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O FIM DO MUNDO

Sempre tive sonhos estranhos. Exceto por aquela noite que não tive sonho algum. Como um presságio que se manifestava por uma interrupção involuntária, senti que não sonhar significava algo, mesmo que não soubesse ao certo o que significava. Fiquei alguns momentos encarando a página em branco do meu diário dos sonhos no qual diligentemente faço minhas anotações, menos por aquele dia. Nada escrevi. Sai do quarto e fui direto para a cozinha, mas parei em pé na sala e observei por uns poucos instantes uma cena: tudo parecia estranhamente natural aos meus olhos, exceto pela incomum e nunca antes sentida sensação de que algo estava fora de seu lugar.
A sala de estar estava parada como se espera desse ambiente. O sofá cinza com suas seis almofadas brancas com listras azuis e cinza. As paredes brancas com os dois quadros de arte abstrata. O criado mudo ao lado do sofá com um jarro de vidro azul e nele rosas brancas. Atrás do sofá a estante suspensa com livros e quinquilharias que me agradavam acumular. A televisão sobre mesinha e desligada. O vaso do comigo-ninguém pode calado ao lado do abajur igualmente calado. Pensei comigo mesmo: “Céus, tudo está exatamente onde deveria estar, nenhuma bagunça por menor que seja, tudo exatamente em seu devido lugar”. Se eu pudesse apostar em um dia em que as profecias sobre o fim do mundo fossem se realizar, com certeza aquele era o dia ideal.
Depois de atravessar por aquela sala assustadora, segui rente a minha cafeteira que parecia estar me aguardando, quase que me dando um espontâneo bom dia. Passei um café bem forte que perfumou a casa com seu aroma e já cismado demais resolvi ligar o rádio para desparecer um pouco e tudo que ouvi foi um pouco de mpb e notícias boas, nenhuma tragédia, nenhum acidente aéreo, nenhum tsunami, terremoto ou incêndio, nada. Resolvi ligar para Verônica, minha melhor amiga:
— Acordou cedo também? Noite louca ontem. Nossa, hoje fez um sol lindo. Bem que podia dar praia. Depois quem sabe a gente comia um camarão naqueles quiosques à beira mar. Seria adorável.
— Veronica...
— Sim?
— Tá acontecendo algo.
— Como assim? Tipo o que?
— Não sei o que é. Mas sinto em mim que este dia não é normal.
— Cara, que loucura. Por que você está dizendo isso?
— Hoje é um dia peculiar demais. Tudo parece perfeitamente encaixado como numa história de fantasia em que cada coisa é ordenamento posta em seu lugar e sem imperfeições.
— Amigo, sério mesmo. Se quiser pegar a praia, nós vamos. Mas não são nem dez horas da manhã ainda para uma doze pesada de filosofia existencialistas. Não estou com saco pra isso não. Nem bêbada.
— Você não entende...
— Amigo, você está na linha ainda? Me responde?
— Te vejo ao meio-dia no posto doze.
— Ok...
Desliguei o telefone antes que ela emendasse mais uma frase previsivelmente típica dela. Pois nem a Verônica poderia ser tão ela em uma manhã de sol e de perfeição cósmica.
O dia correu normalmente de tal estranheza inexplicável e pontual. Pontualidade de um lorde inglês. O carteiro veio, o lixeiro veio, a vizinha desagradável que sempre me roubava horas tricotando fofocas, essa não veio. E cada avanço que o ponteiro do relógio dava, mas ansioso eu me tornava. Até que deu a hora em que marcara com Verônica e eu parti com minha bicicleta para à praia.
Na praia, eu a encontrei flertando com um moreno alto de pele bronzeada e que parecia ter saído de uma revista erótica. Não quis atrapalhar Verônica, acenei para ela de longe apenas para que ela me visse chegar. Guardei a bicicleta, pedi dois guarda sóis e uma cerveja e me dirigi para a beira do mar. A praia não estava lotada como de costume, o que era muito incomum para aquele domingo de sol. Pensei aonde estaria a multidão de pessoas que se aglutinavam e que sempre me incomodavam com seus assuntos do cotidiano e infinitas banalidade que se repetiam. Pensei onde estaria a senhorinha que vendia chá mate e limonada. Mas só apareceu o asqueroso vendedor de queijo, com seu queijo tão asqueroso quanto, ele sempre enganava os seus clientes gringos e como um gatuno roubava-lhes os dólares que podia.
— Cheguei, meu amorzinho, sentiu minha falta?
— Nem um pouquinho. Estava maravilhosamente bem fritando no sol sem a sua sombra.
— Ai, que coisa mais horrível de se dizer para a sua melhor amiga...
— E aí, hoje tem?
— Tem o quê? Sexo?
— Claro.
— Não. Infelizmente para mim não. Ele é gay. Mas felizmente para você, eu peguei o telefone dele.
— Não faz meu tipo.
— Na sua posição de orca super encalhada da baía de Guanabara, qualquer homem faz o seu tipo e você não tem o menor direito de escolher. Mais burocrático do que você somente o sistema jurídico brasileiro.
— Passo.
— Ele é lindo e fala castelhano.
— Ha Ha Ha! Nem se ele falasse a língua dos anjos.
— Você precisa de uma mudança de vida, deixa para lá um pouco essa gente barbuda e ranzinza que você anda. Nada de Dostoievsky, Nietzsche e nem Tolstói. Francamente, eu mal consigo pronunciar o nome dos seus amigos fantasmagóricos da Rússia.
— Nietzsche é alemão.
— Ninguém se importa. É barbudo e não transava. Péssima companhia e conselheiro. Você tem que andar com gente viva. Pegar mais sol. Sair mais a noite, antes que vida passe e você deixei sua barba crescer e vire o mago da gruta do horto.
— Você não vale nada, Verônica!
— Obrigada, querido!
Verônica avistou dois surfistas que olhavam as ondas do mar e rapidamente começou a fazer o seu ritual sedutor do topless com objetivos de acasalamento. Quase que automaticamente, eu tirei um livro da minha mochila, mas cessei assim que veio à mente o pensamento de um velho barbudo e ranzinza escondido na gruta do horto. Decidi fazer diferente, me levantei e sai correndo em direção ao mar.
— Vai borboletinha, o mundo é seu!
— Vai transar, garota. Me deixa!
— Olha que vou mesmo...
Mergulhei na água gelada com toda a coragem do meu coração. Fui tão fundo que encontrei a calmaria que se esconde por baixo das ondas furiosas e que se quebram na superfície. Abri meus olhos e vi a luz do sol penetrar pelo espelho d’água e iluminar uma estrela do mar que estava bem lá no fundo, como uma solitária estrela de um céu submarino, um céu nas profundezas de um oceano. Emergi à superfície, distante do ponto onde as ondas se arrebentam e flutuei como uma nau errante de braços e pernas abertas olhando para o céu tingido de azul celeste com suas amorfas nuvens brancas que se pareciam com a espuma do mar em um céu-marinho. Senti-me livre e solitário como aquela estrela do mar. Mais livre do que solitário certamente.
Quando me cansei, sai da água sentindo o gosto salubre em meus lábios e tendo a certeza em mim de que eu também era o sal da terra. Sentei-me na areia e assisti o sol cruzar verticalmente como o seu espetáculo em direção ao horizonte que o guardaria. Então Verônica veio ao meu encontro com um copo de cerveja em suas mãos e me ofereceu. Ela já estava bêbada e me abraçou. Brindamos juntos a vida e vimos o mais belo por do sol que já se teve notícia. Do profundo anil do anoitecer o céu se descompôs em tonalidade que passeavam pelo rose e pelo escarlate até chegar no dourado solar. No fim daquele dia incrível, eu senti-me livre dos pesares que até ali carreguei para, por fim, lavá-los de minha pela nas águas salgadas.
O dia terminou. A lua subiu em um tom vermelho no céu. O vento soprou forte e decidimos por bem ir para casa. Pegamos nossas bicicletas e fomos pedalamos juntos pela avenida até que o vento silvou mais forte e um tremor pode ser sentido como com um estrondo arrebatador que aparentemente vinha de todas as direções.
— O que foi isso?
— Não sei.
A terra tremeu como se furiosa estivesse. E numa questão de segundo um terrível pânico se instalou pelas ruas. As pessoas corriam desesperadas dos tremores que ficavam cada vez mais violentos.
— Vamos, Verônica precisamos sair daqui...
— Mas para onde vamos?
— Só pedale. Vem comigo.
Pedalamos até onde pudemos. Eis que abriu uma venda na terra que ruiu as ruas como veias que se abriam para tragar a todos. Verônica se precipitou em uma fenda mais saltou da bicicleta e se agarrou na beira de calçada que restara. Eu retornei para socorrê-la e a puxei do buraco que tinha em seu fundo raízes que pareciam ser de uma gigantesca árvore.
— Precisamos ir agora!
Corremos desesperados em meio a uma multidão de outros desesperados que não sabiam para onde ir. Edifícios inteiros vinham à baixo com os tremores e caos consumiu todas as direções para onde os olhos se virassem. Verônica estava desfalecendo por muito cansaço. Eu a arrastei até que vimos um homem que dizia:
— Corram para a árvore, segurem-se em seus galhos.
E sobre o pico da Tijuca, eu vi uma gigantesca árvore que ascendia para além das nuvens e alcançava as estrelas do céu. Neste momento, uivos de lobos ressoavam por toda a cidade maravilhosa, e via-se bizarras criaturas tenebrosas, pareciam-se com lobos negros deformados e brotavam das raízes mais profunda daquela árvore que se estendia por muitos quarteirões. As criaturas corriam por todas as ruas e devoravam sem piedade aqueles que encontravam em seu caminho. Eu senti medo inigualável. Ao mesmo tempo em que desejava sobreviver aquele terror que se espalhava como uma peste maligna.
— O que vamos fazer? Para onde vamos?
— Temos que subir a trilha.
Puxei Verônica por toda a trilha do pico da tijuca até que do topo vimos a cidade sucumbir em chamas e ruir para baixo da terra. As poucas pessoas que tiveram a sorte de subir a trilha olhavam tudo aquilo incrédulas com o pavor da terrível visão.
— Este é o fim do mundo?
Eu não tive palavras. Até que mais uma vez se pode ouvir e retumbar de uma trombeta que estremeceu o céu como se este fosse uma redoma de vidro que se rachara sobre nós. E acima das estrelas eis que desceu incessante uma colossal mão direita que sem hesitar agarrou o caule da grande árvore.
— Segurem-se!
Então a mão arrancou a árvore da terra, como uma muda é tirada de um vaso e elevou-nos para cima das nuvens junto da árvore. Muitos caíram na terra que não suportou o arrancar da árvore e implodiu-se em si mesma. Verônica e eu estávamos agarrados aos galhos que subiam junto da árvore para céu sem parar, mas os braços de verônica não suportaram o esforço e ela caiu diante de meus olhos. Eu sequer pude expressar uma só palavra. E árvore subiu para céu e acima das estrelas de onde tudo parecia imensamente minúsculo. E terra acabou, o mar acabou, a vida acabou. Restando tão só aqueles que foram arrebatados em seus galhos para as alturas insoldáveis do infinito.
KLEBER BRAGA PEREIRA
Enviado por KLEBER BRAGA PEREIRA em 26/06/2019
Reeditado em 26/06/2019
Código do texto: T6682018
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
KLEBER BRAGA PEREIRA
Magé - Rio de Janeiro - Brasil, 28 anos
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