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Densidade parte 2

Estava eu em um belo sono, tão leve quanto o sonho do sono da vida. Eu me pegava sorrindo de vez em quando, por doces lembranças que faziam questão de vagar sem rumo sobre minha mente adormecida. Vinham lembranças de pouco tempo até, das histórias que eu contava com amigos meu, piadas, histórias do começo dos tempos... Belas de se ouvir e contar. Era essa a visão que eu tinha, e sorria. Eu deitado estava, no sofá da sala. A noite chegou forte, mais uma vez. Aquela brisa pré chuva, entrava com tudo, e tocava meu rosto.

Em um desses toques da brisa além, acordei de repente, embora dormisse tranquilo, tão calmamente. Toda minha face estava gelada, senti um mal estar até. "Foi um pesadelo que me fez abrir os olhos! Uma ilusão vívida, um pesadelo bem sólido" Pensei eu. Mas durou o necessário para que eu lembrasse, e agora me indagasse qual o significado, pois eu sentia que havia algum, talvez agora, perdido em algum detalhe. Pois lembro bem de cada cena: Me encontrava de repente ao lado da parede do que seria uma sala, em uma casa bem destruída, deteriorada. Portas e janelas ainda existiam, mas todas quebradas, e o cupim comia. Dentro da casa, o mato começava a invadir de repente, reivindicando o que é seu. Não sei porquê, mas não fui enraizado também. Pelo menos não ainda. Eu já ia começar a explorar aquele terreno, achar uma saída, quando fui interrompido. Um homem magro e alto, de aspecto cinzento, ou qualquer cor que remetesse a obscuridade, passou por uma porta da lateral, contornando a casa. A expressão de sua face era desespero, e seus olhos repassavam uma aguda perdição. E ele parecia tremer de horror e medo, de algo que certamente lhe perseguia, e agora deu um pequeno intervalo de tempo.

Ele entrava pela porta da frente numa grande rapidez, e me pedia ajuda, falando que sua alma estava perdida, e que achava ser o próprio desespero, mas que sonhava com sua noiva, chamada paz. "Me ajude, por favor, eu preciso encontrar minha amada! Todos os outros estão ao meu lado, mas não conseguem enxergar o que sou, mas você consegue!" Nesse instante senti um frio correndo pela minha espinha até a nuca, e quis correr dalí. Mas enquanto fui caminhando para os fundos da casa, por pouco não pisei em um corpo. Olhei, e em cima do mato que havia tomado o chão, o corpo desse mesmo homem restava, desmaiado ou morto, coberto de cicatrizes, que só havia nesse seu suposto cadáver. Mas era ele, disso tenho certeza. "Aonde vai rapaz? Eu só quero que me mostre uma saída! O que foi? O que você tá vendo no chão?" Assim foi o pesadelo e abri os olhos. Não pude nem responder mais nada e tentar ajudar aquela alma atormentada. No meu devaneio, era por volta de meio dia, e acordei achando que era mesmo. Mas não. O dia foi embora, e já fazia horas. Será que contraí aquela velha agonia, de não distinguir sonhos da realidade? Por um lado agora, me sentia relaxado. Por outro, angustiado.

Sendo bem sincero, já fazia uns 3 dias que aquela angústia que qualquer psiquiatra consideraria aguda, me acometia, de um modo que considero bem silenciosa e furtiva. Talvez ela tivesse ido dar um passeio no frio distante, mas soube que acordei, e agora me absorve novamente por dentro, nesse instante.
Nesse momento, olhei pela janela, e chovia fraco, acabara de começar, creio eu. O céu estava completamente fechado, em tom escuro carvalho. Certamente uma forte chuva iria já cair. As primeiras gotas escorriam seguidas pela outra, na janela de vidro esverdeado semiaberta bem alí na minha frente.
"-Sinto meu corpo tão pesado, mas devo levantar e fechar a janela, ou a sala toda vai virar uma poça d'água, chão encharcado." Meus pés tocaram o chão e senti um arrepio. Que frio. Mas também não é pra menos, é o auge do inverno. As janelas agora fechadas, e a chuva estrala ao lado de fora, e eu observo com as duas mãos, que agora embaçam o vidro. Me sinto feliz e agraciado por um instante, pois hoje cedo eu pude ver novamente, uma criança recitando seu tão doce sonho. Ela olhava para mim e falava, fazendo formas com suas mãozinhas. Uma lágrima feliz pôde escorrer na minha face. Uma criança feliz. E agora me traz um sorriso de lado, olhando lá fora.

"-Não imaginava que ao levantar, me viria essa torrente de pensamentos". Pois agora, tudo que vinha em minha mente, era algo doloroso do passado. Foi a lembrança viva, da última vez que vi minha amada. Ah meu Deus! Ah se por um instante eu soubesse que seria a última vez! Se soubéssemos... teria sido como a primeira, porém com uma pitada de tragédia. Teria sido nosso amor tão lindo, a ponto de despertar uma inveja a alguma entidade celestial? O pico da igreja, aos pés de onde a gente tanto se amou, caiu hoje de manhã... e foi antes mesmo de o sol nascer, antes mesmo dos primeiros pássaros do dia, começarem a cantar. Ficou totalmente em ruínas, destruído. Se eu soubesse mesmo disso, antes de ter descido as escadas de sua residência, e antes de ter saído pelo portão da mesma, teria parado e fixado o olhar no chão. Fixado. Ela que vinha logo atrás, no ato seguinte de abrir o portão, certamente teria parado também e perguntado o que houve, o que aconteceu para eu assumir tal postura tão subitamente. Como uma cena que só houve o roteiro, mas nunca foi interpretada.

Haveria existido algum intérprete que imaginasse tal cena? "-Eu... só gostaria de te falar uma coisa Anne... Essa é a última vez que nos vemos." Aqui, meu olhar iria lentamente e tristonho em busca do seu. Toda esse desenrrolar de imagens, se passava agora pela minha mente. O perfume dela, o calor de seu corpo, eu sentia vasculhar a minha mente de forma extremamente intensa. "-Porquê você tá me falando isso? E todas as vezes que sonhávamos com o que víamos de belo? " "-Eu não sei bem a razão, me perdoa. Mas... é a última vez meu amor. Me perdoa pelo erros que cometi... mas nosso verdadeiro amor, curará a intensa dor. Talvez daqui uns dias, e você entenderá a razão disso." E nisso, desse o último abraço, o último beijo, o último olhar profundo no mesmo olhar, como da primeira vez. Talvez ela me segurasse forte, sem querer me deixar ir. Talvez a gente chorasse juntos como nunca antes. Mas tudo isso que não fiz, só me deixou partir, e partir. Tudo que a gente havia vivido e sonhado, em questão de minutos foi dizimado, estilhaçado. Agora era somente eu, dentro do ônibus de volta, olhando o horizonte bem longe, vendo o por do Sol ainda mais distante.

A chuva lá fora, fica cada vez mais forte. Mal desperto desse último pensamento, e uma onda de ansiedade chega forte, correndo pelas minhas veias. Me dirijo até a cozinha, nos fundos. Olho pela pequena veneziana, e vejo alí a casa que até pouco tempo estava vazia, esperando alguém alugar. Em um quartinho alí, com a porta entreaberta, era possível ver. Várias velas pretas e brancas ao chão. A frente da porta e à esquerda da minha perspectiva, havia uma espécie de santuário, onde jaziam alí mais velas acesas, e uma taça com líquido vermelho dentro. Deduzi ser sangue... não me importava quanto a isso. Mas fiquei alí observando sem entender o que era. Achei bonito aquele cenário e senti-me acalmando, novamente. Talvez houvesse alguma entidade alí no meio do ofuscado das velas, e desejou que eu a visse. Nos sentíamos só. O relógio marcava o ponto alto da madrugada.

Em cima da mesa alí na sala, jazem algumas cartelas de comprimidos do quais tomo frequentente por necessidade, e um pequeno frasco com laudáno. Espero não está em um círculo vicioso dessas drogas, visto que já absorvi horríveis vícios em minha vida. Pois dessas cartelas tomo apenas um, e duas doses de laudáno. Que gosto estranho... mas que me aquece e alivia possíveis dores. Sento novamente ao sofá... E penso: como terá sido a dores cortantes dos grandes poetas? E todas as decepções amargas, dos inúmeros profetas? Talvez agora eu esteja provando um pouco do mesmo Fel, sem nem dar-me conta. Lembro tanto das palavras de Lispector "estou cansada, me sinto cansada, e triste também... não sei bem pelo o quê, só sei que sinto."
Mas agora, acho mesmo que vou lá fora me molhar nessa chuva, já faz algum pedaço que me deu essa vontade, embora esteja muito frio e já seja bem tarde.

Desço até a rua, e fico alí, em frente minha casa. Algumas árvores alí na frente me privilegiam com um sombreado da noite, com o som da chuva que cai forte sobre todas elas e com o vento que as balançam para os lados, numa sincronia reconfortante. Observo, e vou caminhando pela rua, sentindo o arrepiar frenético em meu corpo agora trêmulo. Mas não voltarei para casa... Pelo menos não agora. Estou sem sono, não consigo mesmo dormir. Lembro agora, do que mencionou Allan Poe, em seus últimos tempos de vida "Tais considerações meramente mundanas, carecem do poder de me deprimir... Não, minha tristeza é inexplicável, e isto me entristece mais ainda. Estou repleto de tenebrosos pressentimentos. Nada me anima, nada me consola. Minha vida parece feita para se perder; o futuro me parece um terreno baldio pavoroso, mas penso em seguir lutando por ter 'esperança contra toda esperança' " É, talvez exista mesmo um grau de melancolia que não haja ao certo uma explicação... Toda uma via-láctea de sentimentos, que entram em um doloroso conflito, jogando-nos em um labirinto cósmico. Tão medonhamente angustiante, como a queda de Lúcifer.  Mas não entrarei em casa! Ficarei aqui sobre tais devaneios a fim de achar-me. E os mesmos que me assolam, não encontrem-me mais. Também fico aqui, ao murmúrio do vento e aos gélidos litros da chuva, enquanto ela cai, e cai sobre mim. Em companhia da noite e do frio, e da natureza que não me julga, jamais.
Artur rocha
Enviado por Artur rocha em 22/04/2019
Reeditado em 23/04/2019
Código do texto: T6629977
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Sobre o autor
Artur rocha
Fortaleza - Ceará - Brasil, 23 anos
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Artur rocha