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O MENINO DA FAZENDA

      Nada foi e nunca será mais bonito do que as alegres alvoradas que da janela da casa da fazenda de meu pai eu via em todas as manhãs do pantanal de Mato Grosso. O céu, sempre pontilhado de brancas nuvens, parecia ser o teto de um imenso palco de onde se exibia as sonoras revoadas de pássaros a se misturar aos diversos sons dos animais nos verdejantes campos. E tudo aquilo transmitia uma paz abastada de felicidade para mim e para o meu único irmão que era mais velho do que eu.  Éramos, pois, duas crianças simplesmente felizes. Nós brincávamos com qualquer coisa que nos aparecesse; até mesmo uma pedrinha nos servia de brinquedo. Mas, para mim essa felicidade tinha data de vencimento e ela foi se diluindo durante os insuportáveis dias de aula na escola rural daquele lugar. Lá a vida me transformou em outro ser.
      Todos os dias eu ia e vinha da escola montado na garupa do cavalo de meu irmão. Para mim a viagem era segura, boa e muito divertida, pois tudo em minha volta tinha vida palpitante e os meus olhos se encantavam com a beleza dos campos sempre floridos e também com a presença de inúmeros animais espalhados entre a abundante pastagem.  Ali eu admirava o gorjeio e o colorido das aves e dos pássaros a se refletirem voando sobre os espelhos d`águas das lagoas à nossa vista.  E logo chegávamos à escola onde o meu aprendizado era praticamente uma inutilidade porque eu não conseguia assimilar absolutamente nada. Minha inesquecível professora tinha, comigo, toda paciência do mundo, pois até mesmo na hora da chamada eu não lhe dava a devida atenção e nada respondia. Por várias vezes fui por ela advertido a sempre lhe responder “presente”. Eu me sentia um ninguém frente aos colegas da classe que recebiam muitos elogios da professora, pois todos aprendiam de tudo, menos eu.
      O medo de ser castigado pelo meu pai me dava arrepios. Ele era uma pessoa rude, bruta, estúpida e sem limites para o trato com qualquer pessoa, até mesmo para com os seus dois filhos.
      Certo dia meu pai repentinamente apareceu na escola e sem apear de seu cavalo ele gritou meu nome e ao ver a professora ele lhe indagou:
      - Como o meu filho está indo com os estudos?
      Ela pensou, pensou, e calmamente respondeu:
      - Por ora eu não posso lhe dizer nada desse aluno!
      Eu, ao lado da professora, senti minhas pernas tremeram.
      E ele me disse:
      - Venha, suba na garupa!
      Ao chegarmos à nossa casa ele mandou minha mãe abrir meus cadernos sobre a mesa para verem o quanto que eu sabia ler e escrever e ambos se assustaram ao certificar que tudo que eu escrevi estava absolutamente errado. Enfurecido, e aos berros, o meu pai segurava minha cabeça virada sobre as folhas do caderno e me mostrava o que eu havia escrito, e, assim ele procedia: puxando minhas orelhas ele virava minha cabeça sobre os cadernos e gritava trovejante:
      - Olhe, veja bem o que você ficou fazendo na escola durante esses três anos, seu burro, seu animal, seu jumento, seu idiota, seu imbecil!
      Minhas lágrimas jorravam na mesa.
      Muito agitado o meu pai queria provar para a minha mãe o que eu havia escrito no meu caderno, e, aos berros, ele assim procedia:
     - Veja o que ele escreveu: a letra E está ao contrário, ela virou o número 3. Já a letra A ele a fez invertida, de cabeça pra baixo e tem o tracinho bem no fim da letra. A letra M virou um dáblio. Já o numero 3 ele escreveu igual a letra E, e a letra S está ao contrário.
     Por fim meu pai fez uma gritaria com relação a quase todas as letras do alfabeto que eu escrevi absolutamente ao contrário. Foi nesse dia que sofri o mais duro golpe vindo de meu pai e não escapei de uma surra. Por várias vezes fui chamado de louco, de maluco, de burro, de idiota, de imbecil, de jumento, de débil mental, e aos berros ele dizia que esse já era o terceiro ano que inutilmente eu frequentava a primeira série do ensino primário e que, ainda, eu não sabia de nada. Para ele era como se eu nunca tivesse visto uma letra da cartilha. Fiquei o resto daquele dia ouvindo o mesmo assunto enquanto eu chorava, soluçava, tremia e gemia.
      Passada aquela grande turbulência o meu pai montou no seu cavalo, me pôs na garupa e foi tirar satisfação com a professora. Ele queria saber a razão do porquê eu não aprendi fazer nada durante esses três anos de primeira série e a professora disse-lhe que fez de tudo que lhe era possível e que não podia fazer mais nada e, por fim, lhe aconselhou me colocar em uma escola especial, na capital.
      Não demorou muito para meu pai dizer pra minha mãe que arrumasse a minha mala porque eu ia estudar num orfanato em Cuiabá. Minha mãe, com muita tristeza, chorou abundantemente.
      Em desespero eu ouvi toda a conversa entre ambos e comecei a chorar em soluços. Eu só tinha nove anos de idade e não queria ficar longe da minha mãe. Eu nunca tinha ido à capital, mas sabia que ela ficava muito distante da nossa fazenda.
      Na hora da partida eu me agarrei às portas, às  cadeiras, às paredes e às redes da varanda, e aos gritos o meu pai me ralhava assim:
      - Pare de tanta frescura e suba já na caminhonete. Fui o último a subir.
      A viagem foi longa, silenciosa, triste e cansativa.
      A nova escola era grande, muito grande. Lá a diretora me segurou no braço enquanto a minha família saia, indo embora, e eu fiquei lacrimoso no meio do corredor gravando com meus ouvidos os inesquecíveis barulhos das portas ao se fecharem.
      Demorou muitos dias para eu me adaptar à nova vida de solidão, pois apesar de ter muitos colegas ao meu redor, eu, mesmo assim, me sentia sozinho. Meu pensamento estava sempre na fazenda que ficava a muitas e muitas léguas distantes dali.
      Lá eu tive um professor que parecia gostar de mim. Ele me dava toda atenção e muito me ajudou sair da solidão. Pacientemente ele me ensinava a ler, a escrever e a fazer desenhos para eu concorrer a um concurso da escola.
      Certo dia eu fiz um desenho de coisas da fazenda e ele me elogiou dizendo que eu era um artista. Com esse desenho eu ganhei o prêmio do concurso. Meu desenho foi para a exposição do mural e eu fui medalhado como o melhor desenhista da escola. No outro dia o professor entrou na sala de aula trazendo um espelho grande em suas mãos e me pediu para que eu mostrasse o meu caderno aberto para o espelho. Eu lhe obedeci e vi minhas letras corretamente no espelho. Depois ele mostrou para todos os alunos da sala, e comentou:
      - Vejam, as letras e os números que você escreveu só podemos vê-los corretamente através do espelho. A isso se chama dislexia. E acrescentou dizendo: - o grande cientista Albert Einstein sofreu esse mesmo distúrbio e hoje ele é mundialmente reconhecido como um dos maiores cientistas. Você também vencerá. Tenha coragem e força.
      Por algum tempo fui tratado clinicamente  e por fim me senti totalmente curado do referido transtorno.
      Dias se passaram e meus pais foram me visitar. Ao entrarem na escola deram de cara com o meu desenho exposto no mural e  protegido em vidro. Nele estava nitidamente desenhada a nossa fazenda. Meu pai se emocionou muito e chorando me pediu perdão, e eu, muito orgulhoso, o abracei. Aquele foi o dia mais feliz da minha infância.
      Estudei e me transformei num arquiteto famoso. Deixei o meu nome gravado em grandes obras pelo Brasil a fora.

                                * * * * * * * *
Essa história eu extraí de um relato dado num programa de rádio, sem deixarem nenhuma identificação do autor


José Pedreira da Cruz e extraído de uma audição radiofônica. - Autor anônimo
Enviado por José Pedreira da Cruz em 14/04/2019
Reeditado em 23/10/2019
Código do texto: T6623242
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz