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O ALMOÇO DE SEU BENÉ


   "Hermínia, bota meu almoço qu'eu tô já chegando!" - grita Eugênia como a repetir a frase de alguém que vai se assentar a mesa para a refeição. Ela resmunga, se exalta e responde ao seu próprio apelo: "Peraí, já vou, seu Bené, tenha calma, já tô indo!" Na sala Hermínia a tudo observa, calada e já acostumada com essa cena, esboça um acanhado sorriso, bem discreto, para não ser percebido pela antiga empregada da fazenda, isso poderia gerar uma baita confusão entre ambas. Minutos depois todos estão sentados almoçando, menos seu Bené, que para Eugênia está sempre se atrasando apesar de gritar e ter pressa para comer. O almoço é servido geralmente ao meio dia em ponto e sentados a mesa estão Hermínia e os dois filhos, um casal, em seguida senta-se Eugênia, começa a conversar, mexe com um, mexe com outro, ri sem motivo e inicia sua refeição sem mais se lembrar de seu Bené, que na mesa não se encontra.
   Hermínia foi casada com Benedito, dono da propriedade onde hoje vive com os dois filhos, Eugênia trabalha com eles desde mocinha, quando veio pedir emprego, ficou tomando conta das crianças e sendo responsável pelo preparo das refeições por se mostrar boa cozinheira, ganhando assim a confiança dos patrões. Bené, como era mais conhecido seu Benedito, costumava gritar para a esposa antes de chegar a mesa para o almoço, exigia sua refeição antes mesmo de chegar na sala, sendo imediatamente servido por Eugênia, que repetia sua frase em tom de brincadeira, fazia isso por ter ganho a confiança dele e da esposa, era considerada como uma pessoa da família, afinal ajudou a criar os meninos desde criancinhas e hoje adultos são gratos a ela, tornou-se uma espécie de segunda mãe.
   Há cerca de dois anos Bené faleceu vítima de um derrame, foi uma consternação geral, inexplicavelmente quem mais sentiu a sua morte foi a velha empregada, que precisou ser socorrida ficando internada por vários dias, nem a esposa dele, Hermínia, sofreu tanto assim, sentiu sim a partida do marido, mas Eugênia foi acometida de um desespero por gostar muito do seu patrão que lhe ajudou em todas as situações. Ela não conseguiu acreditar que ele tivesse morrido, sempre dizia ouvir os seus gritos exigindo que colocasse na mesa o seu almoço e há dois anos ela faz isso e não admite que duvidem dela, afirma que ele está vivo e somente está atrasado.
Moacir Rodrigues
Enviado por Moacir Rodrigues em 04/10/2019
Código do texto: T6761400
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Sobre o autor
Moacir Rodrigues
Recife - Pernambuco - Brasil, 70 anos
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Moacir Rodrigues