UM DIA "DE CÃO" !

UM DIA "DE CÃO" !

O cachorro entra nessa estória meio que "de passagem", cruzando a avenida bem na frente dos nossos heróis e fazendo da vida deles um dia "de cão". Eram dois amigos antigos, criados num Morro carioca de "pipas" o ano inteiro e de "peladas" sábados e domingos, de tarde. Fora disso, uns bordejos pela praia lá pelo meio-dia nos fins de semana, para "aliviar" de sua Nikon ou de sua "pochete" ou bolsa de grife algum turista descuidado. Eram os anos 70, ainda não se tinha inventado os "arrastões" que aterrorizariam as praias de toda a Zona Sul.

"Marcha Lenta" e Nei "BlackSoul" estavam "na onda de James Brown", os cabelos a la Ângela Davis sempre cuidados com enormes "garfos de madeira" à guisa de pentes caseiros. Quando "arrumavam algum" nas "paradas" nas feiras-livres do bairro inteiro ou mesmo em algum "trampo" ocasional do tipo "bico", gastavam a grana da mesma forma: em "bolachões" (os discos LPs) do Rei do Funk e de outros na mesma linha, o Parliament, Glória Gaynor, o "pessoal todo" da Motown, enfim... do FUN K !

A "outra forma" as lojas de Rent a Car já conheciam: alugar um carro de boa marca, bem vistoso e "sair por aí / pra o que der e vier", conforme a música. Com carteira falsa, claro, mas as lojas nem ligavam, só queriam a grana dos rapazes favelados. E lá estavam eles na Avenida Atlântica, "voando baixo", "tirando chinfra" com os conhecidos a pé no calçadão, ou seja, gozando a Vida que a morte é certa. Eis que um "camburão", o carro de Polícia da época, ainda sem cirene "cola neles", na pista ao lado. Estavam "limpos", sem "bagulho", "gererê, manga rosa", pra evitar broncas, cadeia.

O carro preto avança. os ultrapassa, depois diminui... um cãozinho de madame atravessa a pista ! Os rapazes jogam o carro pra direita, pra não atropelar o bichinho, que passa sem nada perceber. Vão "riscando" a lateral preta do carro policial, que sinaliza para encostarem. Logo junta gente em volta... "ladrões de carro" pensam todos, afinal eram negros. Felizmente tinham carteira de Trabalho e assinada, pra tirar qualquer "bronca" de cima deles. Além disso, a documentação do "carango" estava OK, tudo "numa boa". Começaram a "negociação", os "milicos" só queriam "o da cerveja", até porque nem era caso pra prisão deles, todo mundo "voava" naquele pistão lindo.

-- "A gente só tem 200 "mangos", "quebrem esse galho" pra nóis, camaradas" !

-- "Não somos seus camaradas... tá me achando com cara de mendigo !", replica o que seria o sargento, o chefe.

-- "O pintadinho sai pra "arrumar mais algum" e o teu mano aí fica "de garantia". Se tu não voltar, teu "bróder" vai pro xilindró, por direção perigosa" !

O "pintadinho" era o Nei "BlackSoul"... fizera em casa um descoloramento do "pixaim" e só algumas partes aloiraram, ficou tipo "tapete velho" o cabelo "bléquipau" !

Nei saiu circulando entre as mesas dos bares da orla, sabia que a turistada se descuidava, deixava bolsas e carteiras sobre mesas e cadeiras, para ir fotografar as beldades nos primeiros dias do "fio dental", causando furor nas praias cariocas. Em 15 minutos voltava sorridente, a camisa colorida de turista japonês "dando bandeira", "cheguei total" visível a cem metros. Os guardas saíram felizes... era grana abessa e em dólares ! Os jovens voltaram ao carro, indo embora à toda para a loja, para devolver a "máquina". Nei sabia que o turista "aliviado" da bolsa iria denunciar seu cabelo e camisa. O pessoal do "camburão" recebeu o QAP, QRA, QRM... enfim, a notícia do furto, via Rádio portátil, o tal "walkie talkie", avô do celular antigo, um "tijolão":

-- "Jovem negro, cabelão "onça pintada" e camisa "cheguei", roubou um turista no "calçadão", no Posto 3" !

Eram eles... agora poderiam "entrar em cana" !

A essas horas já estavam num táxi, voltando às pressas pro Morro do Vidigal, em São Conrado. O "camburão" chegou lá primeiro, "manjava" onde "as peças" moravam. Avistaram o carrão preto, ameaçador lá no fim da pista, "na boca" da favela famosa. Deram meia-volta ainda no táxi, que "o mar não 'tava pra peixe" ! Só subiram (n)o Morro de noitinha, a polícia não ía lá dentro, era "guerra" na certa !

Vão ficar um bocado de tempo "soltando pipa", ficaram "manjados" na área... Nei teve que "repintar" de preto a gadelha multicor, para seu desgosto. "Essa Vida é uma merda... pobre nem pode se divertir" !, pensava chateado, ainda sem o que fazer com o resto dos dólares "ganhados" (?!) do turista americano.

"NATO" AZEVEDO (19/março de 2025, 3hs)