ou com uma blusa preta. Sentia seu coração bater a mil conforme a fila andava.


Parte IV

Chegou a vez de Matilde entrar na sala. Havia uma bela mulher de um nobre vestido preto que olhou amorosamente para Matilde e pediu que se aproximasse.
Tímida e com medo, ela foi se aproximando. A mulher então deu-lhe uma blusa branca para vestir. E disse-lhe:
-Matilde, você foi escolhida por nós para vestir esta blusa! A blusa branca significa que você deverá retornar à Terra para trabalhar com orações e passes para curar os enfermos da alma e do corpo.
Surpresa, Matilde se desarmou e sorriu agradecida, deixando lágrimas escorrerem pelo seu rosto.  Abraçou a dama e, instintivamente, beijou-lhe as mãos. Olhou então para o seu guardião, que lhe sorriu, e o agradeceu:
-Eu sempre quis poder fazer o que minha avó fazia. Sempre quis ser luz para os corações desesperados. Poderia ter me dito isso antes, eu não teria sofrido com o medo.
-Agora, o que importa é que você recebeu seu tesouro. Na Terra, você será guiada por mim às pessoas que hoje receberam a blusa branca para formarem um grupo e montarem um espaço para as curas. Nós guardiões iremos guiá-los ao encontro das forças espirituais e do seguimento do trabalho.
Agradecida, Matilde o abraçou e beijou-lhe a mão. Ele, então, a envolveu com sua capa e, de repente, Matilde estava novamente à sala de sua casa.
Marília Francisco
Enviado por Marília Francisco em 18/10/2019
Código do texto: T6772629
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Sobre a autora
Marília Francisco
Viamão - Rio Grande do Sul - Brasil, 34 anos
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Marília Francisco