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Penitência Tardia

Penitência Tardia

— “Quero cagar”! — Será impressão minha, matutou o médico legista, ou o morto falou?

Cismado, o doutor recuou um passo enquanto arregalava os olhos em direção ao corpo sem vida que havia começado a dissecar na autópsia.

— “Esse cara está morto, como pode querer defecar”? Chamou-se o médico a própria razão.

Virando-se em direção à mesinha com instrumentos cirúrgicos, ouviu:

— “É que em vida fui comunista e essa merda está a me assombrar”. — “O quê? Outra vez?” Esbugalhou os olhos e fitou o rosto lívido do cadáver.

— “Caramba”! — Exclamou o doutor recuando um passo para trás da maca. Olhou, assuntou, e, não vendo nada demais, mais calmo, refreou o pânico que poderia tomar conta de sua percepção auditiva destorcida. Aproximando-se devagarzinho outra vez do leito onde jazia o suposto morto, exclamou, ainda com os pelos dos braços arrepiados: — “Isso é que é querer se purgar”!

Fazendo de conta que aceitava com naturalidade a situação inusitada, tentou dialogar. Sentindo-se ridículo, fixou o olhar no presunto enganosamente falante: “É possível que tenhas falado mesmo"? Com certeza fora alucinação auditiva. Coçou a axila esquerda com a mão que segurava um bisturi. Os dedos da mão esquerda atritaram a região lateral da cabeça como se pleiteando uma resposta adequada ao pasmo. Resposta que não vinha.

Ainda perturbado pelo fenômeno da audição extranatural, recuou mais uma vez, distanciando-se dois passos para trás da padiola a examinar com cautela a estranha situação auditiva. — “Morto não fala, exceto quando baixa em terreiro ou sessão espírita”. Olhou para cima, para baixo. Maneou lentamente a cabeça para os lados, os olhos em oposição ao movimento do pescoço.

Pensou: “excesso de trabalho”. Recompondo-se do susto inicial, ponderou, olhando fixamente para o rosto esquálido do defunto:

— Ideologia socialista sai no cocô? Esteja à vontade.

Vendo que o famoso comuna, um general melancia, não abria a boca para falar, espreitou a sala com olhar investigativo. O clínico, pensando estar numa crise de alucinação (afinal, tinha bebido boas doses de destilado) querendo logo acabar com esse papo horrendo e surreal, falou assertivo, em concordância:

— Pode fazer! Pode fazer! Que a ordenança vai limpar! Meu general!

Decio Goodnews
Enviado por Decio Goodnews em 11/02/2017
Reeditado em 12/02/2017
Código do texto: T5909751
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Decio Goodnews
São Paulo - São Paulo - Brasil
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