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UM AMOR ESCONDIDO LÁ NO PASSADO


   Abri a porta bem devagar, meus pensamentos estavam um pouco confusos, não estava conseguindo raciocinar bem, os olhos lacrimejavam, eu tinha a impressão de que não estava vivendo o presente, sentia uma espécie de angústia, uma coisa inexplicável. Adentrei a sala do meu pequeno apartamento, olhei aquele ambiente silencioso e mal arrumado, pois não tivera tempo suficiente para deixá-lo organizado como sempre fazia, antes de sair para o trabalho, nessa sexta-feira, tinha muito que fazer no escritório a pedido do chefe, alguns documentos para serem preparados, outros para serem arquivados, coisas que fugiam da rotina. Tudo fôra devidamente feito de acordo com o que me foi solicitado e agora a cabeça estava a mil, o corpo cansado e a mente pior ainda, principalmente depois do que vira na saída do escritório.
   Eram quase cinco e meia da tarde, larguei do trabalho visivelmente cansado, resolvi então fazer o que nunca havia feito nesses dois anos de separação conjugal, parar num bar, desses que colocam mesas e cadeiras no meio da rua nos fins de semana e pedir uma cerveja para refrescar a cabeça. O garçom me serviu e comecei a sorver a bebida com gosto. Os primeiros goles me aliviaram, esqueci até o dia corrido no escritório e me pus a fitar o horizonte a minha frente, eu via uma estrada de barro e algumas pessoas indo e vindo, até aí tudo normal. O que me chamou a atenção foi uma figura feminina que veio em minha direção e sentou-se em uma mesa próxima da minha, me olhou de uma forma estranha e manuseou alguns objetos que estavam em sua bolsa. Fez um rápido retoque de batom nos lábios e alí permaneceu como se estivesse a espera de alguém. Furtivamente me olhava e disfarçava, talvez não quisesse ser notada por mim. Pediu um suco e bebeu bem devagar. A estrada que eu vira antes, com pessoas nela transitando, não mais vi e também não compreendi o porquê do sumiço, sinceramente, nunca tinha visto essa estrada nesse local, também a minha mente não me ajudara na hora para me fazer entender o que acontecia. Pedi mais uma cerveja e tomei devagar, sempre olhando a mulher que estava a minha frente, nenhuma conversa houve entre nós além dos olhares, minha cabeça então começou a captar impressões do passado, lembranças que se ativaram completamente em minha mente. Eu conhecia aquela mulher, foi o que deduzi, era como se o passado voltasse abruptamente e me envolvesse em emoções que vivi em épocas passadas, tudo estava claro diante de mim, essa criatura me fez sentir um imenso amor por ela, lembrava muito bem disso, mas o destino quiz nos separar e nunca mais a vi. Agora essa mulher tão desejada no passado surge assim de repente e me traz recordações agradáveis. Eu senti uma imensa vontade de ir até sua mesa, conversar com ela, abraçá-la, até tentar beijá-la, mas minhas pernas não ajudavam, pois fiquei como paralisado, preso num presente e vivenciando o passado. Foi uma coisa fantástica, maravilhosa, era tudo que eu queria, essa mulher representava tudo na minha vida e eu alí sem coragem de abordá-la e desfrutar de um amor que ficou guardado por longos anos. Eu não estava agüentando mais aquela angústia, queria ir até ela, falar-lhe alguma coisa, dizer o quanto a amava e transformar esse passado num presente que começaria a ser vivido com intensidade.
   Na minha mesa tinham três garrafas de cerveja vazias, mas eu me encontrava sóbrio, pensativo e absorto em lembranças que estavam bem vivas em minha mente, nada era mais importante para mim nesse momento do que aquela presença feminina na minha frente, bem perto de mim. Lembrei de cada detalhe de nossas vidas, dos nossos momentos de alegrias, dos passeios ao luar em um parque onde íamos com freqüência, tudo era magia, tudo era perfeito, mas o tempo, não sei como, se encarregou de mudar tudo e nos separou. Estava tão distraído e anestesiado fisicamente, sem poder me levantar, talvez por uma força estranha que me segurava alí, que uma névoa se formou em minha frente e nada mais vi. Dissipando-se a névoa vi somente a mesa vazia, o que me deixou sem saber o que pensar.
   Sentei no sofá e procurei relaxar um pouco, estava cansado e precisava de repouso. As lembranças se embaralharam em minha mente e eu já não sabia mais se tudo que imaginei era verdade ou não, talvez estivesse tendo alucinações.

  
Moacir Rodrigues
Enviado por Moacir Rodrigues em 18/04/2019
Código do texto: T6626816
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Sobre o autor
Moacir Rodrigues
Recife - Pernambuco - Brasil, 70 anos
1812 textos (34356 leituras)
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Moacir Rodrigues