O espírito do vento

Quase nua observo na minha janela o cigano passando nas ruas vazias. Ele cruza uma esquina e desaparece em uma ruela com uma candeia nas mãos. São altas horas. Horas perversas que dilaceram a pele, rasgam em chamas e consomem. Quero um beijo para saciar meus delírios. O toque das asas de um anjo no meu rosto de menina. Desejo que o meu desejo seja alcançado nas vãs páginas noturnas da vida.

Uma pausa para o silêncio. Estrelas diluídas na alma, sob o céu de outono. As rosas ciganas não morrem. Lentas se esvaem nos labirintos secretos dos deuses. A delícia de ser o que sou. Triste, às vezes feliz. Uma mulher de trinta. Dama perfeita para certos cavalheiros. Ou não. Faço das lágrimas – escorrendo dos meus olhos sem piedade – um carrossel de sonhos.

Sou grata. A existência me corrói, entretanto agradeço a dor que me rasga inteira. Sinto saudade de não sei o que. Talvez das dunas, dos desertos quentes de mim mesma... Eu, nua no lombo de um cavalo branco cavalgo intensa e docemente nas brancas areias. Avisto logo adiante um mar profundo, de águas claras e azuis como a beleza das borboletas no meu jardim de tulipas. Abro os olhos. Da minha janela vislumbro o cigano peregrino com sua candeia.

Diante do espelho, visto o meu espartilho vermelho, coloco o par de meias fumê e as cintas ligas. Um cigano está a minha espera. Eu sinto que está. A inocência do primeiro amor, na luz do olhar, à luz de velas, na sala quase escura, coberta de flores e iluminada pela lua. Oh santa indecência do desejo que arde por ele. Seria esse sentimento inocente ou indecente? Querer amar e ser amada por um desconhecido? A paixão fugaz, arrebatadora de um olhar lançado pela janela.

Existe amor a primeira vista? Talvez Jobim e Vinícius soubessem me dizer. Sinto cheiro de maresia da minha varanda, tão perto do mar. É maré cheia, lua cheia. Santa Maria! Salve Yemanjá! Rainha do mar. Sereia encantadora: porque me preencho de luz quando ele passa assoviando? A magia de seu sopro traz no espelho dessas águas madrepérolas de saudade e os olhos sedutores da cigana revelam a beleza do amor.

São Jorge guerreiro, em seu cavalo branco traz a força do cigano. Meu Pai Oxalá! Faço-lhe uma promessa “se o amor nascer no coração do cigano e for recíproco e ardente quanto o meu”, prometo tocar lira para os teus anjos. Colherei rosas e lírios para Mamãe Oxum e na cachoeira saudarei teu nome. Na próxima lua cheia. Em maio. Mês das noivas. Dias de puro encanto. Saravá Meu Pai!

Pausa. Inspiro lentamente. Sinto a pureza noctívaga e o beijo das estrelas em meu corpo etéreo e aceso. A lua me olha. Sigo as pegadas do cigano nas areias macias. De pés descalços, cabelos ao vento e rosas no peito. As trilhas do desejo vão me levando... Cadê cigano? Apenas sinto a brisa acariciando meu rosto devagar. O som das ondas quebrando no mar. Ao longe, a luz fraca da candeia ilumina a minha estrada e abre os caminhos. Vou cumprindo o meu destino. Nua e só, como o espírito do vento.

Verônica Partinski
Enviado por Verônica Partinski em 27/10/2008
Reeditado em 27/10/2008
Código do texto: T1250256
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