DETETIVE MAURO LOBATO 2 | CAPÍTULO 3

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A última vez em que Mauro Lobato se sentiu ridículo, foi quando ainda cursava o segundo grau técnico em administração e era perdidamente apaixonado por uma menina do terceiro ano que mal notava sua existência. Lobato a seguia por todo o colégio. Durante o intervalo, enquanto a mesma conversava com as outras meninas degustando o lanche caro da cantina da instituição, lá estava também o jovem Mauro a espiando. Levou um certo tempo até a garota tomar ciência de que havia alguém interessado nela. O “Não” emitido por Raquel é ouvido até o dia de hoje e tudo isso aconteceu diante dos colegas de classe do humilhado Maurinho.

Hoje. Quase quarenta anos depois, Lobato voltou a sentir aquela mesma sensação ao abordar sua ex-mulher num dos extensos corredores do supermercado.

— Eu sabia que viria atrás de mim. Eu não estou acreditando que esteja fazendo isso, Mauro.

— Nem eu na verdade. — engoliu seco.

— O que você quer? — Pegou uma caixa de sabão em pó.

— Eu só queria lhe pedir perdão pessoalmente. Olhar em seus olhos…

O carrinho voltou a andar indo em direção ao setor de higiene pessoal.

— Podemos conversar ou está difícil? — Andou atrás dela.

— Você não está vendo que eu estou fazendo compras?

Lobato observou uma garrafa de vinho dentro do carrinho.

— Eu posso te esperar lá no estacionamento? Eu te levo em casa.

— Não será preciso. — Abaixou para pagar meia dúzia de sabonetes.

— Por favor, vai. — Juntou as mãos.

Já de saco cheio, Denise parou por um instante.

— Ok! Me aguarde no estacionamento.

Uma hora depois Mauro e Denise estão frente a frente dentro do carro ainda no estacionamento. Diante da expressão gélida da mulher, Lobato não conseguia formular uma frase completa sequer.

— Então você me perdoa de verdade?

— Você já me perguntou isso milhões de vezes e eu já respondi que sim. Podemos ir agora?

Ligou o carro.

— E como está a vida?

— Tudo dentro do planejado. E você e a sua chefe, estão bem?

Mauro deu de ombros.

— Vai mesmo morar com uma menina que tem idade para ser sua filha? Corajoso hein. — Denise estava sorrindo.

— Será que podemos parar de falar da Bianca?

— Como assim? Já sei, a Bianca não é nada muito sério. Para você ela não passa de um remédio anti estresse, acertei?

Outra vez não houve resposta.

— Pois é. Como dizia Gil Gomes, “os canalhas também envelhecem”.

— Você diz que me perdoou, mas pelo visto o rancor, a mágoa e a raiva ainda estão bastante ativos dentro de você, não é mesmo?

— E como você quer que eu me sinta? Fui traída e trocada por uma mulherzinha sem futuro. Logo eu que sangrei sozinha em busca da nossa felicidade. Coloque-se no meu lugar. — Vociferou.

O carro dobrou a esquina de sua antiga rua obrigando Lobato a reduzir a velocidade.

— Você está coberta de razão. Sou um canalha mesmo, um adúltero, mas eu ainda te amo muito, Denise e me sinto mal quando penso no que fiz.

Denise viu as lágrimas brotarem devagar dos olhos cansados do ex marido.

— Tenha um bom dia, detetive Mauro. — Pegou as sacolas no banco de trás e desceu.

*

O monitor mostra até com uma certa qualidade as imagens de Fox chegando no portão da garagem da casa dos idosos perto da meia-noite. Ele usa uma mochila preta nas costas e boné sem marca. Jaime introduz algo na fechadura fazendo movimentos rápidos para cima e para baixo. Sem precisar fazer muita força, ele abriu o portão e entrou. Antes que o relógio pudesse marcar meia-noite e dez o invasor reapareceu já com a mochila cheia.

— Pausa aí. — falou Lobato logo atrás de Lucão. — Tem como dar uma olhada em toda a extensão da rua?

— Só se for agora.

Lucas Lobo lhe mostrou outras imagens captadas de uma câmera instalada num dos postes no final da rua. A qualidade é ruim, mas deu pro gasto.

— Está vendo aquele carro ali parado todo apagado?

— É verdade, eu não tinha visto devido a sombra. Há um carro parado perto das árvores. — Lucão chegou mais perto.

— Há alguém dentro dele lhe dando cobertura. Fox não agiu sozinho.

— Faz alguma ideia de quem seja?

— Não! — Andou até o outro lado da sala onde há alguns papéis em cima da mesa. — Jaime Bastos já é figurinha carimbada no meio do crime. Chegou ao nosso conhecimento certa ocasião que ele vendia seus serviços como ladrão aos grandes grupos criminosos de Parque São Lopes a peso de ouro.

— Então não estamos lidando com um ladrãozinho pé de chinelo qualquer. O cara é bom no que faz?

— Sim. E agora que se tornou um assassino as coisas só pioraram.

De forma soturna o investigador organizou a papelada e as pôs em uma pasta preta sob a supervisão de seu companheiro.

— Qual o próximo passo?

— Quero que vá até a residência dos velhos e consiga novas informações. Eu preciso falar com alguém em especial.

*

Com o sol já se pondo lançando sobre a cidade raios alaranjados, uma motocicleta vermelha cortou lentamente o caminho sulcado daquele terreno baldio localizado na zona industrial parando ao lado de um veículo. O seu condutor tirou o capacete revelando ser uma mulher negra de feições grossas usando tranças coloridas. Ela desceu da moto dando dois toques com os nós dos dedos no vidro da janela do carona. Lobato autorizou sua entrada.

— Quando irei saber o seu verdadeiro nome, princesa? — perguntou o agente logo de cara.

— E isso importa? — A voz da mulher é rouca e o seu hálito é uma terrível mistura de uísque e charuto.

— Claro que importa. Já fazemos negócios a tanto tempo…

— Chega de enrolação, coroa. Trouxe minha grana?

— Eita ferro. — pegou o celular no bolso.

— O que pensa que está fazendo, cara? Nada de Pix. Meu negócio é dinheiro vivo, sacou?

Sem muita paciência e querendo sair logo daquele lugar, Mauro Lobato tirou de sua carteira três notas de cem e as entregou.

— Tirando o cheiro da minha branquela, esse é sem dúvida o segundo melhor aroma do mundo. — Cheirou as cédulas.

— Então vamos aos negócios. Tem notícias do Fox, ele tem aparecido por lá?

— Pouco. A última vez ele parecia desesperado.

— O que ele foi vender?

— Dois relógios e cinco iPhones. Saiu de lá com oito mil. Reclamou pra caramba, e acabou tomando uns tabefes do segurança pra deixar de ser besta. — Riu a informante.

— Oito mil? Ele deveria estar precisando muito mesmo. — Lobato pôs as mãos no volante. — E quando foi isso?

— Ah, bicho, sei lá. No meio da semana passada. — Coçou a cabeça. — Desde então ele não apareceu mais.

— Consegue ficar de olho nele, me avise se ele aparecer? — olhou para os lábios carnudos da informante.

— Isso vai lhe custar mais trezentas pratas. — coçou o queixo.

— Posso pagar com um beijo? Sua boca está irresistível hoje.

A mulher se afastou e arqueou uma das sobrancelhas.

— Nada feito. Agora eu só tenho olhos para a minha branquela magrela lá em casa. Cadê minha grana?

Mais três notas de cem reais foram retiradas da carteira e entregues nas mãos da motociclista misteriosa.

— Toma. E não tente me passar a perna a menos que queira continuar com o seu trabalhinho de merda.

Antes dela desembarcar eles trocaram olhares não muito amistosos.

— Verme maldito. — Balbuciou.

*

Jaime ocupou uma das cadeiras disponíveis na recepção segurando firme sua mochila preta olhando para todos os lados transpirando feito uma tampa de panela. Claro. Toda essa apreensão tem motivo. Na última vez em que esteve ali, uma clínica odontológica — de fachada, vale lembrar — as coisas não terminaram nada bem para ele. Fox teve o rosto atingido por dois socos desferidos por Dãozão, segurança do local.

Diferente daquele dia em que Jaime Bastos tinha apenas dois relógios e cinco celulares, hoje, o que ele tem no interior de sua bolsa o fará deixar esse lugar nadando na grana.

— Oi. Boa noite. O senhor já pode entrar. — Disse a recepcionista gordinha com seu típico mau humor.

— Com licença.

Fox entrou no consultório e lá dentro ele abriu uma outra porta anexo onde Dãozão o aguardava do outro lado.

— Opa! Como vai? — Gaguejou Fox.

— Vou bem! O que você tem aí?

Com mãos trêmulas a mochila foi aberta. Aos poucos a expressão raivosa do brutamontes foi sofrendo uma mutação.

— Putz! — Pôs a mão gigante na boca. — Qual o seu lance inicial?

— Pensei em trezentos mil, mas podemos negociar. — Engoliu seco.

— Ainda bem que o homem lá dentro está de bom humor hoje. Vou levar o material até ele. — Os dentes do segurança parecem alhos de tão grande que são.

Trezentos mil reais é dinheiro o suficiente para alguém conseguir ajeitar sua vida e ainda sobra para uma viagem pelo nordeste brasileiro. Pouco tempo depois Dãozão reapareceu segurando a bolsa olhando friamente para ele. Fox se preparou psicologicamente para receber outra surra.

— O chefe analisou o produto e foi confirmado a veracidade delas. O seu dinheiro está aí dentro. — Jogou a mochila.

— Mas é claro que são verdadeiras. — Abriu a bolsa e se deparou com dezenas de notas de cem. — Quanto tem aqui?

— O que você ofertou. Eu disse que ele estava de bom humor hoje.

— Valeu. Eu já vou indo.

Mais que depressa o ladrão se evadiu da clínica tendo nas costas uma pesada mochila contendo uma pequena fortuna. Do outro lado da rua há alguém sentado numa motocicleta vermelha com outro alguém na garupa, uma moça magra e bastante branca, observando quem entra e quem sai da tal suposta clínica odontológica.

*

Assim que Lobato foi informado de que Jaime Bastos havia deixado o mercado negro carregando uma bolsa cheia de dinheiro, Lucão emitiu um alerta para os aeroportos e rodoviárias, além é claro de deixar equipes de prontidão nas principais vias da cidade.

— Agora é só uma questão de tempo. — Afirmou Lobo esfregando as mãos.

Bermuda jeans branca. Tênis sem meia. Camisa regata preta e óculos de sol estilo aviador. Foi com esse padrão que o ladrão mais procurado de Parque São Lopes desembarcou do Uber em frente a rodoviária. A corrida custou muito menos de trinta reais. Ela foi paga com uma nota nova de cem e Fox não fez questão do troco.

— Tome uma cervejinha.

Godói e Lobato se pegavam escondidos no depósito de material apreendido em operações quando o celular do agente vibrou retirando-o do clima quente.

— Lobato falando. — Disse ofegante.

— Onde você está? Fox foi identificado entrando na rodoviária. — Lucão parecia tenso.

— É hora da ação.

Júlio Finegan
Enviado por Júlio Finegan em 10/03/2025
Código do texto: T8282189
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