DETETIVE MAURO LOBATO 2 | CAPÍTULO 1

Detetive Mauro Lobato 2

1

Envelhecer não é para qualquer um. Aliás, envelhecer não é para quem quer, mas sim para quem pode. Graças ao Criador do universo, Mauro Lobato, mesmo se aproximando da melhor idade, ainda consegue arrancar de jovens mulheres como Bianca Godói gemidos e mais gemidos em noites de prazer. Mas verdade seja dita; hoje em dia, o corpo do experiente policial já começa a sentir os efeitos e o peso da idade sempre que é obrigado a correr, subir escadas, circular durante todo o plantão nos corredores do departamento e… fazer amor com sua namorada vinte poucos anos mais nova do que ele.

— Nossa! Continua mandando bem, hein meu velhinho. — Bianca se jogou ao lado de Lobato na cama após voltar do banho.

— E você segue sem ter pena de mim, não é? — Respondeu ofegante. — Eu tenho a impressão de que hoje batemos o nosso próprio recorde.

A delegada esticou o braço até sua mão alcançar o celular na mesinha perto da cama.

— Uau! Temos um novo recorde de fato. Duas horas e quarenta e sete segundos. Você é mesmo uma máquina, senhor Lobato.

Levantando os braços como se estivesse erguendo um troféu, Mauro foi acometido por um pensamento o qual o fez perder toda a graça do momento. Denise. Durante o tempo em que foi casado com ela, Mauro se lembra do quão foram difíceis as noites onde eles acabavam discutindo feio pela falta de intimidade ou pelo longo intervalo entre uma transa e outra.

— Por que sempre sou eu que tenho que lhe procurar? — Dizia Lobato em mais uma tentativa frustrada de conseguir uma noite de amor.

— É simples. É você quem está com vontade e não eu, então… — Se virou para o outro lado dando as costas para o marido.

Um casamento que já começou dando errado dificilmente os pares conseguirão reverte-lo. Deve haver muita força de vontade de ambas as partes.

Mesmo podendo desfrutar do corpo de Bianca todas as noites ou simplesmente quando sentir desejo, a saudade que sente da ex esposa o deixa tão para baixo, tão deprimido, que nada, absolutamente nada o faz se alegrar.

— O que houve, amor? — Godói se aproximou um pouco mais.

— Nada!

— É a Denise, não é? Ela ainda o assombra?

Silêncio.

— Eu às vezes me sinto culpada. Casamento é algo muito sério. Temos que nos colocar no lugar da outra pessoa…

— Se existe algum culpado nessa história toda esse alguém sou eu. Você é uma menina solteira. Não se preocupe, vou superar mais essa.

Meu Deus! Como Mauro gostaria que tudo isso que acabou de declarar fosse simples e fácil. A superação de um divórcio leva tempo e machuca demais e nem todos possuem uma estrutura sólida para tal fim.

*

Ao lado dos PMs que guardam a entrada do conjunto de quitinetes alugadas a preço de banana num dos bairros mais pobres da zona oeste de Parque São Lopes se encontra Lucas Lobo, ou melhor, Lucão como gosta de ser chamado. Alto, branco, cabelos negros, compridos presos por um boné preto e barba rala. Lucas mais parece um campeão de surf do que um investigador de polícia. O novo parceiro de Lobato é recém chegado à cidade e está doido para mostrar serviço.

— Eu não consigo acreditar. Como alguém consegue matar uma gostosura daquelas? — Despejou um dos militares.

— Pelo visto vocês a conhecem bem? — Lucão olhou e viu o carro de Lobato dobrando a esquina.

— E quem não a conhecia? Lua era a melhor e a mais disputada meretriz do pedaço. Só para você ter uma ideia, ela só tinha agenda para o segundo semestre.

Mauro desembarcou ao mesmo tempo que Bianca. Foi inevitável os olhares dos homens para a delegada.

— Como vai, agente Lucas? — perguntou Godói.

— A senhora pode me chamar de Lucão mesmo.

— O que temos pra hoje? — Lobato cumprimentou os outros PMs.

— Deu ruim para a Lua. — Respondeu o PM careca e de bigode.

— Lua, a garota de programa? — Lobato olhou para a entrada das quitinetes.

— Ela mesma. Parece-me que foi por estrangulamento. — Acrescentou.

— Lua era uma prostituta cara. A pessoa que reside aqui, nem em sonho conseguiria pagar o programa. — Disse olhando para Bianca.

— Vamos lá dar uma olhada. — mandou Godói.

Apertada. Mal preservada em todos os sentidos. Logo de cara é possível ver ligações clandestinas de água, furtos de energia, sem falar das inúmeras pichações de facções locais nas paredes. O trio de agentes subiu até o local do crime dando de cara com o corpo de Mônica Farias, ou melhor, Lua, jogado de qualquer forma naquele chão de pisos irregulares e soltos.

— Minha nossa. Ela é enorme. — comentou Lucão. — Linda realmente, mas enorme.

— Parece que houve um terremoto aqui dentro. — Godói cruzou os braços.

— Sabe o que mais me intriga? — Lobato acocorou-se perto do cadáver. — O que Lua fazia num lugar como este.

— Veio atender a domicílio. — Lucão também se abaixou.

— Duvido muito. Lua era uma garota exigente. Não aceitava qualquer um. Caridade não era o seu forte. E além do mais, eu fiquei sabendo que o programa dela atingiu valores absurdos. Pé de chinelo algum conseguiria pagar. — Levantou-se com uma certa dificuldade. — Verifique com o proprietário quem alugou aqui.

— Pode deixar comigo. — Deixou o lugar.

Bianca não tirava os olhos do corpo de Lua. Como uma mulher do porte dela permitiu que algo desta natureza acontecesse? É muita ingenuidade da parte dela. Apesar de possuir uma boa altura e uma bela estrutura física, Lua é mulher. Com certeza a pessoa que lhe tirou a vida é dez vezes mais forte. Dez vezes mais ágil. Um covarde.

— No que está pensando? — Lobato atravessou a pequena sala.

— Em tudo e em nada. — Suspirou. — Uma mulher absurdamente linda, morta desta forma. Que mundo é esse?

— Calma aí, dona Bianca Godói. A vida é feita de escolhas e Mônica. — Apontou para o cadáver. — Infelizmente fez a escolha dela.

— Sim, mas não justifica. É nosso dever pegar quem fez isso…

— Opa, opa e opa. Não permita que o lado pessoal ultrapasse a linha, delegada. A investigação só está começando…

Lucão adentrou ao espaço com novas informações.

— Segundo o proprietário, não foi ela quem alugou, mas sim um sujeito bastante estranho.

— E ele consegue identificá-lo? — Godói andou até a janela ao lado de Lobato.

— Sim. Mediano, pele clara e tem um acentuado defeito no olho direito. — Cruzou os braços.

— Estrabismo. — Balbuciou Mauro.

— Conhece algum suspeito com essas características? — Bianca se dirigiu a Lobato.

— Talvez!

Nesse momento o pessoal da perícia simplesmente invadiu a sala sem pedir licença aos agentes presentes.

— Vamos! — gesticulou Godói.

*

Para Mauro Lobato uma generosa xícara de café puro, e para Lucas Lobo uma água mineral com gás e limão espremido. Antes de seguirem para o DPPSL, vale uma rápida parada na padaria da esquina com a finalidade de pôr as ideias em ordem.

— Há quanto tempo está na polícia, Lobo? — Abriu o sachê de açúcar.

— Me formei em 2014. Graças a Deus consegui realizar o meu sonho e o sonho do meu avô que me criou. Ele também foi policial.

— Que bacana. — Provou o café.

— Posso lhe fazer uma pergunta?

— Até duas. — Abriu outro sachê de açúcar.

— O que acha da Godói?

Lobato procurou agir com naturalidade.

— Diz você, o acha.

Só depois de engolir seco algumas vezes foi que Lucão conseguiu responder.

— Bom! Além da excelente profissional que é, Bianca é…

— Um tesão. Acertei? — falou com um sorriso enviesado.

— Muito. Demais…

— Cuidado, meu rapaz. Não me diga que está apaixonado pela chefe?

— Não, não. De forma alguma. Conheço as regras muito bem.

— Ótimo! Melhor mudarmos de assunto então. — Outro gole na bebida quente. — Eu já contratei os serviços da Lua uma vez. Ela me proporcionou uma das melhores experiências sexuais da minha vida. E na época o programa dela já era caro, mas valeu cada centavo.

— Então vejamos bem. Para uma pessoa como Lua, dinheiro não era o problema. Por que ela aceitaria um programa num lugar como aquele?

O último gole de café foi girado dentro da caneca e em seguida lançado para dentro da garganta do agente.

— Lua trabalhava para um prostíbulo também. Vamos até lá.

*

No letreiro luminoso pendurado acima da porta de entrada está escrito “wisqueria” mas, basta subir alguns lances de escada para ter certeza de que tudo não passa de fachada. De início, os agentes são conduzidos até o interior do prostíbulo por uma mulher negra de seios volumosos amostra fumando usando cigarrilha. Lucão estava em choque com tudo aquilo.

— Tem certeza de que não querem nada para beber? — A mulher tinha a voz típica de fumante.

— Estamos a trabalho. — respondeu Lobo.

— A trabalho? — deu de ombros.

— A Lua foi assassinada. — Lobato diminuiu os passos.

— A Mônica foi morta? — Vociferou chamando atenção de quem estava por perto.

— Sim. Nós viemos aqui para saber se ela andava envolvida com algum cliente. — Lucão não tirava os olhos dos seios.

— Eu não sei de nada. Meu Deus. A Lua era a nossa referência. — Disse engolindo o choro. — Logo ela que tinha o sonho de largar essa vida, voltar para o interior e abrir um lance de festa por lá.

Às outras meninas também se viram comovidas instaurando de vez o clima de luto.

— Nós já estamos indo. Se souberem de alguma coisa é só me ligar. — Lobato lhe entregou o seu contato.

Mauro e Lucas estavam deixando a “Wisqueria” quando uma voz feminina vinda de dentro do prostíbulo os fez girar nos calcanhares. Era uma moça mignon, branca, usando um biquíni vermelho, chorando horrores.

— Eu não sei se vai ajudar, mas não custa nada tentar. Há três dias apareceu um rapaz aqui procurando pela Lua. Ele parecia bem nervoso.

Lobato e Lobo se entreolharam.

— Você o reconheceria se o visse? — Mauro estalou os dedos.

— Acho que sim. Ele tinha um dos olhos meio torto…

— Estrabismo. — disse Lucão.

— Muito obrigado. Você ajudou demais. Pode deixar com a gente. Vamos pegar quem fez isso com ela. — Lobato apertou as mãos minúsculas de mulher.

*

Sozinha e assistindo a uma programação que fala sobre a exploração da vida marinha ao redor do mundo numa emissora de TV pouco acessada. Denise Pereira, ex-esposa de Lobato, vem encarando seus dias e principalmente suas noites da melhor forma, ou do único jeito que conseguiu. Assim que se viu divorciada e sozinha, ela fez questão de condicionar sua mente quanto ao viver só. Agora sim a fala de sua mãe faz todo o sentido “ruim com ele, pior sem ele”, mas Denise é orgulhosa demais para aceitar que está sofrendo. Ela prefere ignorar tal sentimento.

Finalmente o entediado documentário sobre exploração da vida marinha chegou ao fim. Sem se dar conta disso, Denise segue olhando para a tela da TV imaginando o que Mauro estaria fazendo naquele momento, certamente trepando com a vaca da chefe dele. Esse pensamento havia acabado de passar por sua mente quando o celular posto no braço do sofá tocou. Mozão, meu Deus, eu ainda não troquei o nome desse contato? Pensou se negando a atendê-lo.

Júlio Finegan
Enviado por Júlio Finegan em 01/03/2025
Reeditado em 01/03/2025
Código do texto: T8274959
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