348 Porcos
Trezentos e quarenta e oito porcos acabaram de entrar na minha cabeça. É porco como o quê, seu moço! Entraram aos pares alguns, outros sorrateiros e solitários, dançando tango, sim, ao som de Piazolla. Alguns se imiscuíram em bandos, deturpando as regras rígidas de Noé. Outros adentraram em casais, com a imagem em câmara lenta, ao som da trilha sonora de “2001 – uma odisseia no espaço”. Diversos animais vestiam camisetas com estampas de políticos - arre-égua! Tinha cada tipo... A novidade mesmo, foi se arremessarem os três porquinhos puxando uma rena. Teve porco que entrou feito feijoada, aos pedaços, se desmilinguindo todo. Um porco com bata branca e cajado cantava um hino e fazia coreografias da Broadway, outro, com cara de jaca insistiu em entrar de skate deslizando pelo lobo frontal. E teve ainda: porco espinho, porco armado com “três oitão”, porco dançando o funk da periferia. Ainda não falei do porco que tinha vertigem e entrou vendado, nem comentei sobre aquele que portava asa delta, daquele com roupa de Batman e por último, do porco que foi cuspido por um canhão. Contei um a um, trezentos e quarenta e oito...
Foram invadindo meu cérebro, minuto a minuto, hora após hora até que o rádio relógio acenou com seus rubros dígitos efervescentes, ás seis e três da manhã. Recolhi os três comprimidos que estavam no pires da cabeceira da cama, Aripiprazol, Clozapina e Haldol,- todos assim em ordem alfabética crescente- e os engoli, um a um, como um bom menino, sem ninguém mandar, entoando um mantra e rezando uma Ave Maria para cada cápsula ingerida. Era quarta-feira, ainda. Bom mesmo era na sexta-feira, dia dos coelhos...
Betusko – 13.05.11 - 00:15h